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A nova Índico

por jpt, em 05.05.10

[Índico, Série III, nº.1, Maio-Junho 2010]

Este é o primeiro número da nova série (a terceira) da Índico, a revista das Linhas Aéreas de Moçambique (LAM). Que passou a ser editada por Nelson Saúte, o qual logo a tornou algo distinta. Se a série anterior era muito capaz, enquanto mera revista de bordo, o novo formato eleva a Índico à revista cultural moçambicana, com toda a certeza a coleccionar (assinar?, ou a ir pedir às delegações da LAM?), algo que muito faltava no país. Veja-se este primeiro número, que surge com artigos evocando o mundial de futebol que o vizinho albergará e o trigésimo aniversário da companhia, neste caso com texto de José Luís Cabaço. Mas depois, e para além de alguns textos de ocasião sobre destinos turísticos, surge o núcleo duro. Luís Bernardo Honwana revelando-se como surpreendente fotógrafo. E textos de Eduardo White, Marcelo Panguana, Mia Couto, Nelson Saúte, Paulina Chiziane, Júlio Carrilho, Ungulani Ba Ka Khosa, uma selecção nacional das letras moçambicanas. E um cuidado, sempre discutível mas cuidado, roteiro da capital. Para além de escaparates dedicados à edição livreira e musical, bem como aos ateliers de artistas plásticos.

A desejar bons mares e bons ares à Índico. Para que assim se mantenha.

jpt

publicado às 16:01

...

por jpt, em 05.03.05

Lindiwa, porém, era uma mulher nova, o sangue corria-lhe impaciente nas veias, desejava ser amada, acordar todos os dias nos braços de alguém, como o capim debaixo da cacimba.

[Marcelo Panguana, Os Ossos de Ngungunhanha, 64]

publicado às 09:31

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por jpt, em 05.03.05

"Ngungunhanha acordou nessa manhã bastante sobressaltado, ergueu-se vagarosamente da sua campa, pousou os pés no chão, colocou as mãos no queixo e assim permaneceu durante algum tempo, até que viu se aproximar um tal de Aleixo, o homem que estava encarregue de cuidar zelosamente da sua campa. Espreitou a poeira que lhe cobria o corpo, arrumou-se vagarosamente e ficou esperando que esse homem que lhe dedicava uma enorme afeição se fizesse perto. O branco chegou perto dele, gesticulou, tentando lhe dizer algo, nada, porém, saíu da sua boca. O antigo rei dos vátuas viu o rosto do coveiro encharcar-se de lágrimas enquanto abria com os dedos trémulos o jornal que trazia entre as mãos e leu a seguinte notícia: "O Imperador regressa a casa". Só isso! Depois sentou-se sobre a campa e desfez-se em prantos. Comovido, o antigo rei dos vátuas colocou-lhe as mãos nos ombros, incapaz naquele momento de inventar alguma palavra de consolo...."

[Marcelo Panguana, Os Ossos de Ngungunhanha, 3]

publicado às 09:29

Imagem Passa Palavra

por jpt, em 07.11.04
O projecto IDENTIDADES, almeado por José Paiva, lançou esta semana em Maputo "Imagem Passa Palavra", um livro que associa obras de 50 artistas plásticos e 50 escritores dos países de língua oficial portuguesa.

IDENTIDADES é um belo projecto de articulação, centralizado na Cooperativa Gesto (Porto), na Faculdade de Belas Artes do Porto e na Escola de Artes Visuais (Maputo). Desde 1996 que tem desenvolvido as suas actividades, de modo constante. E com muito boa onda. Rara. Para além das manifestações artísticas e da interligação pedagógica, esta muito frutuosa, o IDENTIDADES conseguiu por ora incluir a Faculdade de Arquitectura do Porto no projectar da futura Escola de Artes Visuais aqui.

Muito honestamente Paiva e sua gente, bem como a EAV, têm dado um exemplo de como com algum apoio institucional, nada faraónico, se podem produzir belos e duradouros frutos na "cooperação" cultural. E, repito, têm muito boa onda. Em linguagem mais séria, entenda-se mais política, dir-se-á que têm a atitude correcta para quem faz coisas num estrangeiro muito especial. Um estrangeiro mútuo. Enfim, são um case-study. Aliás a ser feito. Que venha a servir para consulta aos candidatos a profissionais!


"IDENTIDADES é um movimento artístico, iniciado em 1996, com um programa de intercâmbio cultural entre Moçambique e Portugal. Desde aí tem cumprido diversos projectos e realizações, partilhadas também por pessoas de Brasil e Cabo Verde, países ligados pela língua portuguesa.

Em 200, o IDENTIDADES inicia a sua actividade editorial em livro com o lançamento da "Colectânea Breve da Literatura Moçambicana". Este livro reúne prosa e poesia (inédita ou não) de escritores moçambicanos, quer jovens, quer consagrados. (...)


A teia de relações que se estabeleceu ... animou-nos para a continuação da actividade editorial... Nesta nova obra invertemos a corrente: a imagem foi realizada primeiro, por 50 artistas plásticos...A partir das imagens, os escritores desafiados escreveram 50 textos inéditos, sendo que ficou estabelecido que os "duetos" não deveriam ser formados por pessoas da mesma nacionalidade (...)

Identidades, 2004".

Do livro retiro algumas ilustrações, ao meu gosto. Para provar que vale a pena? Sim, mas acima de tudo por prazer. E amizade. Assim aqui ficam pequenos excertos, de onde há muito mais.

O Velho ainda legou este:

Minha pausada forma de respirar.
Meu impestanável silêncio absorto.
A cabeça inclinada para o lado inverso
e nos lençóis a imobilidade dos dedos
não significa para a jovem nua deitada à esquerda
que o Zé da viagem aos cios do grande rio Zambeze
regressa ao Zé dos imenso lago Niassa do tédio?

(José Craveirinha)


(Rui Assubuji)

Suleiman Cassamo está, e é sempre bom sabê-lo na escrita. Faz falta. Em especial quando vem dizer: "Agora, o menino ranhoso que mijava no ntehê, nas costas da mãe, é dono do seu nariz. Acredita não ter inventado não só a vela mas também o vento da sua errante navegação. Revê-se na aranha, traçando o seu destino cósmico com a matéria da própria saliva".


(Ciro Pereira, fragmento)

Guita Jr. numa prosa até longa que lhe desconhecia, com a bela história de "Jesuíno Zaqueu, o Zaqueu para toda a gente da pequena e humilde cidade do sul, cantava cego o seu refrão para os transeuntes surdos da sua canção...Uma existência de total remissão. De pecado."


(Gemuce, fragmento)

Panguana também veio, para acabar: "E de vez em quando um pássaro que irrompe casa adentro e ensaia um cântico sempre que o poeta, triunfante, olha para o poema acabado e grita: Eureka!"



(Idasse, fragmento)


E muitos outros, daqui e não.

Confesso que estes livros, coisas objecto, colectâneas-encomendas, nunca me dizem assim nada, quase sempre falham. Coisa diferente aqui. Alquimia. Talvez a alquimia do IDENTIDADES.

publicado às 08:16

Os livros de Natal e as editoras

por jpt, em 29.12.03
Não se queixam muito os livreiros de Maputo, não lhes corre assim tão mal o negócio, e não falo só destes finais de Dezembro. Bom sinal! E ainda que o grosso das vendas seja livro estrangeiro, para este Natal animaram-se as edições na escala do mercado local. As duas semanas anteriores foram de azáfama nos lançamentos, alguns ainda com chamuças e vinho branco, a não perder, mesmo que não se leiam (ou comprem) os livros.
 
 
Mas depois basta ir comprar os presentes para resmungar com a distribuição, as novidades não aparecem. E quando se fala de tiragens pequenas, a oscilar entre os 500 e os 1000 exemplares, e de editoras não muito abonadas, o que significará perder uma estação natalícia?
 
 
Talvez não muito, e este é um problema outro, pois a maioria das edições que surgiram chegam por via de patrocínios. Dinheiro em caixa, edição paga, distribuição esquecida? Se calhar é isso, e depois lá ficam os caixotes de livros em armazém e o “ai, ai, que os livros não se vendem, não há mercado”, e estou só a falar em Maputo, que no resto do país nem se fala. E os autores a não serem lidos, ou tão lidos como o gostariam, e isso ainda é o pior.
 
 

Andei pelas livrarias, a comprar as poucas prendas e a falar com os empregados. Nas duas maiores livrarias de Maputo, as Escolar Editora, comprei o antepenúltimo “As duas sombras do rio”, o qual está esgotado, cinco meses depois de sair. Que raio, porque fizeram tão poucos? Do último de Mia CoutoO Fio das Missangas”, edição local há apenas um mês restam 30 em armazém, e repito a pergunta. Do delicioso “Xingondo”, belas crónicas de Daniel da Costa, nem vê-lo. E estas nem são edições patrocinadas, mas faltou qualquer coisa.

 

[Já agora que falo do Xingondo, um aviso de não crítico a quem chegou até aqui. É o cronista que mais me encanta nesta terra, não um imortal, mas algumas das peças bem conseguidas e, mais do que tudo, com uma ironia suave por aqui tão única, que o hábito dos seus colegas é um risco bem grosso, para ser nítido, que até cansa].

 

De Panguana, “O Chão das Coisas”, a biografia de Coluna “O Monstro Sagrado”, “A Viagem Profana” de Nelson Saúte, tudo da segunda metade de Dezembro nem sombra. Deste pacote de fim de ano só os “Poemas de Prisão” de Craveirinha à venda, nos escaparates usa-se dizer, e talvez porque noblesse oblige. E, atenção, todos patrocinados. Causa - efeito?

 

Cá para mim anda-se a dormir na forma, mas enfim, não sou homem de negócios. Mas fico-me, falta distribuição, não tão difícil assim em Maputo. Repito, é o raio dos patrocínios, o livro está feito, há o objecto e pronto, ninguém se preocupa mais.

 

E já agora, que falo de livros. Bebo com o poeta Afonso dos Santos, ele ia mais adiantado do que eu, mas ainda assim vai dizendo que anda à procura de editora para dois novos livros. Um “Coleccionador de Quimeras” que aqui esgotou 750 exemplares de poesia e anda à procura de quem o edite? Em casa vou ver-lhe o livro e lá está, patrocínio institucional, cheira-me a metade da edição metida em caixotes como retribuição do taco avançado e, aposto, desde então condignamente clandestinos para não desarrumar os corredores. Não sou muito de poemas, defeito ou característica, não sei. Mas um tipo que se avança com

 

Quando as minhas angústias

começam a morder-me

ponho-lhes a trela

saio à rua a passeá-las

e deixo-as ladrar

ao tédio transeunte.

Depois ponho-lhes asas

e deixo-as voar

como pássaros

em busca de primaveras

imprevisíveis

 

bem que deveria ser editado, mas para ser mesmo lido. Fosse ele de salões e talvez. Mas se calhar ladra-nos demais, a nós transeuntes.

publicado às 15:06

A liberdade da escrita

por jpt, em 14.12.03
Marcelo Panguana, que é amigo, e que prosa, chegou há dias a acenar com a citação "o homem que escreve é livre". Ah, Marcelo, quem dera, quem dera, mas será mesmo...? Não será apenas ilusão? E até provocando outras prisões, aquelas que vemos em tão inchados eus, inchados de nada até.

[ou se calhar tens razão, talvez por isso tantos andemos a teclar.]

publicado às 12:42


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