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O discurso de Mia Couto

por jpt, em 03.09.15

Mia-Couto-exibindo-o-Certificado-do-doutoramento-H

 

 

Mia Couto recebeu ontem da Universidade Politécnica o título de doutor honoris causa. Na ocasião proferiu um intenso discurso [versão integral]. E muito interessante, um verdadeiro documento para se abordar o ambiente cultural do país e, nisso, também o político. Mia Couto é um homem muito gostável: acessível, afável, encantador mesmo. E um cidadão muito empenhado e corajoso. (Ao longo dos anos aqui tenho repetido, em vários postais, este meu entendimento que é apreço). E é um escritor muito gostado, daqueles a que os leitores não só aderem à obra como também ao homem. A esse propósito lembro-me de um pequeno episódio que disso julgo denotativo: quando atribuíram o Nobel da Literatura ao francês Patrick Modiano procurei informações sobre o escritor, que desconhecia (afinal já tinha lido um livro, "Dora Gruber", que pouco ou nada me dissera, tão pouco que o esquecera). Via Google fui parar à página no Facebook dos seus admiradores, tinha pouco mais de 2000 inscritos. Nesse mesmo dia acedi a uma das várias páginas-FB dedicadas a Mia Couto, a qual tinha mais de 100 000 inscritos! Pequenos detalhes decerto, mas que indiciam o fervor com que os admiradores o seguem, lendo e aplaudindo. E esse fervor, que em Moçambique é também, e muito normalmente, polvilhado de orgulho pátrio, tende para o unanimismo na recepção das suas obras e das suas opiniões, uma aceitação acrítica.

 

É um pouco esse o desconforto que sinto na leitura deste discurso. Que é, como disse acima, um documento para se ler o Moçambique de agora e de antes. Tem um conteúdo social retumbante - é absolutamente delicioso, antológico mesmo, o episódio do jovem que gostaria de ser honesto mas ao qual falta patrocínio para tal: se non è vero, è ben trovato. E uma vertente política notória, à qual é difícil não aderir, na defesa de valores pacíficos, de aversão às disparidades, de defesa do diálogo e da inclusão. Que corresponde, de modo quase explícito, a um rescaldo muito crítico do período presidencial recentemente terminado. Algo que se articula, sublinhando, na sua coincidência com as contundentes afirmações proferidas nesta mesma semana durante o julgamento em Maputo de Castel-Branco e Mbanze, ainda para mais divulgadas pela imprensa nacional em directo. São dois momentos simbólicos muito fortes, em sequência, assim uma semana a recordar em termos políticos, no que se configura como a reutilização explícita do património moral e ideológico samoriano pelos intelectuais nacionais, em contramão à utilização da figura do primeiro líder nacional que o estado vem fazendo nos últimos anos. Se este em busca de legitimação agora em modalidade de crítica (prospectiva).. Mas sobre esse conteúdo político não me cumpre opinar, estrangeiro e vivendo à distância, ainda que me permita pensar que seria (e será?) bom que os termos da sua elaboração sejam discutidos.

 

Mas fundamentalmente o que me toca é outra coisa. Sei que a maioria dos jovens moçambicanos pouca ou nenhuma literatura lê. Ao longo de anos a maioria dos alunos com que trabalhei o referiram. E aqueles poucos que o tinham feito (ou faziam) ao anunciarem os autores já lidos sistematicamente lembravam Mia Couto e, ainda que muito menos, Paulina Chiziane. E, só depois, Khosa. E de literatura estrangeira, tão menos acessível e tão mais distante, muito menos ainda, algo verdadeiramente raro. Assim, para muitos o Mia é a porta de entrada da literatura. E creio até que para vários também, infelizmente, quase a de saída. É nesse contexto que me custa ler a sua concepção utilitária de literatura, ainda para mais porque prevendo (e já assistindo) à aceitação do discurso (algo agora mensurável na rapidez do "partilhar" e "gostar" no mundo internético). Pois para Mia Couto a literatura está ali para "resgatar ... [a] moral perdida" sendo o " mecanismo mais eficiente e mais antigo de reprodução da moralidade" passando "não apenas sabedoria mas uma ideia de decoro, de decência, de respeito e de generosidade". Uma subalternização da literatura a uma função social e política, como se alimento da construção e reprodução nacional. Esta posição do escritor é conhecida, até porque a pratica. E é legítima, a cada um a sua opinião. E muitos dirão que corresponderá também ao seu contexto biográfico, aos constrangimentos e urgências que entende no seu país. Mas o que (me) custa é saber que pela sua influência vai penetrar o entendimento dos que ali, apesar de tudo, vão lendo. E que assim se podem deixar algemar pela ... moralidade. Esquecendo ou desconhecendo um velho ditado do colono (ou próprio, pois tantos dos leitores são portugueses): que de boas intenções está o inferno (literário) cheio. E assim torcendo o nariz a quem aparece a dizer que nisto de leituras (e até de escritas) o bom mesmo é a ... amoralidade.

 

publicado às 18:26

A Gala e o discurso de Mia Couto

por jpt, em 26.10.13

 

Jantamos em casa de amigos chegados. Deixámos a filha em casa, ainda que esta ande preocupada com a guerra da Renamo e ainda mais com a vaga de raptos, assunto que lhe preenche os constantes sms, esse tique de geração, pois são estes visões que lhe invadiram o quotidiano, mães e colegas raptados, uma escola que está agora rodeada de guardas de coletes à prova de bala e shotguns na mão, um ambiente que não pode passar desapercebido aos putos, que os aflige. A meio do nosso jantar avisa por telefone que houve corte de electricidade, estes cada vez mais constantes, mergulhada ficou no luz de velas, ela ainda num cedo demais para lhe dar conteúdo romântico. Passado um pouco rebentam as explosões, há um solavanco à nossa mesa, ainda que estejamos ali num convívio bem-disposto. Entreolhares e sou eu, como se veterano, ainda que ali abundem os donos da terra, que afirmo ser fogo-de-artifício. Como continuam as longínquas rajadas espreguiço-me, como quem não quer a coisa, e vou à janela de onde nada vejo. Telefono a pedir informações sobre o que se passa, colhendo um "é a gala da Vodacom" entre sorrisos audíveis pois, dizem-me, há imensa gente a entre-telefonar-se por causa disto. Logo depois toca-me o telefone, é a filha de novo, em pânico com os tiros. Afianço-lhe que é festa, que não se preocupe, digo-lhe para ficar na cama que é vespera de aulas. Ela pede-nos para regressarmos a casa. Ríspido nego-me a isso, é apenas uma festa. Desliga e eu regresso ao copo de 2M. Vejo que a estou a tratar como se fosse o terceira linha da selecção junior de râguebi de Gales, esse que não tive como filho. Interrompo o belo peixe e as deliciosas beringelas fritas, abandono a conversa num "já venho ...". Atravesso o bocado de cidade, para sossegar a princesa, nos seus desamparados 11 anos. Quando regresso à mesa ela sorri, já descansada. No dia seguinte diz-me que entre os colegas todos comentaram o assunto, todos se assustaram, todas as famílias também. 

 

Fico a pensar, um pensar mudo, qu'isto do Diamantino (Miranda, como aqui é conhecido) veio sublinhar a prudência do silêncio imigrado. Mas fico a pensar que grave nas sociedades é quando há fracturas, hiatos, entre os grupos, incompreensões e, mais do que tudo, insensibilidades. E pior ainda quando os hiatos apartam as elites socioeconómicas do grande povo. Nem são malevolências ou ideologias, muitas vezes vêm de diferentes sociabilidades, as pessoas, nós, vivemos em pequenos comités, não nos apercebemos desse em torno muito global. Pois apenas uma enorme distância, uma insensibilidade, conduz a uma gala com fogo-de-artifício num altura destas, uma cidade de cimento acabrunhada com as ameaças de extorsão, os constantes raptos. E a longínquos combates. Dever-se-á parar a vida?, os festejos? Não, com toda a certeza. Mas será necessário assustar os vizinhos?, esquecer-lhes os estados de espírito?

 

Mia Couto esteve presente nessa gala. E fez este discurso. Para além dos dotes literários é um cidadão empenhado e corajoso. Mais uma vez o comprova com este exercício de cidadania:

 

 

        Mia Couto, 25-10-2013


"Pensei bastante se estaria ou não presente nesta cerimónia. A razão para essa dúvida era a seguinte: há três dias a minha família foi alvo de várias e insistentes ameaças de morte. Essas ameaças persistiram e trouxeram para toda a nossa família um clima de medo e insegurança. A intenção foi-se revelando clara, depois de muitos telefonemas anónimos: a extorsão de dinheiro. A mesma criminosa ameaça, soubemos depois, já bateu à porta de muitos cidadãos de Maputo. 

Poderíamos pensar que essas intimidações se reproduzem a tal escala que acabam por se desacreditar. Mas não é possível desvalorizar este fenómeno. Porque ele sucede num momento em que, na capital do país, pessoas são raptadas a um ritmo que não pára de crescer. Esses crimes reforçam um sentimento de desamparo e desprotecção como nunca tivemos nos últimos vinte anos da nossa história.

Esses que são raptados não são os outros, são moçambicanos como qualquer outro cidadão. De cada vez que um moçambicano é raptado, é Moçambique inteiro que é raptado. E de todas as vezes, há uma parte da nossa casa que deixa de ser nossa e vai ficando nas mãos do crime. Neste confronto com forças sem rosto nem nome, todos perdemos confiança em nós mesmos, e Moçambique perde a credibilidade dos outros. Esses sequestros estão nos cercando por dentro como se houvesse uma outra guerra civil, uma guerra que cria tanta instabilidade como uma qualquer outra acção militar, qualquer outra acção terrorista. 

Este é um fenómeno que atinge uma camada socialmente diferenciada do nosso país. Mas o mesmo sentimento de medo percorre hoje, sem excepção, todos os habitantes de Maputo, pobres e ricos, homens e mulheres, velhos e crianças que são vítimas quotidianas de crimes e assaltos. 

Eu falo disto, aqui e agora, porque uma cerimónia destas nos poderia desviar do que é vital na nossa nação. Não podemos esquecer que o nosso destino colectivo se decide hoje sobretudo no centro do País, nessa fronteira que separa o diálogo do belicismo. E todos nós queremos defender essa que é a conquista maior depois da independência nacional: a Paz, a Paz em todo o país, a Paz no lar de cada moçambicano. 
Se invoquei a situação que se vive hoje em Maputo é porque outras guerras, mais subtis e silenciosas, podem estar a agredir Moçambique e a roubar-nos a estabilidade e que tanto nos custou conquistar. 

Caros amigos 

Estamos celebrando nesta Gala algo que, certamente, possui a intenção positiva de valorizar o nosso país. Mas para usufruirmos o que aqui está a ser exaltado, as melhores praias, os melhores destinos turísticos, precisamos de saber o ver o que nos cerca. Na realidade, e em rigor, o melhor de Moçambique não pode ser seleccionado em concurso. O melhor de Moçambique são os moçambicanos de todas etnias, todas as raças, todas as opções políticas e religiosas. O melhor de Moçambique é a gente trabalhadora anónima que, todos os dias, atravessa a cidade em viaturas transportados em condições que são uma ofensa à vida e à dignidade humanas. 

O melhor de Moçambique são os camponeses que embalam à pressa os seus haveres para fugirem das balas. O melhor de Moçambique são os que, mesmo não tendo dinheiro, pagam subornos para não serem incomodados por agentes da ordem cuja única autoridade nasce da arrogância. 

O melhor de Moçambique são os que anonimamente constroem a nação moçambicana sem tirar vantagem de serem de um partido, de uma família, de uma farda. 

Os melhores de Moçambique não precisam sequer que os outros digam que são os melhores. Basta-lhe serem moçambicanos, inteiros e íntegros, basta-lhes não sujarem a sua honra com a pressa de se tornarem ricos e poderosos. 

Os melhores de Moçambique não precisam de grandes discursos para acreditarem numa pátria onde se possa viver sem medo, sem guerra, sem mentira e sem ódio. Precisam, sim, de acções claras que eliminem o crime e a corrupção. Porque a par deste galardão que distingue o melhor de Moçambique há um outro galardão, invisível mas permanente, que premeia o pior de Moçambique. Todos os dias, o pior de Moçambique é premiado pela impunidade, pela cumplicidade e pelo silêncio. 

Caros amigos, 

Disse, no início, que hesitei em estar presente nesta gala. Mas pensei que me competia, junto com todos vocês, a obrigação de construir um evento que fosse para além das luzes e das mediáticas aparências. Nós queremos certamente que esta festa tenha uma intenção e produza uma diferença. E esta celebração só terá sentido se ela for um marco na luta pela afirmação de valores morais e princípios colectivos. Para que a nossa vida seja nossa e não do medo, para que as nossas cidades sejam nossas e não dos ladrões, para que no nosso campo se cultive comida e não a guerra, para que a riqueza do país sirva o país inteiro. ''


publicado às 17:16

Festa para Mia Couto

por jpt, em 11.07.13

 

Ídasse passou cá por casa, gentil (nele este termo é pura redundância), para me levar à homenagem do ministério da cultura a Mia Couto, devida pela atribuição do Prémio Camões. "Foi bonita a festa", disseram Mia Couto, cantaram Mia Couto, representaram Mia Couto [o delicioso conto "Filipe Bereberu", uma pérola], celebrou-se Mia Couto. No início o protocolo, decerto que nervoso, enganou-se, um fífia (sonora) com o apelido do escritor. Motivo para bem-disposta risada, generalizada. Logo me lembrei (e Mia Couto também, como viria a dizer) de uma outra fífia protocolar sobre ele cometida, há já bastantes anos, quando ele recebeu uma condecoração. Que um dia aqui botei ....

 

Ontem deu para sublinhar o bom ambiente. Festivo. Parabéns Mia Couto.

publicado às 00:17

O Prémio Camões para Mia Couto

por jpt, em 28.05.13

 

No ma-schamba há várias referências a Mia Couto, colocadas ao longo dos anos. Há algum tempo referi que "sou um mau leitor de Mia Couto, transporto-me com dificuldade para a sua ficção. E gosto muito dos seus textos de opinião, pelo que diz, pela forma como o apresenta." E nesse âmbito não esqueço nunca o seu extraordinário texto, de sentimento e de coragem, até física, lido no funeral de Carlos Cardoso. Que mais me fez admirar o homem ali, sempre gentil no seu jeito muito próprio, para além do escritor afamado, reconhecido. E sempre amado pelos leitores, um tipo que não precisa de confrontar quem o aprecia, sinal de grandeza.

 

Neste agora em que lhe é atribuído o Prémio Camões deixo um poema que lhe foi dedicado: 

 

 

Praia do Savane

 

Tu apenas tu e rodeando-te

a imensidão do mar

e a savana imensa

e o céu abrindo e fechando

todo o horizonte à sua volta.

 

O bramido oceânico

e o fundo silêncio da savana.

E a solidão a solidão

e as aves marinhas

confirmando a solidão ...

 

Livre te sentes é verdade

mas também perdido

e inútil esta liberdade

Adão que és agora ínfimo

desolado e inquieto

contemplando o mar perplexo

contemplando-o como se as ondas

te pudessem decifrar o mistério

desta absurda criação

de deserto de mar e de terra

de silêncio de vento e de aves ...

 

[Fernando Couto, 1985, em "Monódia"]

 

 

E ocorre-me repetir o conteúdo de um postal colocado há dois anos: "as capas nas estantes cá de casa. Até para conferir(mos) o que falta ...", que coloquei exactamente a propósito da formação de um grupo dos seus leitores que apelavam a que se lhe atribuísse o "Camões".  

 

 

[Cada Homem é Uma Raça, Caminho, 1990]

[A Chuva Pasmada, Ndjira]

[Contos do Nascer da Terra, Ndjira, 1997]

[Estórias Abensonhadas, Ndjira, 2ª edição, 1997 (1994). Ilustrações de João Nasi Pereira]

[Ilha da Inhaca. Mitos e Lendas na Gestão Tradicional de Recursos Naturais, Impacto, 2001. Coordenação de Mia Couto]

[Idades Cidades Divindades, Ndjira, 2007]

[Jesusálem, Ndjira, 2009]

[Mar me quer, Ndjira, 1998]

[Na Berma de Nenhuma Estrada e outros contos, Ndjira, 2001]

[O Fio das Missangas, Ndjira, 2004]

[O País do Queixa-Andar, Ndjira, 2003]

[O Último Vôo do Flamingo, Ndjira, 2000]

[E se Obama Fosse Africano? e Outras Intervenções, Caminho, 2ª edição, 2009]

[O Pátio das Sombras, Escola Portuguesa de Moçambique/Fundació Contes pel Món, 2009. Desenhos de Malangatana]

[Pensando Igual, Moçambique Editora, 2005 (com Moacyr Scliar e Alberto da Costa Silva]

[Pensatempos. Textos de Opinião, Ndjira, 2005]

[Raíz de Orvalho e Outros Poemas, Ndjira, 2ª edição, 1999 (1983)]

[Terra Sonâmbula, Ndjira, 1996]

[Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra, Ndjira,  2ª edição, 2002]

[A Varanda do Frangipani, Caminho, 1996]

[Venenos de Deus Remédios do Diabo, Ndjira, 2008]

[Vinte e Zinco, Ndjira, 1999]

[A Confissão da Leoa, Caminho, 2012]

publicado às 04:28

Um prémio para Mia Couto

por jpt, em 06.06.12

 

À hora de jantar passeio pelo facebook. Só hoje, nas minhas "rações de notícias" atento que Mia Couto ganhou um prémio literário atribuído pela Agência Francesa de Desenvolvimento, atribuído à tradução de "Jesusalém". Sou um mau leitor de Mia Couto, transporto-me com dificuldade para a sua ficção. E gosto muito dos seus textos de opinião, pelo que diz, pela forma como o apresenta. Ando a reler este "intervenções", uma colectânea de curtos textos, preciosos.

Talvez tenha sido a forma como cheguei a esta notícia, inserida num extenso rol de "notas" e "comentários" dedicadas a vários assuntos, alguns dos quais espantosos (mesmo os elogiando esta notícia) que me (res)surge a sensação. Essa de perceber o quão selectiva, e até manipulatória, é a recepção das ideias e formas do que os "nossos" escritores nos dão. Será a condição de qualquer comunicação. Mas isso tão se salienta quando se vê como um pensamento refinado como este é saudado através e no seio de tantos, e tão díspares, dislates. Que dizem, e reproduzem, coisas tão opostas ao mundo que o escritor cria, e propõe.

Há pessoas com esperança. Mia Couto tem que ser uma delas. Estará de parabéns pelo prémio. Mas muito mais estará pela esperança.

jpt

publicado às 21:23

O texto que não é do Mia Couto

por jpt, em 10.05.12

 

Há um ano e tal Maria dos Anjos Polícia, escreveu no seu blog Assobio Rebelde um texto sobre "A Geração à Rasca". Alguém, sabe-se lá porquê, disseminou-o como sendo de Mia Couto. Logo o  tom populista e inanalítico do texto se alimentou do estado doentio da sociedade portuguesa, a "crise", e assim se tornou "viral" (como se diz agora) a pequena fraude. Grassando pelo mundo (lusófono ...) da internet.

Logo então aqui o desmenti, e não fui o único bloguista. O próprio Mia Couto surgiu a desmenti-lo. Pouco importa, ficou a impressão, o texto continua a girar, ciclicamente. E-mails, redes sociais. O próprio postal em que referi o assunto recebeu uma enxurrada de "gostos faceboquescos", decerto que muitos sem atentarem no desmentido. E continua, 14 meses a ser visitado (sitemeter dixit) e a ser "laicado". Quanto ao texto continuo a encontrá-lo reproduzido nos murais do facebook, com elogios à perspicácia do "querido autor", sempre por seus admiradores "leitores" - que assim denotam nunca o terem lido.

Até em Maputo, há pouco tempo, houve um surto desta "gripe" - e então muito me surpreendeu. Pois o texto é tão intrinsecamente português, tom e conteúdo. Como "cola" esta atribuição a um escritor moçambicano? Até por moçambicanos? Ainda para mais não sendo em nada aparentado com o estilo (formal e intelectual) de Mia Couto.

Mas isso já é um registo "meta". Para as gentes dos "estudos culturais", que aqui terão um delicioso objecto de pesquisa "póscolonial". E também sobre os processos de recepção de textos na "internet". Ou melhor, de "ininterpretação" de textos na internet.

Enfim, para resumir: o texto "Geração à Rasca" não é de Mia Couto. É de uma (ex?)bloguista chamada Maria dos Anjos Polícia.

(e, em aparte, ainda bem que não é. Que é de um populismo fastidioso).

jpt

publicado às 18:11

 

["Rio Zambeze (AL)"] 

Quem somos, senão o que imperfeitamente 
sabemos de um passado de vultos 
mal recortados na neblina opaca, 
imprecisos rostos mentidos nas páginas 
antigas de tomos cujas palavras 

não são, de certo, as proferidas, 
ou reproduzem sequer actos e gestos 
cometidos. Ergue-se a lâmina: 
metal e terra conhecem o sangue 
em fronteiras e destinos pouco 

a pouco corrigidos na memória 
indecifrável das areias. 
A lápide, que nomeia, não descreve 
e a história que o historia, 
eco vário e distorcido, é já 

diversa e a si própria se entretece 
na mortalha de conjecturados perfis. 
Amanhã seremos outros. Por ora 
nada somos senão o imperfeito 
limbo da legenda que seremos. 


Rui Knopfli - Quem somos 
Preciso ser um outro 
para ser eu mesmo 

Sou grão de rocha 
Sou o vento que a desgasta 

Sou pólen sem insecto 

Sou areia sustentando 
o sexo das árvores 

Existo onde me desconheço 
aguardando pelo meu passado 
ansiando a esperança do futuro 

No mundo que combato morro 
no mundo por que luto nasço 

Mia Couto - Identidade


 

AL

publicado às 23:17

 

Não precisa de mais palavras ...

 

jpt

publicado às 09:48

Mia Couto

por jpt, em 04.06.11

O blogo-veterano Orlando Braga acaba de criar no facebook um grupo de apoio à atribuição do Prémio Camões a Mia Couto, o qual vai rapidamente crescendo. Acredito que chegando isto aos ouvidos do escritor fique ele até encabulado, naquele seu jeito algo atrapalhado. Mas Mia Couto é um escritor de leitores, estes têm-lhe afecto, não só às suas obras. E assim entendo o referido grupo, um sítio onde se juntam (virtualmente) os afectuosos leitores dos seus livros. Então para eles fica aqui uma prenda, as capas nas estantes cá de casa. Até para conferir(mos) o que falta ...

 

[Cada Homem é Uma Raça, Caminho, 1990]

[A Chuva Pasmada, Ndjira]

[Contos do Nascer da Terra, Ndjira, 1997]

[Estórias Abensonhadas, Ndjira, 2ª edição, 1997 (1994). Ilustrações de João Nasi Pereira]

[Ilha da Inhaca. Mitos e Lendas na Gestão Tradicional de Recursos Naturais, Impacto, 2001. Coordenação de Mia Couto]

[Idades Cidades Divindades, Ndjira, 2007]

[Jesusálem, Ndjira, 2009]

[Mar me quer, Ndjira, 1998]

[Na Berma de Nenhuma Estrada e outros contos, Ndjira, 2001]

[O Fio das Missangas, Ndjira, 2004]

[O País do Queixa-Andar, Ndjira, 2003]

[O Último Vôo do Flamingo, Ndjira, 2000]

[E se Obama Fosse Africano? e Outras Intervenções, Caminho, 2ª edição, 2009]

[O Pátio das Sombras, Escola Portuguesa de Moçambique/Fundació Contes pel Món, 2009. Desenhos de Malangatana]

[Pensando Igual, Moçambique Editora, 2005 (com Moacyr Scliar e Alberto da Costa Silva]

[Pensatempos. Textos de Opinião, Ndjira, 2005]

[Raíz de Orvalho e Outros Poemas, Ndjira, 2ª edição, 1999 (1983)]

[Terra Sonâmbula, Ndjira, 1996]

[Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra, Ndjira,  2ª edição, 2002]

[A Varanda do Frangipani, Caminho, 1996]

[Venenos de Deus Remédios do Diabo, Ndjira, 2008]

[Vinte e Zinco, Ndjira, 1999]

jpt

publicado às 06:16

[caricatura encontrada aqui]

 

Através de uns murais do facebook chego a um texto dito "brilhante", o "A Geração à Rasca" de Mia Couto. Surpreende-me que ele escreva sobre tal coisa, tão da espuma portuguesa actual, mas vou ler. Para logo concluir que o texto nem é brilhante nem é do Mia Couto. Sorrio, acima de tudo, pelo interessante que é ver o bom do Mia a ser apropriado para estas coisas ..., mas isso são conversas sobre a captura pública dos escritores, coisas diferentes. Já agora, um dia ouvi um oficial chamar-lhe senhora dona Mia Couto e também então os parentes não lhe caíram na lama. Enfim, não será motivo para o escritor "ficar à rasca", basta passar ao lado.

Adenda: nos comentários o próprio Mia Couto vem reafirmar que não é o autor do texto. Poderia parecer desnecessário mas não é. Mais de 200 "gosto" no facebook para esta entrada indicia que muito "gostam" não da negação dessa autoria (que está no meu texto) mas sim na afirmação que o texto é de Mia Couto. E nos próprios comentários há quem defenda ser o texto de Mia - demonstrando que não conhece nem prosa nem atitude intelectual de Mia Couto. Enfim, de uma vez por todas, o-tex-to-não-é-de-Mia-Cou-to. (Repita 30 vezes).

jpt

publicado às 00:50

Expresso em Moçambique

por jpt, em 29.07.10

Só agora, e por via de uma oferta do "nosso" PSB, tive acesso a esta edição da revista "Única" (Expresso, 5.6.2010), dedicada a África a propósito do Mundial de futebol na África do Sul. O meu interesse prendia-se pela inclusão da reportagem "Moçambique, o País dos Mil Caminhos", de Ricardo Marques. Um jornalista de quem li, já há anos, o livro Moçambique, o Regresso dos Soldados, reportagem sobre as viagens de saudade dos soldados portugueses que aqui fizeram a guerra. Livro agradável e provido de um bom olhar sobre o real, entenda-se uma atitude nua de paternalismos, culpabilizações, exaltações e/ou saudosismos, algo rara em patrícios mas ainda mais em jornalistas. Agora, e de novo, o Ricardo Marques meteu uma boa lente para viajar no país. Ou seja, tem a arte de escrever sobre Moçambique sem fazer actuar a panóplia de preconceitos recorrentes. Uma pena que não esteja disponível na internet - ainda para mais sendo texto de jornal, em assim sendo tornado supra-perecível. Algo que um jornal como o "Expresso" poderia resolver, dignificando os textos dos seus repórteres. Mas visitável é a galeria de fotos da reportagem, da autoria do confrade António Silva.

Na mesma publicação encontro um artigo de Mia Couto, "Esta África que não é". Também indisponível na internet, mas neste caso provavelmente virá a ser integrado em futura colectânea de textos do autor. Uma frase cristalina, arguta: "A ideia do bom selvagem foi incorporada na vista que os africanos têm de si mesmos". É apenas uma generalização, mas assim assumida. Total concordância com ela. Obstáculo, legitimador, de entendimento e acção. E, quantas vezes, partilhada pelo exo-africanos, uma (afinal não tão) estranha simbiose.

jpt.

publicado às 13:56

É no Entre as Brumas da Memória que encontro (elogiosa) referência a este texto de Mia Couto. Fico estupefacto: com a argumentação de Mia Couto - talvez apenas "mais um artigo" -, e com a aceitação que tem, esta talvez pelo acriticismo que as unanimidades tendem a recolher, em particular quando as causas parecem justas.

O Mia quer abordar as concepções de cidadania e de poder vigentes nos países africanos e em Moçambique em particular. Que são elas contextuais deveria ser óbvio (mas não é, e daí o mérito da sua interrogação). Particulares produtos históricos, frutos de reflexões locais, acima de tudo constituídas em processos políticos conflituais. Por isso tantas das ineficiências quando se transportam, como se intocáveis, conceitos políticos para aplicar em práticas diferenciadas. Nada disso é novo para quem pensa, tudo isso é desconhecido por quem se esforça por não pensar.

Mas o que Mia faz é tornear essa dimensão, e refugiar-se numa "culturalização" da questão, encontrando no celebrado "véu da cultura" uma razão para as diversas práticas e concepções políticas, para os défices que considera encontrar. Confesso o meu espanto, até por vindo de quem vem, diante disto:

"A questão pode ser assim formulada: como pensar a democracia numa língua em que não existe a palavra “democracia”? Num idioma em que “Presidente” se diz “Deus”? Nas línguas do Sul de Moçambique, o termo para designar o chefe de Estado é “hossi”. Essa mesma palavra designa também as entidades divinas na forma dos espíritos dos antepassados, traduzindo uma sociedade em que não há separação da esfera religiosa.".

Francamente. Não temos nós, falantes de português, o "senhor" como terminologia da divindade, do rei, do nobre e amo, do chefe, até do mero interlocutor? Não é explícito para quem utiliza o "senhor" sobre quem refere? Não é o termo utilizado contextualmente, com perfeito e estratégico conhecimento dos locutores, associado ao seu manuseamento através de entoações, mímicas, diminutivos [o "chô", o "sôr", p.ex.]?

Ora se para nós, falantes de português, a palavra que também refere a divindade tem uma extensão semântica que muito bem entendemos (de tal modo que nem atentamos que a utilizamos para um espectro tão alargado de interlocutores) como presumir que os falantes de outras línguas que têm similares processos de extensão semântica o fazem sob o signo da confusão?

Ou seja, utilizamos nós a nossa língua através de categorias lógicas e os outros (neste caso os falantes do sul de Moçambique) estão submersos numa mentalidade pré-lógica, incapaz?

Um momento (muito) menos feliz. Desconseguido, por assim dizer.

publicado às 21:47

Terra Sonâmbula

por jpt, em 30.05.08

 

 

Ontem aqui houve estreia - num aparte: não seria altura de acabar com a pinderiquice das "ante-estreias" a la xenon?, meia-dúzia de vestidos compridos, um ou outro grilo andante, tapete vermelho já algo acinzentado e os tipos da inenarrável tvzine a coleccionarem minifotos de pessoas a quem não conhecem o nome? e o resto da rapaziada em dia normal, na chamussa e afins (sofríveis) e no vinho (mui decente), (sor)rindo destes sem-propósitos? Ainda não deu para ver que não pega o modelo? para aligeirar a coisa?

Adiante ontem houve estreia do Terra Sonâmbula, de Teresa Prata, co-produção luso-moçambicana - a primeira verdadeira co-produção luso-moçambicana, discursou o co-produtor moçambicano Camilo de Sousa, o que nele é significativo. Camilo é um tipo muito afável mas convicto, como o anunciou na TVM nas comemorações dos trinta anos de independência, que a maioria dos portugueses ainda está em guerra com Moçambique. Nesse registo é agradável ter notícia de que encontrou algum(ns) patrício(s) que dessa já desistiram ("maus fígados, jpt ..." hão-de resmungar ao ler, "o caraças!" [ou aparentadas fonias] seria a minha resposta se ouvindo os resmungos).

O filme é de festival, objecto bonito, sensível, até mensageiro. Certo que quando vou a um filme português todas as minhas expectativas baixam. Mas também por isso posso ser surpreendido como ontem. Lento como um livro - e por demais preso ao texto, um tricô de analepses que é questão de argumentista, mas são opções. Estéticas para os autores, dolorosas para os espectadores. Mas bonito, que a beleza pode ter a dor lá. Vive também dos actores - excelente Aladino Jasse, excelente mesmo, idem para o cameo de Filimone Meigos tal como a grande Magaia. Mas também muito frágeis outros, de cá e de lá. Em registo que exige autores isso desiquilibra.

Finalmente, em filme que se anseia objecto estético não tem qualquer justificação um registo sonoro tão pobre, a exigir uma supra-atenção para entender os diálogos, a requerer legendagem imediata. Inenarrável descuido.

Estrelas (a la crítico de cinema)?: três (uma retirada por causa do tal não-som, outra por incongruências de realização - um cabrito que se desloca no ar, gente que não corre no mato por terror das minas e no plano a seguir faz o oposto, minudências assim). Portanto? A ver.

publicado às 11:37

A Ilha de Moçambique de Mia Couto

por jpt, em 01.05.08

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Ilha de Moçambique
Não é a pedra.O que me fascinaé o que a pedra diz.A voz cristalizada,o segredo da rocha rumo ao pó.E escutar a multidãode empedernidos seresque a meu pé se vão afeiçoando.A pedra grávidaa pedra solteira,a que canta, na solidão,o destino de ser ilha.O poeta quer escrevera voz na pedra.Mas a vida de suas mãos migrae levanta voo na palavra.Uns dizem: na pedra nasceu uma figueira.Eu digo: na figueira nasceu uma pedra.(Mia Couto, idades, cidades, divindades, Maputo, Ndjira, 2008)

publicado às 09:35

O preço dos livros

por jpt, em 31.03.08

É o fim da minha bibliofilia. A surpresa, entrar na livraria e ver dois novos livros, um de poesia de Mia Couto "Idades, Cidades, Divindades", o outro a novela "Hinyambaan" de João Paulo Borges Coelho

 

Deste último ainda lamento o descuido gráfico - as obras dos autores moçambicanos da editora Caminho/Ndjira estiveram durante anos condenadas a serem publicadas com capas de estilo "étnico", nestes casos um afro-hippie muito anos 60 (não discuto a qualidade do trabalho de ilustração - do qual não gosto, mas isso é apenas o meu gosto - mas sim a sua pertinência ideológica). Assim como se o Roth ou o Vidal tivessem que ser editados sob motivos ameríndios new age ou os latino-americanos com reconstruções pré-colombianas. Finalmente foram libertadas desse espartilho. Mas agora ao ver a capa deste "Hinyambaan" vejo uma tolice - para além de feia basta ler para perceber a preguiça do ilustrador. Ou seja, não leu, nem o resumo. A editora a trabalhar mal. Em época de mudança a começar mal.

 

Mas o fundamental está noutro local. Custo de ambos os livros: 550 meticais (25 dolares). Em dois ou três meses as novas edições da Ndjira dobraram o preço (preço normal anterior 275, 300 meticais). A excelente colectânea de poesia de Fernando Couto, saída recentemente, bem maior do que o livro de Mia Couto custa 300 meticais. As reedições das obras de Mia Couto e Paulina Chiziane que a Ndjira está a fazer custam abaixo dos 300 meticais. Ou seja, se a Ndjira pode produzir livros em edição moçambicana (não sei onde as imprime) a preços bem mais baixos por que importa as edições conjuntas Caminho/Ndjira, nas quais só muda o logotipo e o nome da editora, colocando os livros tão mais caros?

 

30 a 50% de aumento no preço de capa em três meses? É uma decisão empresarial, não posso protestar, apenas lamentar. Mas a 25 dolares cada livrinho paro. Se comprava tudo o que saía de ficção e poesia nem pensar em continuar, não posso. É o fim da minha bibliofilia. Alguém me empresta os livros? Nem que seja para reproduzir as capas e colocá-las aqui...

publicado às 02:42


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