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No Museu Chissano

por jpt, em 19.02.11

 

Um bom almoço no museu Chissano, local que se recomenda e as pessoas andam tão distraídas que nem visitam. Se o museu é fantástico o sítio é muito agradável, e de boa comida. Excelente serviço, competente e afável. Hoje aportámos lá, um grupo excursionista de trinta e tal pessoas visitando ateliers de artistas plásticos (Victor Sousa, Celestino Mudaulane, Idasse, Gemuce), e ali nos deleitámos, gozando da sombra (óptima), matapa, galinha zambeziana e batata doce frita, simples conjugação que mereceu aplauso generalizado. Por coincidência (ou destino) isto ocorreu hoje, exactamente no 17º aniversário da morte do escultor Chissano - forma de também homenagearmos a sua memória. Da melhor maneira, olhando a sua obra.

 

Para mim também o dia assinala algo: há quatorze anos que vivo em Moçambique. Já.

 

jpt

publicado às 19:27

Celestino Mudaulane: há um ano

por jpt, em 05.04.09

(mais "rascunhos")

 

Os meses iniciais de 2008 foram um período particularmente activos no campo dasa artes plásticas. Momento marcante de uma rara "descentralização", de uma exo-maputização, foi a apresentação da Zoologia dos Fluxos, de Jorge Dias, na Beira.

 

Marcante foi também a aparente colectiva "Dois Percursos Multi-culturais: o tempo ... já não tem tempo", onde se procurava congregar a (presumo que) primeira apresentação do trabalho de Frederico Morim com o de Celestino Mudaulane.

 

 

mudaulaneamorim.jpg

 

 

 

Digo "aparente colectiva" pois foi uma exposição que trazia alguns dos habituais problemas de tantas das mostras colectivas que têm vindo a ser feitas. Dois artistas que em nada dialogavam, apenas uma justaposição em paredes e peanhas contíguas. Seria (será) melhor começar a chamar a tais eventos uma "paralela" de artes plásticas.

 

O interesse de lembrar tal evento será ainda o de o usarmos para reflectir nas armadilhas do "multiculturalismo" que surgia em título - o cujo, na prática mas não na vontade organizativa, com toda a certeza integrando então os programas político-culturais do Ano Europeu do Multiculturalismo, implicita o irredentismo das "formas culturais". Com efeito a incomunicabilidade entre obras e artistas terá sido produto dos incidentes biográficos dos autores, um porventura indisponível para maior envolvimento, um outro apresentando uma verdadeira individual.

 

Mas o que ficou na memória, para além dos artistas, foi o "multiculturalismo" ideológico a gerar a incomunicação. Algo que até sociologicamente se denotava, como o mostrou o tipo de público que aderiu à exposição, bem delimitado.

 

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[Frederico Morim]

 

O que tivemos então foi um contexto bem "pop" de Frederico Morim, artista proveniente do mundo (e de dimensões estéticas) da publicidade,

 

dsc_0093.jpg[Celestino Mudaulane]

 

paralelamente a uma obra de Celestino Mudaulane, porventura o grande escultor actual em Moçambique, ali a ensaiar novos caminhos na sua cerâmica - os quais, honestamente, muito me desiludiram.

 

A última memória, bem para além dos artistas. O facto de Mudaulane ter apresentado uma obra e à sua revelia terem sido colocadas duas outras obras suas (dois desenhos). Na altura, e ainda hoje, isso levantou-me a estrutural questão, incidindo sobre o grau de autonomia (e, como tal, de responsabilização) que os artistas locais vão tendo face aos galeristas.

 

Pouco, como isto o demonstrou. E, pelos vistos, tal diminuição estatutária é aceite. Natureza oblige?

publicado às 13:19

Olhares e Experiências

por jpt, em 04.04.09

E por referir "rascunhos" de posts que foram ficando para trás. Este é uma memória de uma exposição colectiva, já com um ano, realizada com artistas ligados ao Movimento de Arte Contemporânea. Aconteceu na Associação Moçambicana de Fotografia, por ocasião da visita do presidente português, em Março de 2008.

O meu objectivo era o de discutir a sua pertinência e a adequação do formato à lógica do Movimento. E ainda, e num outro registo de questionamento, o da adequação à sala disponível. Questões que prescreveram, claro. Fica a memória.

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Uma exposição colectiva organizada pelo Movimento de Arte Contemporânea (Muvart), sob curadoria de Jorge Dias. Abaixo fotografias de obras (algumas já anteriormente apresentadas outras então inéditas) de Jorge Dias, Celestino Mudaulane, Ivan Serra, Gemuce e Anésia Manjate, respectivamente.

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publicado às 04:06

Na constante sucessão de exposições e mostras de artes plásticas em Maputo talvez não se dê o destaque devido à particular actividade - quase frenética - de um núcleo de artistas ligados à reclamação de uma arte contemporânea, alguns vinculados ao Muvart, outros nem tanto. Actividade em Maputo mas também em presença em colectivas e oficinas no estrangeiro, Europa e África, terreno mais propício à recepção às linguagens escolhidas.

 

E agora, saudavelmente, também já no norte do país, algo encetado pela apresentação da "Zoologia dos Trópicos" de Jorge Dias na Beira, um desenvolvimento de instalações que têm vindo a ser apresentadas há alguns anos.


Um feixe de actividades que integra a dinamização de palestras e discussões, com participantes residentes ou visitantes. E que acolhe particular relevo no seio do Museu Nacional de Arte, que tem sido exemplo de uma instituição cultural aberta aos seus agentes. E que tem articulado com os (aqui) importantes centro cultural franco-moçambicano (a casa da cultura de Maputo) e o Instituto Camões (a melhor sala de exposições local - e onde o seu responsável, o adido cultural António Braga tem sido exemplar tanto na relação com este momento artístico como - e esta é mais geral - como na forma como tem dinamizado o seu centro cultural ainda que esmagado pelos conhecidos constrangimentos financeiros).

 

Não quero reduzir esta actividade ao MUVART, vários são os caminhos dos seus participantes, vários são os ênfases da sua conjugação. E artistas há que se em diálogo com as linhas do movimento a ele não não se fideliza(ra)m. Mais do que tudo o MUVART, momento determinado de ruptura (até geracional) no meio artístico nacional, assumirá o seu sucesso exactamente através da sua dissolução no tempo. Como é característico dos movimentos deste tipo. Nem reduzir ao Muvart nem a este, e aos seus membros, exigir-lhe uma coerência que em tempos louvei- até mesmo por considerar a incoerência um importante mecanismo de produção artística.Mas passados anos sobre o seu surgimento, passados anos sobre a vontade de dexotização da arte local, da sua interrogação, apetece-me interrogar alguns dos acontecimentos do último ano, uma interrogação companheira - mas desconfortada.Três pontos me parecem cruciais: 1. a discussão sobre a interacção e recepção do estrangeiro; 2. a discussão sobre a movimentação colectiva; 3. a interrogação sobre os momentos individuais

 

1. A verdadeira internacionalização deste movimento artístico (e não falo exactamente do MUVART, mas da onda que o torneia) encetou-se na itinerância (infelizmente incompleta) Réplica e Rebeldia [para uma descrição ver aqui], uma vasta iniciativa com curadoria de António Pinto Ribeiro e produção do Instituto Camões.

 

A questão que considero relevante neste âmbito é que a arte se exibe explicitamente ideológica. Ora nesse espartilho seria conveniente, melhor, exigível, um radical questionamento ideológico dos eventos - o que neste caso exigiria uma etnografia explícita do processo produtivo. A mim o que se me afigura é que o radicalismo das propostas estéticas - formais - não é acompanhado do radicalismo das propostas estéticas - analíticas. Ou seja, a crítica (o desvendar, também) do processo social da produção artística individual não é acompanhado por uma similar olhar sobre a produção de eventos institucional, e sobre as práticas ideológicas que o balizam, encaixam.

 

Um pouco elíptico mas para facilitar. O discurso "arte-contemporânea" moçambicano baseou-se (também) na recusa da determinação alheia (alheia ao campo artístico, nisso se conjugando agentes nacionais e estrangeiros) sobre o que é "arte" e, em particular, o que é "arte africana/moçambicana".

  

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[Frederico Morim e Celestino Mudaulane, "Dois Percursos Multi-culturais: o tempo ... já não tem tempo", Abril-Maio 2008, Instituto Camões Maputo]

 

 

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[Frederico Morim]

 

 

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[Celestino Mudaulane]

publicado às 10:48

Mudaulane

por jpt, em 02.09.05

Mudaulane (Celestino Mondlane) com uma exposição individual, cerâmica e desenho, no Instituto Camões. Do passado 31 de Agosto até 10 de Setembro.

CelestinoMondlaneRetrato.jpg

Para mim, leigo, Celestino Mondlane ceramista escultor é do mais excitante que tem surgido em Moçambique, esculturas avassaladoras, um sobre-humano que não lhe advém apenas das dimensões, mescla de grotesco e irónico, o horror e o amor.

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["O Grito da Madrasta", argila, 2005; pormaior reproduzido do desdobrável que acompanha a exposição]

Ali, e imagino pois não o conheço, também se agita um cosmos sempre dito tradicional, um mundo mitológico feito actualidade num olhar tão especial. Olhar e mãos a seguir, com entusiasmo. Pois únicos.

Cimg1312.jpg

("Embondeiro", argila, 2005)

Coloco aqui uma outra obra do artista, a espantosa "Mesavana (A Velha Feiticeira)" [argila, 1,95 m, 2004], actualmente apresentada na exposição da Bienal TDM, ainda que neste caso a reprodução do catálogo (um bom catálogo, diga-se) não faça minimamente justiça à intensidade da escultura.

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E permito-me imaginar também o quão interessante seria vê-lo trabalhar outros materiais, pedra ou metal. Sem desvalorizar a cerâmica, apenas projectar desafios para tamanho artista. Quem sabe? um dia.

Finalmente, esta exposição, vibrante ainda assim, está muito prejudicada pois duas esculturas, "as melhores" segundo o próprio Mudualane, partiram-se durante o transporte. Para mais alguns desenhos não foram apresentados, devido a atrasos no emoldurar.

Esta infeliz situação levanta outros tipo de questões, sobre o papel das galerias aqui, sobre o envolvimento que assumem (ou não) na produção deste tipo de actividades. No fundo sobre a sua tendência para surgirem como meros espaços-receptáculos de obras.

Mas isso são coisas a desenvolver noutra altura. Agora é altura de olhar o mundo deste homem.

publicado às 16:35


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