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No Feedly (1)

por jpt, em 03.01.14

 

 

As melhores imagens de ciência em 2013, através do De Rerum Natura.

 

O colectivo do excelente À Pala de Walsh elege os dez filmes de 2013. Vale a pena ler.

 

Doze livros editados em Portugal no ano passado: a escolha do  Antologia do Esquecimento.

 

Uma selecção de 10 livros de 2013, especialmente centrada em banda desenhada e ilustração.

 

Os acontecimentos desportivos mais importantes de 2013, no XV contra XV.

 

Um interessante texto de Achille Mbembe sobre Nelson Mandela e a África do Sul actual, ecoado na Buala

 

Uma evocação do mestre de banda desenhada Sergio Toppi, e é ali que noto que o autor morreu, e já há alguns meses. 

 

Picasa: aguda observação sobre o cliquismo fotográfico actual.

 

Robert Mitchum no Escrever é Triste.

 

A Barriga de um Arquitecto é um excelentíssimo blog. Dinossauro já, cumpriu uma década.

  

Dá para viver sem se ter conta no banco? Um belo texto (e uma boa pergunta, sublinho eu quando aqui em Portugal) no Bandeira ao Vento, na sua bela série "Postais de um fotógrafo de bairro", uma colecção de pérolas.

 

As 20 palestras TED mais vistas (actualização). 

 

"A identidade cultural europeia", o prefácio de António Barreto ao livro de Vasco Graça Moura com esse título.

 

 Desejo assim para 2014 uma maior saúde às palavras, no Apenas Mais Um

 

Sobre Sá Carneiro e ao que o reduzem actualmente: no Abrupto.

 

"Meninas a intenção é boa, mas tanta maminha já cansa": uma acertada abordagem sobre as mamocas feministas, no Domadora de Camalões.

 

Um mergulho no bloguismo português, no Delito de Opinião.

 

Sei da existência de um documentário sobre o cante alentejano, feito por Sergio Tréfaut: através do Margem Esquerda do Odiana.

 

José Pacheco Pereirahá muito reconheço na figura de Ramalho Eanes uma dignidade pessoal e um sentido de estado e de serviço público, que são tão escassos na actualidade, que brilham no meio da escuridão moral e cívica em que está mergulhada a nossa vida pública, dominada por gente obcecada pela sua carreira, permeáveis a tudo, menos no seu bem-estar e “protagonismo”. Não admira que Eanes fosse ficando sozinho na sua honra modesta, enquanto ao lado tudo apodrecia. Não é que o seu mérito não seja absoluto, mas o feito do seu mérito ainda se salientou mais devido à degradação da política portuguesa.

 

Natal em Lisboa: eu cheguei a 24 e ainda assim deu para ver (e já nem falo na azáfama pós-natal dos saldos): O que este ano me surpreendeu foi a loucura das compras num período de crise. Há muito tempo que não via um tal frenesim e sou capaz de apostar que o consumo interno terá dado um pulo bastante significativo, apesar de haver quem diga o contrário. Como economista surpreende-me e como cidadã fico perplexa, porque o cartão de crédito vai ter de ser pago em Janeiro..., no Fio de Prumo.

publicado às 11:27

Ainda Mandela

por jpt, em 19.12.13

 

 

(Fronteira de) Lebombo, semana passada. Era assim a entrada na África do Sul, aquele país onde alguns intelectuais europeus dizem que nada muda. E onde os passantes esperavam para assinar as condolências ...

publicado às 17:16

Santo(s)

por jpt, em 13.12.13

 

 

A propósito de Mandela escreve-se e ecoa-se em Portugal. Alguns, como se magnânimos, recordam que se Mandela foi defensor da luta armada contra o regime sul-africano veio a abandonar essa vertente. E, como se cândidos, dizem-no de forma a deixar entender que ter defendido a luta armada contra o sistema do apartheid pudesse ser mácula. Felizmente apagada pela posterior inflexão para outras formas de resistência - e, por arrasto, deixando entrever que uma luta armada contra qualquer sistema colonial tenha sido poluente. Repito, escrevem-no (in blogs e nos jornais) com a leveza da candura. Mas sem a frescura da juventude, resmungo.

 

Depois vêm outros, do outro lado do teclado, resmungando. Pois entendem esta globalização de elogios ao falecido político como se significando a sua santificação, a qual faria por esquecer exactamente essa dimensão de resistência armada. Ou seja, para esses próceres da palavra pública portuguesa (e para o esloveno Zízek, tardo alter ego de tantos), a santidade simboliza o oposto da luta armada. 

 

Convirá recordar a tais fecundos intelectuais da católica pátria (já ao Zizek não sei se lhe será tão importante) que "santo" e "luta armada" não são nem foram antónimos. Como tal se partilhar o respeito por Mandela é "santificá-lo" (um estuporado cristocentrismo, na minha opinião) isso não implicará (cristocentricamente) esquecer a sua dimensão militarizada. Deveria ser óbvio para a sapiência oratória lisboeta, tanta dela residente nas imediações bem burguesotas do Santo Condestável. Mas não o é. 

 

publicado às 14:05

 

As imagens estão por todo o lado, o aparente flirt (como se dizia quando era eu miúdo) de Obama com uma vistosa e vivaça rapariga loura, a qual, por acaso até é primeira-ministra, tudo isto na homenagem fúnebre a Mandela e, pior ainda, mesmo ao lado da senhora Obama. Mas em lado nenhum as vi apresentadas com tanto humor como neste postal de Rui Rocha, no Delito de Opinião. 

 

Com tudo isto se chama a atenção para o governo dinamarquês, tão belamente liderado. Por isso aqui repito este postal, que coloquei em Maio passado, parece-me muito a propósito. A ver se agora, aproveitando a celebridade, se publica a versão legendada em português. 

 

 

 

Já que abaixo falei de TV aqui boto sobre a série que venho vendo, e com muitíssimo agrado: "Borgen", um produto dinamarquês, verdadeiramente de qualidade, refinado e interessantíssimo. Procurei na internet por referências em português e apenas as encontro originadas no Brasil, pelo que deduzo que ainda não tenha sido transmitida em Portugal. Se assim é ainda bem. Pois significa que ainda a podem ver pela primeira vez, um prazer (res)guardado. Em Moçambique também não passou, mas isso já me parece mais difícil que venha a acontecer. Cá em casa vêmo-la por especial simpatia de uma nossa danish connection, que já nos emprestou os dois primeiros lotes ("estações"), havendo ainda um terceiro (e último) a receber, num total de 30 episódios.

 

É uma série política. "Borgen" significa castelo, sendo o nome popular do Palácio Christiansborg, sede dos três poderes dinamarqueses. Trata da surpreendente ascensão a primeira-ministra da chefe de um pequeno partido de centro-esquerda, algo devido ao impacto público da sua pureza algo idealista (e ao facto de ser bem apessoada, diz este telespectador), a personagem Birgitte Nyborg [a actriz Sidse Babett Knudsen].

 

 

Numa produção que é muito boa, e isso sem se desdobrar em luxos e quantidades, há alguns eixos da trama que são especialmente apetecíveis. O pano de fundo (pelo menos nos 18 primeiros episódios) é o rolar da protagonista para um crescente realismo político, que em nada sendo sinónimo de cinismo implica uma evidente crispação (também simbolizada através da vertente familiar), por vezes por ela pressentida mas também perseguida. O que é algo bem rico, até pela densidade de carácter que permite ir descobrindo, para além das topologias e tipologias mais imediatas. Mostra ainda o jogo político local com particular incisão, a confrontação entre blocos ("esquerda" e "direita") e suas flutuantes fidelidades ideológicas, bem como as suas transformações históricas - é excelente, superlativa mesmo, a apresentação do ocaso sociológico do velho "socialismo democrático" local. E mostra também as artes e engulhos da governação em coligação (a primeira-ministra provém de um partido minoritário, ainda para mais), o que tornará a série bem actual, vera lição, para o histriónico cenário político português.

 

Dois outros pontos ali transparecem. Sendo a série bastante realista nota-se a frugalidade dinamarquesa, nos cenários e nas práticas (seja de representação política seja de vida doméstica - e como pequenas são as casas e pequeno-burguesas aparentam ser as vivências). E ainda que se notando uma secura no trato (pelo menos para os olhos latinos) impõe-se um evidente protocolo leve, que é algo que bem se poderia importar para o enorme sul.

 

 

Finalmente há a constante presença da comunicação social, um tráfego constante. Que sendo em parte uma deriva da trama, até romântica, da série, não poderá deixar de denotar esse "convívio" quotidiano entre o poder executivo e o temido quarto vector dos possidentes. O qual em "Borgen" surge com várias matizes, desde o pérfido anterior chefe trabalhista até a gente profissional muito louvável (é notória a "aliança de classe" entre argumentistas e o mundo do jornalismo). Na série o protagonismo do sector jornalístico recai na personagem Katrine Fonsmark [a actriz Birgitte Hjort Sørensen, que vai muito bem e cuja carreira anseio por acompanhar].

 

Resta dizer o óbvio: algo está muito viçoso no reino da Dinamarca.

publicado às 15:07

Mandela em sotaque lisboeta

por jpt, em 12.12.13

 

Sem internet em casa e tendo, entretanto, ido à África do Sul não acompanhei as parangonas portuguesas sobre a morte de Nelson Mandela. Regresso agora e vejo um punhado de ecos. A rasteira política interna, com as acusações ao governo de finais de 1980s (com argumentos não apenas descontextualizados mas também falsificados), uma coisa vergonhosa. Mas também o coro vácuo, tipo água-de-colónia a litro. Pior ainda os que procuram ser inteligentes e conhecedores: o constante Vasco Pulido Valente lá aproveita o assunto para, como sempre, dizer mal de (quase) todos os portugueses, enquanto vai resmungando que nada mudou na África do Sul (a qual, nas suas doutas palavras, "continua dividida entre brancos ricos e pretos pobres"). Outros blogo-opinadores idem. E alguns, mais "cultos", ecoam uma patacoada (mais uma) do (ex?)ícone Zízek (outro para quem nada mudou - até porque os EUA são o motor da história, a história, o motor, dela também o demónio. Sendo dela pó os que o, ao Zizek, aplaudem).

 

Enfim, nada de novo entre os Açores e a Madeira.

publicado às 13:45

Dancemo-lo

por jpt, em 05.12.13

 

Hugh Masekela e The Specials em canções que percorreram o mundo cantando a urgência da libertação de Mandela e dos sul-africanos. 

 

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publicado às 23:27

Mandela

por jpt, em 05.12.13

 

Em 1994 presenciei a ascensão ao poder de Nelson Mandela. Algo que me marcou como nenhuma outra situação, também, acima de tudo, por ele, homem público inigualável. O melhor da sua era, da nossa vida. Dos poderosos ninguém o segue, espelho que se tornou da pequenez humana. Serão os desapossados a lembrá-lo, verdadeiramente. Ele, com toda a certeza, soube-o e sonhou-o. Obrigado Nelson Mandela (Madiba). "Now (Sempre) is the time".

publicado às 21:52

“Now is the time”

por jpt, em 25.06.13

 

(Um texto antigo, de memórias ainda mais antigas. Para este tão especial 25 de Junho. E minha memória de Nelson Mandela, Homem entre os homens. Tem sido bom viver enquanto ele.)

 

 

 “Now is the time”

 

Vi Mandela num comício em Aliwal North, 400 kms distante de onde nos haviam colocado, aquela East London, pequena cidade portuária de boas praias, capital daquele troço de bela terra de brancos encaixado entre os bantustões Ciskei e Transkei, esses planaltos e serras bem mais pedregosos, então destinados, naquele país louco, aos negros, os “originários”, viria eu a aprender depois, noutro local, os “kaffirs” como então já poucos diziam. Era o tempo do “Now is the time”, o até-que-enfim final daquilo, um maldito aquilo. E pairávamos sob o sentimento de estarmos na História, uma alegria contagiante, generalizada, mesmo esfuziante, aliviada do passado, esperançosa do futuro. Também mesclada, e mais até nas pequenas vilas rurais, com a angústia dos alguns que viam acabar o seu pequeno, mesquinho e irrazoável mundo.

 

Naquela missão eleitoral emparelhei com o D., um francês da minha idade, já calejado, vindo directo de anos com a Cruz Vermelha na guerra dos Balcãs. Como éramos os mais novos da equipa, impacientes e com a volúpia de conhecer, enquanto os restantes se deixaram na modorra citadina ficámos nós a acompanhar as actividades políticas no Ciskei e no sul do Transkei, e ainda nas paupérrimas townships vizinhas, enormes antros de miséria que nem no mapa vinham, e algumas das quais carregavam nomes como Frankfurt, Hamburgo ou Berlim, o absurdo extremo, um sarcasmo toponímico. Uma área enorme a cobrir, uma agenda diária frenética.

 

Valeu-nos que havia um acordo implícito com a polícia, na estrada a velocidade dos observadores era irrestrita. E assim vogávamos entre locais, no afã de a todos chegarmos. Eu carregava bastante e o D. ainda era mais louco (lembro-me de adormecer a seu lado a mais de 180 kms por hora. Naquele pequenino VW Citi 1800 que maior prova de confiança se pode pedir a alguém?). Assim trepidante foi a nossa vida nesses três meses.

 

Foi um verdadeiro mergulho no país, tão diferenciado, complexo, ele era, inebriante que estava. E com vislumbres dos seus líderes. No primeiro domingo em East London coube-nos um jantar no very british Rotary Club, com Thabo Mbeki. Suave, dulcíssimo, ali para deixar aos comensais o recado, que se veio a concretizar, do “business as usual”. E logo no dia seguinte um comício nos arredores, um estádio de futebol cheio para ouvir Ramaphosa, então líder da Cosatu (a central sindical do ANC). Radical, um orador implacável – quem diria então que poucos anos depois seria um dos maiores bilionários do país, até dono de ilhas paradisíacas em Moçambique? -  prometendo “casas, trabalho e escolas para todos, já”, algo que, e bastava olhar em volta, era mais do que justo e necessário. Só nos custava, franzir de experiência feito, aquele “já” tão repetido. Mas tão ansiado por quem ouvia – e foi a primeira vez que vi brancos, poucos, meia dúzia de operários, naquele toyi-toyi que tanto assustava outros e tantos, os estabelecidos. Class rules, disse eu para o lado, mas não era bem verdade. Enfim, na época ainda se discutia qual dos dois seria o vice do Mandela, e seu sucessor, e ficámos espantados com tamanha diferença entre ambos.

 

E outros também. Várias sessões com Winnie, então já separada mas ainda mulher do Madiba. Assim vista ao vivo era uma mulher impressionante, lindíssima na sua já idade, um carisma imponente. Se o discurso era radical - quase quase como o daqueles comícios do PAC (Congresso Pan-Africano), então ainda fiéis ao desejo de uma Azânia sob o lema do “one settler, one bullet”, de cujas sessões foram as únicas das quais nos escapulimos, num “não vale a pena”, tão mal recebidos éramos -, bem interessante era ver o número e a postura das tantas mulheres que sempre a rodeavam e acolhiam, nas cidades ou nas pequenas aldeias: gender issues, imensos, os que lhe alimentavam a liderança, uma bandeira própria. E Holomisa, o grande sobrevivente da política sul-africana, que de presidente do Transkei a dissidente do ANC ainda por lá anda. Simpático, a acolher-nos numa montanhosa aldeola. E, subtil, a rodear-nos pelos seus guarda-costas, não nos fosse acontecer algo. Estes, putos, verdadeiros putos, a confundir-nos, vendo-nos com uniforme, logo a mostrarem-nos as armas, à vez, decerto que novas, delas falando, com elas rindo, como se brinquedos recém-recebidos. Nessa sua alegria a desmontarem qualquer cenário de perigo, como os dois bem percebemos. Mas também a transmitirem um tom algo surreal a tudo aquilo. Para mais tendo nós acabados de cair no golpe que derrubou Gkozo, o muito menos hábil presidente do Ciskei, um dia único, rijo, memória por si só, para mais tarde …

 

Um dia ao rossio de King William’s Town veio FW. Chegámos tarde, atrasados por uma outra qualquer acção. Ali encontrámos uma grossa confusão, a praça quadrada cercada com gente até às entradas, uma contra-manifestação ANC, algo que violava o acordo entre partidos, feito para evitar violências. E isto logo pouco tempo depois da mortandade no Bophuthatswana, que começara numa coisa similar. Ficámos os dois estupefactos, lá estavam os nossos colegas EU e tantos outros observadores, atraídos pela visita de De Klerk. Mas estavam saudando os contra-manifestantes, até com “Vs” a la Churchill, com eles aplaudindo, enfileirados, manifestando-se. “Estes gajos são iguais em todo o mundo” terei resmungado no meu francês de então, já desprezando a esquerdalhada inconsequente. Depois fomos lá para o meio, onde mil apoiantes do Partido Nacional, se tanto, brancos, claro, rodeavam o seu líder. Tensos, assustados, angustiados (“a provarem do que fizeram durante décadas”, terei eu usado de novo o meu francês), convictos que aquele cordão policial não lhes protegeria o futuro. Lá nos pusemos perto do palanque, “showing the flag” (melhor dizendo, “showing the caps”), que era para isso que lá estávamos e nos pagavam. Pouco depois FW acabou a arenga, curta, nervosa, naquele contexto, e avançou. Viu-nos, parou e inverteu o caminho para nos cumprimentar, às estrelas em fundo azul da União Europeia. Naquela época o homem era um símbolo também. Para mim um Gorbatchev, até fisicamente parecido, um líder com a coragem de acabar uma tralha enorme e desprezível, a do seu povo. Nisso e por isso um tipo admirável, e foi o que lhe quis expressar naquele aperto de mão, na resposta ao seu agradecimento. Afinal ainda puto, também tenso naquilo tudo, engasguei-me e saiu-me apenas um estuporado “God bless you, sir”. Horas depois, já de cervejas na mão, ressacando um dia intenso, e sabendo-me todo ateu, o D. ria-se, desbragado, daquela minha tirada. “Estava a falar com um boer, pá”, defendia-me eu, acabrunhado, enquanto percorria o meu parco calão francês. O que fui ali gozado. Com alguma razão. Mas não toda.

 

 

 

  

Num desses dias veio nova tarefa. O comício perto de Aliwal North com Mandela, convocado para as 8 da manhã. Mandela é dali, nasceu um pouco mais a norte, no Transkei, mas a sua língua mãe é Xhosa, a língua local. Tornando ainda mais interessante, se tal possível, acompanhá-lo na região, entre a sua gente, se quisermos falar assim, o que vale o que vale, que nunca fez ele alarde de algum xhosismo. Mas ainda assim foi também por isso que lá fomos, tão exultantes, saímos na alvorada, naquele habitual “pata a fundo” para chegar à hora marcada. Para encontrar um estádio de futebol já apinhado, bancadas e relvado, e mais houvesse ... Ali tudo madrugara, para acolher o Madiba. Foram horas na expectativa da sua chegada, era a campanha e decerto que o líder tinha várias sessões no caminho. E nessa espera ali ocorreu festa constante, cânticos múltiplos, grupos corais, das igrejas alguns, outros mais ou menos espontâneos, um corrupio de gente feliz. Nós, estrangeiros, constantemente interpelados, saudados, numa comunhão festiva. Mais espantoso ainda, não havia qualquer produção, nem discursos, nem animadores, nem espectáculos musicais, isso dos profissionais para alegrar ou apenas aquecer o “povo”, como é tão costume pelo mundo todo. Apenas a população esperando o seu candidato, o seu líder, até que enfim, e em festa por isso. Era a minha primeira vez em África, ainda desabituado de muitas coisas, inesperando tantas outras. E toda aquela agitação, superlativa, todo aquele som e cor me deixou fascinado, mesmo que sempre na disciplina do anti-exótico.

 

 

Finalmente, já bem pela tarde dentro, às 4 horas, chegou a caravana. Foi o delírio, mas não aquele delírio do êxtase, espumado, frenético, sim o da alegria, o de receber e partilhar, um cúmulo de comunhão, um “estar juntos” como se disse depois. Quando soou que aí vinha deixei-me de neutralidades, também eu corri, atravessando o estádio, para o receber, a coisa do uniforme fez-me chegar até perto, nisso em definitivo perdendo de vista o tradutor. Mandela apareceu, aquele ar de falso frágil, o sorriso quase enigmático e que nunca consegui definir melhor do que chamando-lhe maroto. Na felicidade alegre do tal “até-que-enfim”, digo, o “Now is the time”, palavra de ordem de então. A população delirante e eu, nós, quase tanto, qual de nós, observadores – e tantos eram, dezenas, chegados nas últimas horas, quantas ongs andavam naquilo … -, não era de Madiba?

 

Mandela cruzou-nos e subiu ao palco, uma apoteose. Junto do seu povo, que o era a maioria do país, mas mais ainda ali, terra de Xhosas, que enchiam aquele terreno, pensei. E discursou. Logo, de imediato, arrepiando-me, verdadeira “pele de galinha” – e ainda hoje, ao escrever isto me acontece. Pois falando em africânder. Ali mesmo, no seu espaço natal, falando “a língua do inimigo”. Foi breve. E no fim pediu desculpa, já em inglês, e disse que queria fazer um resumo, pois ali estavam, estávamos, muitos “amigos estrangeiros”. E disse-nos, a todos os outros repetindo, que ali, África do Sul, era, já era, ia ser, a nação “arco-íris”, a “rainbow nation”. E partiu, para este nosso futuro.

 

Um “healer”, curandeiro laico, sarando o passado, prevenindo o futuro, minha tese que foi parte da conversa no longo regresso desse dia, lento pois comovido. “Amandla” para homens assim. Com a enorme grandeza da generosidade. De fazer futuros.

 

 

 

 

 

 

 

publicado às 16:07

O melhor dos homens

por jpt, em 04.04.13

 

Está, ainda hoje, aqui ao meu lado. Este autocolante que trouxe das eleições (que momento!!) de 1994. Fui buscá-lo, verificá-lo, apalpá-lo, neste dia de boatos sobre a sua morte. O melhor homem? Não se diz isso. Mas com o melhor dos homens, com o melhor que os homens têm, isso com toda a certeza.

publicado às 23:02

Invictus, de Clint Eastwood

por jpt, em 18.04.10

Mãos amigas trouxeram-me o filme. Que delas voou para o DVD. Tinha maus pressentimentos face a ele: a história de Nelson Mandela, o melhor dos políticos (dos homens?), e do mundial de râguebi, o melhor dos jogos, pelas mãos e olhos de Clint Eastwood, o melhor dos cineastas (e único alter ego). Expectativas muito altas, medo de me desapontar. Mas não, não se tratou de um desapontamento. Foi apenas um engano, trouxeram-me outro filme, enganaram-se na capa.

E por isso levei com uma grande pepineira! Trouxeram-me, afinal, um tele-filme com os maus tiques todos, as analepses para evitar o génio narrativo, as câmara-lentas para nos "fazer-sentir" (a câmara-lenta em cinema é o equivalente ao baralho marcado da mesa de jogo, com hipotética excepção do que às vezes aconteceu a Sam Peckinpah), uns excertos de râguebi ridiculamente mal jogado, por "jogadores" quase tão preguiçosos como o raio do argumentista (há uns pontapés de abertura que fariam rir um espectador menos furibundo), uma sucessão de inanidades, tudo previsível. Salva-se apenas o sotaque do actor que representa Nelson Mandela, um tal de Morgan Freeman. Actor que merecerá, pareceu-me, sair do registo televisivo e começar a fazer verdadeiros filmes de cinema.

O que terá acontecido? O que explicará isto? Pirataria?

jpt

publicado às 18:40

Now is the time

por jpt, em 11.02.10

Há vinte anos Mandela saía da prisão. O absurdo (mas muito racional) regime racista desmanchava-se. Ainda foi a tempo, now is the time disse-se logo a partir daí - até 1994. Quando foi eleito presidente.

Antes uma situação insustentável internamente. Uma imensa campanha internacional (abaixo o hino - festivo - cantado nos 80s). E o fim do comunismo e da Guerra Fria.

O melhor dos homens.

jpt

publicado às 09:02

Ícone

por jpt, em 03.09.08

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"Restaurant Mandela, spécialités africaines" [Ixelle (Matongé), Bruxelas, Agosto 2008]

publicado às 15:33

...

por jpt, em 02.10.06

(Autocolante das eleições sul-africanas de 1994, que aqui estava à frente para ilustrar uma memória que nunca mais sai. Então fica já, imagem dedicada ao Portugal dos Pequeninos)

publicado às 21:25

Mandela Terrorista

por jpt, em 28.10.05

Via Cocanha cheguei a isto, um protesto ao Nobel da Literatura a Pinter: "Depois que dois terroristas do calibre de Arafat e Mandela foram premiados com o Nobel, podemos esperar qualquer coisa.". Está aqui a bílis toda, "o calibre de terrorista" de Mandela sublinhado, como forma de invectivar a academia que atribui o prémio.

Posteriormente, decerto para manter um ar "actualizado", "civilizado", um jogo retórico a querer-se auto-legitimador, algo que nem justifica contraposição pois aqui o contexto dos textos é evidente. Superlativo de evidência.

Esta coisa, prenhe de desprezo, da tal bílis para não dizer de outra forma, por quem participou e liderou numa luta contra um regime racista (por excelência) e supra-opressivo*, surge agora muito apreciada, louvada e emparceirada no bloguismo português. Dito democrático, algum até liberal. Louvores e parcerias que ficam a quem os faz. Ficam bem se demonstrando-os. Ficam mal, se demonstrando-os.

Para esta coisa a história da política foi dando nomes: "ultramontano", "fascista", "fundamentalista" mais agora, "autoritário". Tudo palavras cujo excessivo mau-uso desvalorizou, poluíu. Já não servem. De facto esta coisa tem um só nome. Lixo.

Depois ... há quem viva com o lixo, há quem abrace o lixo. E há quem o limpe. Mera questão de higiene. O chá em criança talvez ajude. Mas não chega.**

*para os mais liberais mas ao mesmo tempo apreciadores de tais simpatias racistas com o anterior regime de apartheid da África do Sul seria conveniente aprenderem, mesmo que apenas para matizar tamanho desapreço com o tal terrorista. Aquele foi um regime ferozmente anti-liberal: não só as liberdades individuais eram na lei e na prática negadas, como o direito à propriedade privada era com a população não-branca a ser impedida de acumular e preservar propriedade. Mais, aquele foi também, imagine-se, arquétipo de um regime de multiculturalismo.

**no ma-schamba já me irritei contra o vácuo da proclamada superioridade moral da esquerda. Mas é óbvio que quem aprecia estes recipientes enferma de uma óbvia "inferioridade moral de centro/direita". Mal hajam.

publicado às 08:44

"One subject we harkened back to again and again was whether there were tigers in Africa. Some argued that although it was popularly assumed that tigers lived in Africa, this was a myth and that they were native to Asia and the Indian subcontinent. Africa had leopards in abundance, but no tigers. The other side argued that tigers were native to Africa and some still lived there. Some claimed to have seen with their own eyes this most powerful and beautiful of cats in the jungles of Africa.

I maintained that while there were no tigers to be found in contemporary Africa, there was a Xhosa word for tiger, a word different from the one for leopard, and that if the word existed in our language, the creature must have once existed in Africa. Otherwise, why would there be a name for it? This argument went round and round, and I remember Mac retorting that hundreds of years ago there was a Hindi word for a craft that flew in the air, long before the aeroplane was invented, but that did not mean that aeroplanes existed in ancient India."

[Nelson Mandela, Long Walk To Freedom, Abacus, 2004 (1994), p. 511]

Nota: contribuição conjugal para o Ma-Schamba.

publicado às 23:19


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