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Eduardo Hughes Galeano nasceu em Montevidéu, Uruguai, em 1940. Faleceu hoje. A notícia saiu há pouco mais de meia hora.

Galeano é o autor de mais de quarenta livros, traduzidos em diversos idiomas. 

A sua carreira iniciou-se no jornalismo mas a sua obra é transversal aos diversos géneros literários como o ensaio, a poesia, a narrativa, a análise política e a História.

"As veias abertas da América Latina", romance histórico onde denunciou a opressão e a amargura do continente sul americano numa perspectiva politico-económica, será concerteza a sua obra mais conhecida.

Aqui deixo uma frase que dizem ser sua. Para mim, resume a sua personalidade e o seu carisma.

'Na parede de um botequim de Madrid, um cartaz avisa: “Proibido cantar”. Na parede do aeroporto do Rio de Janeiro, um aviso informa: “É proibido brincar com os carrinhos porta-bagagem”. Ou seja: Ainda existe gente que canta, ainda existe gente que brinca.'     

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 VA

 

                               

publicado às 14:31

O Musgo

por jpt, em 19.02.15

Em 19 de Fevereiro fui viver para Moçambique, já lá tinha estado seis meses e tal em trabalhos. Foi em 1997, faz hoje exactamente 18 anos. Cada vez mais me convenço que errei agora, ao partir neste torna-viagem. Paciência, está feito. Telefonam-me de Maputo, a lembrarem a data, pretexto para a sorridente provocação "quando é que voltas?" em entoação de como se tivesse eu hora de chegada a Mavalane ... Sorrio, também, pois se nem visto tenho.

 

Para as machambas destes 18 anos e tal fico-me com este poema

 

 

Musgo

 

Dir-se-á mais tarde; 

por trémulos sinais de luz

no ocaso quase obscuro; 

se os templos contemplando

estes currais sem gado

ruíram de pobreza.

 

Dir-se-á depois

por púlpitos postos em silêncio;

peso também a decompor-se

no mesmo pouco som;

se desaba o desenho

da nave antes de fermentar

a cor da sua pedra,

como fermentam leite e lã

de ovelhas mais salinas.

 

Dir-se-á por fim

que nenhum tempo se demora

na rosácea intacta;

e talvez

que só o musgo dá, 

em seu discurso esquivo

de água e indiferença;

alguma ideia disto.

 

(Carlos de Oliveira, "Musgo")

publicado às 11:45

A lembrar Craveirinha

por jpt, em 18.11.14

cravei.jpg

 

Pinto Lobo, leitor de quem já falei, e que há uma década tem a paciência de aturar o ma-schamba e de me ir mandando documentação, enviou-me há algum tempo um texto que o escritor João Reis escreveu quando José Craveirinha morreu, já no longínquo 2003.

Partilho-o aqui.

 

E deixo-o também assim: 

 

Ao Meu Belo Pai Ex-emigrante
 
 
Pai:
As maternas palavras de signos
vivem e revivem no meu sangue
e pacientes esperam ainda a época de colheita
enquanto soltas já são as tuas sentimentais
sementes de emigrante português
espezinhadas no passo de marcha
das patrulhas de sovacos suando
as coronhas de pesadelo.

E na minha rude e grata
sinceridade não esqueço
meu antigo português puro
que me geraste no ventre de uma tombasana
eu mais um novo moçambicano
semiclaro para não ser igual a um branco qualquer
e seminegro para jamais renegar
um glóbulo que seja dos Zambezes do meu sangue.

E agora
para além do antigo amigo Jimmy Durante a cantar
e a rir-se sem nenhuma alegria na voz roufenha
subconsciência dos porquês de Buster keaton sorumbático
achando que não valia a pena fazer cara alegre
e um Algarve de amendoeiras florindo na outra costa
Ante os meus sócios Bucha e Estica no "écran" todo branco
e para sempre um zinco tap-tap de cacimba no chão
e minha Mãe agonizando na esteira em Michafutene
enquanto tua voz serena profecia paternal: - "Zé:
quando eu fechar os olhos não terás mais ninguém."

Oh, Pai:
Juro que em mim ficaram laivos
do luso-arábico Aljezur da tua infância
mas amar por amor só amo
e somente posso e devo amar
esta minha bela e única nação do Mundo
onde minha mãe nasceu e me gerou
e contigo comungou a terra, meu Pai.
E onde ibéricas heranças de fados e broas
se africanizaram para a eternidade nas minhas veias
e teu sangue se moçambicanizou nos torrões
da sepultura de velho emigrante numa cama de hospital
colono tão pobre como desembarcaste em África
meu belo Pai ex-português.

Pai:
O Zé de cabelos crespos e aloirados
não sei como ou antes por tua culpa
o "Trinta-Diabos" de joelhos esfolados nos mergulhos
à Zamora nas balizas dos estádios descampados
avançado-centro de "bicicleta" à Leónidas no capim
mortífera pontaria de fisga na guerra aos gala-galas
embasbacado com as proezas do Circo Pagel
nódoas de cajú na camisa e nos calções de caqui
campeão de corridas no "xituto" Harley-Davidson
os fundilhos dos calções avermelhados nos montes
do Desportivo nas gazetas à doca dos pescadores
para salvar a rapariga Maureen OSullivan das mandíbulas
afiadas dos jacarés do filme de Trazan Weissmuller
os bolsos cheios de tingolé da praia
as viagens clandestinas nas traseiras gã-galhã-galhã
do carro eléctrico e as mangas verdes com sal
sou eu, Pai, o "Cascabulho" para ti
e Sontinho para minha Mãe
todo maluco de medo das visões alucinantes
de Lon Chaney com muitas caras.

Pai:
Ainda me lembro bem do teu olhar
e mais humano o tenho agora na lucidez da saudade
ou teus versos de improviso em loas à vida escuto
e também lágrimas na demência dos silêncios
em tuas pálpebras revejo nitidamente
eu Buck Jones no vaivém dos teus joelhos
dez anos de alma nos olhos cheios da tua figura
na dimensão desmedida do meu amor por ti
meu belo algarvio bem moçambicano!

E choro-te
chorando-me mais agora que te conheço
a ti, meu pai vinte e sete anos e três meses depois
dos carros na lenta procissão do nosso funeral
mas só Tu no caixão de funcionário aposentado
nos limites da vida
e na íris do meu olhar o teu lívido rosto
ah, e nas tuas olheiras o halo cinzento do Adeus
e na minha cabeça de mulatinho os últimos
afagos da tua mão trémula mas decidida sinto
naquele dia de visitas na enfermaria do hospital central.

E revejo os teus longos dedos no dirlim-dirlim da guitarra
ou o arco da bondade deslizando no violino da tua aguda tristeza
e nas abafadas noites dos nossos índicos verões
tua voz grave recitando Guerra Junqueiro ou Antero
e eu ainda Ricardino, Douglas Fairbanks e Tom Mix
todos cavalgando e aos tiros menos Tarzan analfabeto
e de tanga na casa de madeira e zinco
da estrada do Zichacha onde eu nasci.

Pai:
Afinal tu e minha mãe não morreram ainda bem
mas sim os símbolos Texas Jack vencedor dos índios
e Tarzan agente disfarçado em África
e a Shirley Temple de sofisma nas covinhas da face
e eu também Ee que musámos.
E alinhavadas palavras como se fossem versos
bandos de sécuas ávidos sangrando grãos de sol
no tropical silo de raivas eu deixo nesta canção
para ti, meu Pai, minha homenagem de caniços
agitados nas manhãs de bronzes
chorando gotas de uma cacimba de solidão nas próprias
almas esguias hastes espetadas nas margens das úmidas
ancas sinuosas dos rios.

E nestes versos te escrevo, meu Pai
por enquanto escondidos teus póstumos projectos
mais belos no silêncio e mais fortes na espera
porque nascem e renascem no meu não cicatrizado
ronga-ibérico mas afro-puro coração.
E fica a tua prematura beleza realgarvia
quase revelada nesta carta elegia para ti
meu resgatado primeiro ex-português
número UM Craveirinha moçambicano!

 

 

publicado às 01:31

Vinicius de Moraes - 100 anos

por mvf, em 19.10.13

 

Com o nome de baptismo Marcus Vinitius da Cruz de Melo Moraes (apenas aos nove anos é registado como Vinicius de Moraes), nasce no dia 19 de Outubro de 1913, na Rua Lopes Quintas nº114, no bairro do Jardim Botânico, Rio de Janeiro. Vinicius morreu de edema pulmonar a 9 de julho de 1980 em sua casa na Gávea, também no Rio de Janeiro.

 

 

 
 
 
Quando passam 100 anos sobre o seu nascimento, a evocação em forma de poema. Perdoarão naturalmente os mais avançados um certo paroquianismo se aqui deixar "Soneto da Fidelidade", escrito pelo poeta numa curta escala no Estoril em 1939, enquanto esperava o paquete que o levaria ao Brasil vindo de Londres nos primeiros dias da II Guerra Mundial.
 
 
-------------------------
 
Soneto da Fidelidade
 
 
 
 
 
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
 
-
 
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
 
-
 
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
 
-
 
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure
 
.
 
 
          (Vinicius de Morais, Estoril, Portugal, Outubro de 1939)

publicado às 23:59
modificado por jpt a 23/1/15 às 01:41

Balada da Ameixa Seca

por jpt, em 16.04.13



Balada da Ameixa Seca

 

Vai à mercearia e compra ameixa seca,

P'ra o intestino a ameixa é levada da breca!

 

O mal do Ocidente - quem há que não o sinta? -

é não ter a tripa sempre limpa.

 

Com seus altos valores, o Ocidente

dá por demais ao dente, dá por demais ao dente.

 

Põe-me os olhos nos povos que só comem arroz:

dão melhores guerrilheiros do que nós.

 

Um saquitel de arroz, uma biciclet',

arma na bandoleira - e lá vai o viet.

 

"Noss'povo" ao contrário, como o que apanha à mão.

Até parece fome de muita geração!

 

E larga, já comido, o corpo em qualquer canto.

Sonha Terceiro Mundo e é Europa, entretanto.

 

Encostado ao sobreiro ou ao ficheiro,

"Noss'povo" já nada tem de marinheiro.

 

Sua tripa, represa, é trabalhosa.

Sua prosápia já só é má prosa.

 

Portugal-do-casqueiro à Europa-das-latas

manda cortiça, vinho, diplomatas.

 

Espera contrapartidas: sol-e-vistas

é cartaz que atrai muitos turistas.

 

Mas com a ameixa seca - coisa pouca! - 

é que pode acordar sem amargos de boca.

 

Vai à mercearia e compra ameixa seca.

P'ra o intestino a ameixa é levada da breca!

 

(Alexandre O'Neill)

publicado às 20:24

Oração

 

Feliz possa caminhar.

Feliz com abundantes nuvens negras possa caminhar.

Feliz com abundantes chuvas possa caminhar.

Feliz com abundantes plantas possa caminhar.

Feliz por uma senda de pólen possa caminhar.

Feliz possa caminhar.

Como aconteceu em dias distantes possa agora caminhar.

Que defronte de mim tudo seja belo.

Que atrás de mim tudo seja belo.

Que debaixo de mim tudo seja belo.

Que por cima de mim tudo seja belo.

Que derredor de mim tudo seja belo.

Belo belo acaba aqui.

Belo belo acaba aqui.

 

(Texto navajo, versão de Herberto Hélder. Retirado de "Rosa do Mundo. 2001 Poemas Para o Futuro", Assírio & Alvim).

 

Para o Pedro, meu sobrinho-neto, que nasceu ontem.

publicado às 08:23

Torquato da Luz

por jpt, em 26.03.13

 (Imagem encontrada aqui)

 

Leio a nota que sua filha colocou ontem no seu tão cuidado blog Ofício Diário, anunciando-nos, aos fiéis leitores, a morte de Torquato da Luz. Sabia-lhe o nome, o papel na imprensa portuguesa, em particular em tempos épicos da instauração da democracia. Mas foi nesse "Ofício Diário" que o conheci, acompanhando-o ali, onde durante anos, desde 2004, de um modo paciente, apaixonado e tão sóbrio, partilhou a sua poesia.

 

Sou um mau leitor de poesia, impaciente, quantas vezes buscando-lhe o rumo e mesmo desenlaces que ela não quer ter. Ou que eu não consigo descortinar. E nisso lembro agora que, há um mês, ao chegar ao "Sem drama", último poema que ali deixou, me senti retratado naquele, nada acusatório mas tão descansadamente irónico, transpirando a bonomia do homem vivido e sábio, "Poucas pessoas gostam de poesia, / embora a maioria, / como é sabido, diga que sim. / (...) / Vicejando em qualquer lado, / há quem a ponha na lapela / para o encontro aprazado. / Outros mostam-na à janela / no lugar do cortinado. / Mas, sem que nisso haja drama, / raros são decerto aqueles / que a fazem dormir com eles / noite após noite na cama". Pensei até enviar-lhe nota dessa minha sensação de retratado, "sem drama" claro. Falhei nisso, perdendo-me em demoras.

 

Com gentileza, que me foi até surpreendente, e que inicialmente atribuí à solidariedade no seio desta confraria bloguística, foi-me enviando os livros que ia publicando. Agradeci-lhos, com sinceridade, mas nunca me atrevi a perguntar-lhe da razão de ofertar este leitor sempre silencioso. Fiquei-me com a ideia, fico-me com ela, pois me é agradável, que fosse forma dele remeter o seu trabalho para este Maputo, o ex-Lourenço Marques, onde um dia, longínquo das quatro décadas já decorridas desde 1971-2, entrou com os seus poemas nessa espantosa, até lendária, aventura do "Caliban", revista como-se-fundacional capitaneada por António Quadros (então J.P. Grabato Dias) e Rui Knopfli. Sendo assim meio de refutar, pelo menos em parte, aquilo do "Tudo o que outrora soube e já esqueci: / os nomes, coisas, datas e lugares. / (...) / Tudo o que tive e nunca mais terei." (em "Tudo"), neste caso um seu lugar de ombrear poético.


Assim sendo, deixando-me crer nesta versão, nesta sua morte regresso ao Torquato da Luz de "Caliban", neste meu volume que um dia, abençoado seja, José Soares Martins e Nelson Saúte, abençoados sejam, decidiram reeditar e reavivar. A um Torquato da Luz invejável, capaz de deixar isto (será que o viveu?, e se sim ainda mais invejável ..., invejo-o eu, sempre estancado diante da aflição):


Apenas aflição


Apenas aflição e nada mais.

Um arrepio correndo o corpo todo.

Estar aflito é um modo

de estar com os demais.


Aflito. Como se um rio

de súbito saído do seu leito

afogasse o navio

do corpo a que estou sujeito.


Não temas. É aflito que escrevo.

Aflito realizo

ser de tudo o que vejo o dono e o servo.


Tudo o mais que preciso

é saber que me devo

um permanente aviso.


(Caliban, nº 3-4)

 

Adenda: também coloquei este postal no Delito de Opinião. Lá, nos comentários, Ana Vidal deixou um poema auto-retrato de Torquato da Luz. Mais do que se justifica trazê-lo para aqui:

 

O QUE DER E VIER

Tributário apenas da verdade,
avesso a peias e grilhetas,
feito da massa dos poetas
e dos que amam a liberdade,
sensível à dor própria e à dor alheia,
lutando até ao fim por uma ideia
de peito aberto e sem ter medo
de nada nem de ninguém,
capaz de guardar segredo
mas de o revelar também,
eis como sempre hei-de ser
para o que der e vier.


publicado às 07:02

 

Chamo-me pássaro Pablo,

ave de uma pena só,
voador na escuridão clara
e claridade confusa,
minhas asas não são vistas,
os ouvidos me retumbam
quando passo entre as árvores
ou por debaixo das tumbas
qual funesto guarda-chuva
ou como espada desnuda,
estirado como um arco
ou redondo como uma uva,
voo e voo sem saber,
ferido na noite escura,
aqueles que vão me esperar,
os que não querem meu canto,
os que me querem ver morto,
os que não sabem que chego
e não virão para vencer-me,
a sangrar-me, a retorcer-me
ou beijar minha roupa rota
pelo sibilante vento.
Por isso eu volto e vou,
voo mas não voo, mas canto:
pássaro furioso sou
da tempestade tranquila.
 

Pablo Neruda - O Pássaro Eu

AL (ao P por um ano de vida)

publicado às 06:33
modificado por jpt a 7/9/13 às 14:23

Passado presente

por jpt, em 23.06.12
 

A confusão a fraude os erros cometidosA transparência perdida — o gritoQue não conseguiu atravessar o opacoO limiar e o linear perdidos

Deverá tudo passar a ser passadoComo projecto falhado e abandonadoComo papel que se atira ao cestoComo abismo fracasso não esperançaOu poderemos enfrentar e superarRecomeçar a partir da página em brancoComo escrita de poema obstinado?

Os Erros por Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"

AL

publicado às 01:25

Geografias

por jpt, em 24.03.12
 

 Estou mais perto de ti porque te amo.Os meus beijos nascem já na tua boca.Não poderei escrever teu nome com palavras.Tu estás em toda a parte e enlouqueces-me.Canto os teus olhos mas não sei do teu rosto.Quero a tua boca aberta em minha boca.E amo-te como se nunca te tivesse amadoporque tu estás em mim mas ausente de mim.Nesta noite sei apenas dos teus gestose procuro o teu corpo para além dos meus dedos.Trago as mãos distantes do teu peito.Sim, tu estás em toda a parte. Em toda a parte.Tão por dentro de mim. Tão ausente de mim.E eu estou perto de ti porque te amo.
Joaquim Pessoa, in 'Os Olhos de Isa'AL

publicado às 07:44

Ausência

por jpt, em 14.03.12
Por muito tempo achei que a ausência é falta.E lastimava, ignorante, a falta.Hoje não a lastimo.Não há falta na ausência.A ausência é um estar em mim.E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,que rio e danço e invento exclamações alegres,porque a ausência, essa ausência assimilada,ninguém a rouba mais de mim.
Carlos Drummond de Andrade in 'O Corpo'AL

publicado às 12:43

Há palavras que nos beijam

por jpt, em 11.03.12
[caption id="attachment_33691" align="aligncenter" width="648" caption="The lovers por Magritte"][/caption]

Há palavras que nos beijamComo se tivessem boca.Palavras de amor, de esperança,De imenso amor, de esperança louca.Palavras nuas que beijasQuando a noite perde o rosto;Palavras que se recusamAos muros do teu desgosto.De repente coloridasEntre palavras sem cor,Esperadas inesperadasComo a poesia ou o amor.(O nome de quem se amaLetra a letra reveladoNo mármore distraídoNo papel abandonado)Palavras que nos transportamAonde a noite é mais forte,Ao silêncio dos amantesAbraçados contra a morte.
Alexandre O'Neill in 'No Reino da Dinamarca'AL

publicado às 23:37

Coração e liberdade

por jpt, em 27.11.11

Não era o seu poeta favorito, o Pablo Neruda. Dizia-o adocicado, demasiado meloso. Mas comprou uma versão bilingue da sua obra. Levávamo-la connosco nas escapadas que fazíamos e descobria sempre um qualquer poema para me ler. Gostava de ler para mim. Gostava de trocar as voltas a Neruda quando me abraçava e dizia-me baixinho: Para mi libertad bastan tus alas/Para tu corazón basta mi pecho. Sorria e beijava-me.  Dizia-me “we have lost even this twilight” sempre que a geografia nos separava...

 

AL (para DM) 

publicado às 03:06

Segredo

por jpt, em 07.11.11


[Michael Austin - Red Dress]

 

Não contes do meu 
vestido 
que tiro pela cabeça 

nem que corro os 
cortinados 
para uma sombra mais espessa 

Deixa que feche o 
anel 
em redor do teu pescoço 
com as minhas longas 
pernas 
e a sombra do meu poço 

Não contes do meu 
novelo 
nem da roca de fiar 

nem o que faço 
com eles 
a fim de te ouvir gritar 

 

 

Maria Teresa Horta, "Segredo"

 

 

 

AL

publicado às 02:14

Outono

por jpt, em 04.11.11

[Oslo - Folhagem - Outubro 2011] 

 

Tu és a folha de outono

voante pelo jardim.

Deixo-te a minha saudade-

a melhor parte de mim.

Certa de que tudo é vão.

Que tudo é menos que o vento,

menos que as folhas do chão...

 

Em Canção de Outono de Cecília Meireles

 

 

 

["Oslo - Outubro 2011]

 

[Oslo - Outubro 2011]

 

[Oslo - Outubro 2011]

 

[Oslo - Outubro 2011] 

 

[Oslo - Outubro 2011]

 

[Oslo - Outubro 2011]

 

[Oslo - Outubro 2011]

 

[Oslo - Outubro 2011]

 

[Oslo - Outubro 2011]

 

AL

publicado às 12:30


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