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O acontecimento de Chimoio

por jpt, em 17.09.15

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A imagem é daquelas com tudo para se tornar icónica. A Universidade Católica da Beira comemora-se e convida para o efeito o antigo presidente Joaquim Chissano e o presidente do Renamo Afonso Dhlakama, numa óbvia celebração da paz. Como é tão usual nestes momentos libertam-se pombas brancas. Uma destas recusa-se a voar e caminha na sala, postando-se diante de Dhlakama. A gente sabe que é um mero acaso, momentâneo, apenas uma ave atordoada, desnorteada naquela sala, talvez enfraquecida pelo cativeiro. Mas estão lá todos os elementos para a decidirmos tornar simbólica, e cada um lhe colará um conteúdo peculiar (a ave convocando o abrasivo líder para a paz? a ave reconhecendo o arauto da paz? etc.) segundo a vontade e/ou crença própria.

 

Olhando a imagem o que me convoca é o momento do (benéfico) acontecimento. Ocorrido dois dias depois dos acontecimentos de Chimoio - sobre os quais escrevi aqui (assumindo como certa uma versão falsa? assumindo como certa uma versão certa?). Ou seja, logo após uma emboscada em Chimoio o líder do Renamo segue para a Beira para uma cerimónia, benfazeja e decerto que simpática, curial. Isto ainda mais me sublinha a consciência do quão volátil é a minha percepção da política moçambicana. No facebook, no grupo do blog, jornalistas moçambicanos (usualmente muito bem infomados e nada ligados ao partido Renamo) afiançam-me a veracidade dos acontecimentos de Chimoio. Outros meus conhecidos negam o caso (sem que deles se possa dizer que são agentes do partido Frelimo). Eu radico-me na minha incompreensão: de uma emboscada quase letal na estrada de Chimoio para uma aprazível cerimónia na Beira correm apenas dois dias? É possível, até pode significar um enorme auto-despojamento daquele líder, veterano do perigo. Mas é, para este vulgar mortal jpt, verdadeiramente surpreendente. Tanto que aquela foto que encima o postal me simboliza o espanto, continuado, face à complexidade dos discursos políticos moçambicanos, imperscrutável para mim. Também por isso me parece que a agência portuguesa Lusa [que noticiou o caso em primeira mão, tendo-o testemunhado] deveria ter algo mais a dizer. Fosse uma muito humana corrigenda ou uma também humana reafirmação. Até para sublinhar a sua excentricidade ao campo político moçambicano.

 

Sobre este caso Elísio Macamo, com a sua tenaz agudeza analítica, publicou um duríssimo texto. Para com a Lusa. E para com as instituições internacionais e os indivíduos que assumiram como certa a notícia, explicitada naqueles termos. Eu enfio a carapuça. Não sei os outros. Mas a agência está convocada para algo responder (está como o político diante da pomba, acho). E dada as suas características institucionais não me parece possível que se exima a tal.

 

Adenda: dizem-me que na última edição do Savana se noticia que 4 jornalistas de diferentes órgãos, entre os quais um dos colaboradores daquele jornal, testemunharam o ataque e confirmam a versão inicial. Continuo estupefacto ....

publicado às 06:14

O modelo angolano

por jpt, em 13.09.15

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É a própria Lusa, decerto que porque com jornalistas no local, que noticia que o atentado à vida de Afonso Dhlakama, ontem ocorrido em Chimoio, foi realizado por membros da polícia. Isto demonstra a perenidade em membros da administração estatal e do Frelimo do sonho angolano, de uma filiação ao modelo angolano. Não digo que seja isso universal no seu seio mas está vigorosamente pujante Ou seja, a ideia de que a pacificação do país e a reprodução do sistema socioeconómico e político vigente será possível, melhor dizendo, só será possível com a eliminação do dirigente da oposição. Foi assim em Angola com o abate de Savimbi será assim em Moçambique, pensarão. Esquecem-se ou desconhecerão a velha máxima, a de que a história não se repete. Ou, por outras palavras, que esta situação é muito diversa, o feixe de interesses internacionais em torno do país e a complexidade sociológica interna são bem diferentes, a exigirem outra criatividade na condução da evidente crise. Creio mesmo que a morte de Dhlakama seria o pior que poderia acontecer ao Frelimo, incrementando a dramatização da vida política nacional, pulverizando as vozes liderantes na oposição, fragmentando os apoiantes do próprio partido, minando a reputação internacional do poder sediado em Maputo. E etc.

 

Não tenho particular simpatia para com o Renamo, não encontro nele aquele partido vinculado ao projecto de welfare state desenvolvimentista e grávido de preocupações ecológicas que tanto sonhei para o país. E considero que a reescalada da violência se deve, em primeira análise, à sua estratégia eleitoral (sim, eleitoral) encetada com o ataque armado à esquadra de Muxungue. Mas é parte fundamental do sistema nacional moçambicano e face a isso as técnicas da negociação devem-se impor. Parte fundamental porque legítima, democraticamente legítima.

 

E é por isso que tanto torci o nariz ao recente discurso de Mia Couto, tão aclamado foi. Porque, e para além do pernicioso e obscurantista anti-sociologismo que sempre é a invocação (tão recorrente) do carácter familiar de um país (de uma vez por todas: um país não é como uma família nem como tal deve ser imaginado ou metaforizado), ali o autor nos transporta para um registo onde está subliminar a ilegitimidade da Renamo. Pois ao reduzir agora, seguindo o jargão da época, a guerra civil moçambicana a uma "guerra de desestabilização" (aquela contra "os bandidos armados") é essa ilegitimidade que se está a evocar - com o perigo de se estar também a invocá-la. 

 

Foi o então Renamo criada do estrangeiro, no âmbito de uma "desestabilização"? Foi. Mas a guerra civil não se restringiu a isso, e o Renamo não foi depois nem é agora apenas isso. E amputar esta completude no discurso actual é hoje, apesar da retórica, nada pacificador. Muito pelo contrário. E a "convivência nacional", a necessária constante negociação, a paz e o tão necessário desenvolvimento, passam e obrigam a um depuramento conceptual. Mais do que a retóricas benfazejas.

 

Adenda

 

A distância dá nisto: durante anos habituei-me a acalmar as perguntas idas de Portugal sobre os acontecimentos ditos escatológicos que ocorriam em Moçambique. Normalmente não eram tão graves ou mesmo não eram algo. Agora, daqui de Lisboa, também me pareceu algo suspeito o anunciado. Mas a Lusa divulgou e passado um dia ainda não negou o acontecido pelo que acabei por acreditar nas notícias, que tanto iam sendo ecoadas em diversos jornais (e nos murais dos cidadãos).
 
Entretanto através do blog de Carlos Serra acedo a notícias que negam qualquer atentado - fico à espera que a agência noticiosa portuguesa, que não é privada, diga algo mas ainda não. E é grave esse défice de informação, muito grave mesmo. De qualquer modo o fundamental é a inexistência do atentado, será óptimo que assim tenha sido.
 
Mas não altero o postal, está escrito está escrito - e de certa forma ecoa as minhas opiniões sobre os ataques à base do Renamo em ano anterior. E, pelo menos, deixou botar cá para fora o resmungo com o discurso do Mia Couto, que tantos elogios colheu e que tanto me desagradou, e que tinha ficado a marinar.

 

 

publicado às 13:54

Eleições moçambicanas

por jpt, em 16.10.14

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[fila para votação, fotografia da página-facebook Txeca]

 

A contagem vai avançando, vejo os resultados parciais anunciados nos murais-FB de amigos. É certo que nisto da política costuma-se dizer que "prognósticos só depois do jogo", e que muito provavelmente os postos ainda não transmitidos são os mais longínquos de Maputo, nos quais o predomínio do partido Frelimo será menos acentuado. Mas pelos resultados já vistos pode-se retirar a ideia de que, como era esperado, Filipe Nyusi será o próximo PR. E que o Frelimo ganhará a maioria parlamentar - nesta vertente alguns consideravam a hipótese de brotar apenas uma maioria relativa.

 

Como é normal os ânimos políticos exaltam-se nestas ocasiões e um tipo - ainda para mais estrangeiro - falar da questão levanta sempre mal-estar nos alheios. Mas ainda assim:

 

O partido Frelimo tem muitos defeitos, nos quais noto mais a insensibilidade ecológica das suas camadas dirigentes. E refiro-o não como se fosse eu um tardio hippie mas porque antevejo enormes custos sociais futuros devidos à depradação do meio ambiente. E tem também a parte, antipática a muitos olhares, de corporizar a formação da burguesia nacional, tal-e-qual tantos outros lugares (basta ir ler o velho Thomas More, para saber como foi) - e com imensos tiques da "burguesia compradora", como se chamava há umas décadas. Mas também tem esta característica: governa há 40 anos. Num país que começou paupérrimo, no qual assumiu uma política comunista que teve custos e tendo depois feito uma inflexão capitalista (chama-se agora "economia de mercado" mas não uso isso porque não se chama "economia de estado" ao comunismo), a qual também teve custos. Governou durante uma guerra civil terrível. E governa há vinte anos em paz, num país que continua paupérrimo, sem indústria, sem lugar de emergência no mercado internacional (como quase toda a África subsahariana), sem capital próprio suficiente. E com uma economia (e sociedade) também condicionada por ditames das organizações internacionais (aquilo a que o obscurantista discurso português chama "troika"). Ou seja, o "estado da arte" moçambicano tem imensas causas internas. Mas também gigantescas amarras externas. É desse contexto que emerge a tal característica do Frelimo: em condições duríssimas de vida, umas sofridas outras auto-provocadas, continua a ter um enorme apoio popular. Com mais por cento ou menos por cento, mas estruturante.

 

Há a utilização (óbvia, mas nada original no contexto mundial) do Estado para as campanhas. E há também iniciativas fraudulentas nos processos eleitorais - que sempre existem, como demonstram as denúncias de observadores in loco, mas que são, e os agentes já deviam ter percebido isso, verdadeiramente desnecessárias [não me refiro a 1999, mas o contexto desde então muito mudou]. Mas reduzir a superioridade eleitoral do Frelimo a essas características denota uma incompreensão do real político moçambicano. E, em última análise, apouca a capacidade política do eleitorado, como se este não fosse capaz de expressar em consciência.

 

Críticas e constestações são feitas, até eleitoralmente. Como nas últimas autárquicas, onde o eleitorado urbano (até em zonas tradicionalmente frelimistas), puniu aquele partido - votando no MDM, uma oposição política pacífica. Por razões de política local mas também por razões de expressar crítica à governação do país. E lembro a quantidade de amigos meus, frelimistas convictos desde sempre, que votaram na oposição em Maputo e Matola (alguns para minha verdadeira estupefacção, nunca o imaginaria ...). Mas no momento de dirimir a governação do país outras considerações surgem. Duas fundamentais: a crença (mesmo que algo iniludida) numa continuidade, desconfiando de uma oposição que, de facto, não tem um projecto político-social expresso, para além de algumas boas práticas de governação local.

 

E uma segunda, fundamental diferença em relação às últimas autárquicas. A desconfiança com o partido Renamo. Não só face às memórias da guerra finda em 1991. Mas também face ao ressurgimento das práticas guerreiras em 2013, sucedidas após longo período de letargia política. Certo que como líder da oposição Dhlakama ressurgiu, uma boa votação, apagando Simango - aliás, não sendo eu nada adepto das teorias da conspiração, penso que a reintegração de Dhlakama no processo político eleitoral veio beneficiar o Frelimo, talvez uma maestria xadrezística.

 

Dhlakama teve banhos de multidão. Mas está, mais uma vez, demonstrado que este eixo de abordagem política não crescerá mais no país. Não é insignificante. Qualquer pessoa que conheça o país percebe que a massa popular de apoiantes do Renamo são os "descamisados" - e por isso tanto sorrio quando, por vezes, vejo moçambicanos, sempre estes de origem europeia, com outro património cultural que os leva a este tipo de discurso cristalizado, invectivarem a "direita" renamista (ou mdmista) em nome da sua "esquerda". Ou seja a grande base política renamista é sociologicamente importante, constitutiva. 

 

E mostra a necessidade de incrementar a democratização, descentralizando o desenvolvimento. Entre outras coisas impedindo o florescimento de "sem-terra", esse horroroso pesadelo para quem pensa o país.

 

(texto feito às 15 horas de quinta-feira: e se os resultados mudam, invalidando numericamente este postal? Pois, então dir-me-ei "quem te manda a ti, sapateiro, tocar rabecão")

publicado às 13:13

Dedos

por jpt, em 15.10.14

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 (o dedo de um colega meu, Maputo, hoje)

 

Fim da tarde, venho ao FB ver notícias de Moçambique, dia de eleições. Vejo dezenas, largas dezenas de fotos destes dedos marcados a tinta, a fortíssima pictórica eleitoral. Dedos afirmativos, dedos cidadãos, dedos festa. Algumas fotos mostram também o "bichar" nas estações de voto.

 

Tem limitações a democracia moçambicana? Sim, as maiores das quais são a relativa plasticidade do princípio "one person, one vote" e a sobrevivência de algumas derivas guerreiras. Mas tem grande força, vontades. Mostram-no todos estes dedos erectos. Que sejam menires. E pilares.

publicado às 18:17

Eleições em Moçambique

por jpt, em 13.10.14

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 (fotografia retirada do mural do meu amigo Johane Zonjo)

 

À distância acompanho a campanha eleitoral moçambicana. Alguns amigos enviam-me alguns jornais moçambicanos (naquele abençoado suporte pdf), recebo os diários eleitorais produzidos pela equipa CIP/AWEPA (coordenada por Hanlon). E, fundamentalmente, informo-me no meu mural FB, felizmente tenho ligações a apoiantes dos três grandes partidos, plurais visões e sensações. 

 

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 (fotografia retirada do mural de Manuel Araújo, autarca MDM de Quelimane e também bloguista)

 

Desde 94 são as primeiras eleições que não presencio. Neutral, mas nunca desinteressado, enquanto leio resmungo "que faço eu aqui?", como se esta fosse a minha Abissínia. De longe vejo, até com alguma preocupação, as grandes expectativas de todos, obrigatoriamente algumas serão desiludidas e terão que ser (auto)geridas. A Frelimo convicta que ganhará, como quase sempre aconteceu. O MDM convicto em grande resultado (Manuel Araújo afirmando a expectativa em 100 deputados). A Renamo convicta que já ganhou (Dhlakama afirmou-o numa entrevista). Como será o "dia seguinte"?

 

Em termos de campanha pelo que leio percebo haver algum crescendo de abertura pluralista nos órgãos de comunicação social, e isso é salutar. Mas, nesta distância, a grande inovação que encontro é o uso das fotografias, principalmente na Renamo. Julgo que nem terá sido algo deliberado, talvez se deva ao facto de serem pessoas da comitiva do seu presidente a fotografarem. Pois surgem inúmeras fotos tiradas por trás do seu presidente enquanto discursa, enfrentando multidões de apoiantes: o impacto visual é fortíssimo, valorizando a envolvência e dando-lhe um ar espontâneo, diverso do brotado das fotografias profissionais aos comícios organizados.

 

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 (fotografia retirada do mural de Ivone Soares, dirigente da Renamo e também bloguista)

 

Enfim, que tudo corra bem, esta semana e depois. Que o susto desde meados de 2013 já chegou, "para pior já bastou assim".

 

Em mero rodapé, excêntrico ao que realmente interessa, o futuro moçambicano. Mas que me é significante, como português interessado em Moçambique. Que um diplomata português, acreditado em Maputo, surja neste domingo - a três dias das eleições - no seu mural facebook (ainda para mais com aquela metodologia propagandística de identificar dezenas de pessoas na colocação, assim aparecendo às redes de ligações destas - e foi por isso que vi a afixação) a propagandear um dos candidatos, dando azo a interpretações de apoio tácito, é completamente descabido. Seja qual for a candidatura em causa. Há coisas que nem o corporativismo de "classe profissional" pode justificar. E que nem o mais desvairado egocentrismo pode desculpar.

publicado às 00:29

Eleições moçambicanas

por jpt, em 29.09.14

 

 

 

Esta fotografia (que pilhei do mural de facebook de Carlos Nuno Castelo-Branco) alusiva à actual campanha eleitoral moçambicana dá para interpretações polissémicas. Pode servir para o sorriso até irónico, para a aspiração utópica (o irenismo). Mas com toda a certeza que permite olhar de outra forma, encarar as práticas populares de absorção dos "discursos" políticos. Deixando perceber que essas não são lineares.

 

No mesmo mural outra fotografia mostra o candidato Nyusi a ser publicamente abençoado por um pastor da IURD, este com mão sobre a sua  cabeça em pose típica. É certo que a evangelização e a coranização são os fenómenos sociais mais marcantes do país (e de tantos outros), algo esquecido pelos "iluminados" "iluministas" euro-gerados. Mas ver o candidato frelimista em tal pose, subordinando-se diante dos "milagreiros" abrasileirados, angustia. Que me desculpem os meus amigos frelimistas mas que raio é aquilo? Onde julgam que vão assim?

publicado às 09:55

 

(Sábado, 16 de Agosto de 2014. Esquina da Av. Julius Nyerere com a Av. 24 de Julho, Maputo: carro pertencendo a uma caravana de propaganda da Renamo)

 

Quem lê o ma-schamba sabe que não botei sobre política moçambicana. Algo que está explícito no que chamámos, ironica e pomposamente, "estatutos editoriais do blog". Várias razões para isso, abrangentes e individuais. Sempre entendi que ser estrangeiro em terra estrangeira inibe alguma acutilância ("ouça lá, se está mal mude-se", será sempre a resposta possível e irrebatível). Ainda por cima tendo eu uma malvada tendência para o maniqueísmo quando sobre política - algo visível nos 532 postais sobre "política portuguesa" nesta década de blog (na maioria escritos por mim), triste colecção histriónica.

 

Sendo estrangeiro e ainda por cima português. Sempre estive ciente de que botar sobre política em Moçambique nessa condição poluiria a interpretação do que eu escrevesse. Daqui resmungar-se-ia o meu "tuguismo" ["expulse-se do país, de preferência para um país onde lhe cortem a cabeça", escreveu há anos sobre mim o então secretário-geral da Associação de Escritores Moçambicanos, no portal dessa organização, diante do radical silêncio dos seus pares de letras; "actualmente todos os intelectuais e pedagogos portugueses são aldrabões e colonialistas", botava há tempos um conhecido "jornalista de investigação"; "todos os portugueses são mal-criados", sublinhava um ilustre jurista e agora "fazedor de opinião" local]. Mas também dos meus patrícios. Botasse eu sobre política daqui e estou certo que teria tido o choque de opinadores patrícios daqui oriundos, um núcleo societal que esteve bastante activo na internet, sempre constantes e lestos na crítica radical a todos os itens do processo nacional moçambicano, como se este ontologicamente ilegítimo [ainda assim, apesar dos meus cuidados, fui recebendo a imputação de "frelimista". E também a de "detentor de interesses em Moçambique" - e eu agora a fumar Pall Mall, bolas].

 

E há o estatuto pessoal. Professor numa universidade pública moçambicana, fui durante alguns anos cooperante português - e nesta última condição contratualmente proibido de exercer actividade política no país (uma expressão lata, eu sei, mas que assumi de modo abrangente, até pela mera assinatura do contrato, à qual ninguém me obrigou a não ser eu próprio). Mas há muito tempo que não sou cooperante e como tal poderia escrever sobre o que me apetecesse. Friso essa liberdade. Há anos que escrevo no "Canal de Moçambique", um jornal conotado com a Renamo ou o MDM (varia consoante o locutor). É certo que escrevo sobre temas não políticos (livros, viagens, locais de Maputo, quotidiano, etc). Mas ainda assim é muito significativo que ninguém, alguma vez, me tenha alfinetado em relação a isso. 

 

Dito isto. Não boto sobre política moçambicana. Mas vou pensando, claro. De maneira algo diferente dos meus vizinhos, que isto de ser estrangeiro poupa-me ao abrasivo, o do prós e contras. E da dos meus patrícios daqui saídos, também eles maioritariamente abrasivos, pelo menos os que foram e vão escrevendo sobre o aqui.

 

Tenho aqui uma boa mão cheia de amigos "samoristas", cultores do nacionalismo desenvolvimentista e da personalidade carismática do primeiro presidente. Tenho alguns, menos, "guebuzistas", que frisam o empreendedorismo e a descentralização patrocinados pelo actual presidente. Muitos conhecidos e alguns amigos estão na expectativa do MDM (não serão exactamente "simanguistas", não há neles uma pessoalização da adesão), crentes na democratização societal que patrocinará. Muito poucos no meu núcleo social são renamistas (alguns foram-no, mas foram saindo nas purgas anti-urbanas e anti-intelectuais naquele partido).

 

Eu cheguei ao país em 1994 (as próximas eleições serão as primeiras multipartidárias que não acompanharei). O país estava crispado, saído de uma devastadora (e como o foi ...) guerra, com a ameaça de fracturas regionais políticas. E estava paupérrimo, dos mesmo mais pobres do mundo: colónia sub-desenvolvida atravessara um regime de índole comunista e entrara naquilo que se chamava "Bretton Woods" com uma economia fragilíssima, sem capital, sem investimento estrangeiro, sem infraestruturas, sem recursos humanos para um mundo globalizado. E sem espaço para entrar no mercado mundial, que é coisa que a gente tende a esquecer. Sem uma cultura tradicional democrática e sem instituições com essa prática.

 

Assisti (ou pelo menos foi isso que os meus olhos entenderam) a um urdir das teias do país, uma pacificação interna. Dolorosa, por vezes errática. Conseguida. A uma democratização, passos a passos, ainda que com coisas que chocam a sensibilidade estrangeira (a desgraça de Montepuez em 2000 talvez a pior). A uma fabulosa inserção internacional, uma diplomacia moçambicana absolutamente brilhante nos múltiplos palcos bilaterais e multilaterais, isso também denotando a maleabilidade interna. Ao crescimento de uma burguesia nacional (a "classe média" do jargão, a "sociedade civil" de outro jargão), com os tiques da "compradora" (este termo de um jargão já mais fora-de-moda), apropriadora ("apropriação primitiva do capital", disse o teórico), mas necessária a uma "economia de mercado" (aquilo do capitalismo) nacional. À ascensão de uma componente tecnocrática do poder político, à qual eu sou muito sensível, apesar de antropólogo - não há desenvolvimento, ainda por cima partindo de tamanhas dificuldades, sem tecnocratas.

 

Nada disto foi perfeito, nada disto foi exemplar, nada disto é utópico ou exaltante, romântico. Foi, e será um processo. Com as maleitas da vida em sociedade. Pode ser sempre melhor, até muito melhor. Mas é. Um algo maiúsculo. É por isso, por ter conhecido Moçambique nesse período e tanto me ter surpreendido (e "engajado", apesar de mim-próprio) que aqui sou um "chissanista". No respeito a um estadista democratizador, um construtor desta democracia, sempre saudavelmente imperfeita.

 

Brotou-me isto nestes últimos dias. Pois na manhã do sábado passado fui beber um café ao "Nautilus". No cruzamento da Nyerere com a 24 de Julho, a 500 metros da residência do Presidente, a outros 500 metros dos serviços da Presidência. Inesperadamente ali passou uma caravana de propaganda política da Renamo, que fotografei da esplanada, a primeira que vi neste período pré-eleitoral. Isto um ano e meio depois de a Renamo, estuporadamente, ter encetado acções militares no centro do país. De ter ateado o medo da guerra. E pode agora manifestar-se mesmo no centro da capital do país. Apesar desse tudo ... É uma lição, para os críticos de todos os matizes. A paz e a democracia são necessárias. E são possíveis, apesar dessa irracionalidade política.

 

Há muita coisa a fazer no país? Há, com toda a certeza. Sou eu mais sensível à protecção ecológica e dos direitos dos agricultores (itinerantes) à terra - ameaçados pela vertigem da exploração dos recursos minerais e silvícolas, que recompõem modelos de exploração exógena. Mas mais importante é ter a consciência de que os instrumentos democráticos e democratizadores existem e a cultura de paz também. Para os manter, e fazer crescer, será preciso que os críticos larguem os respectivos maniqueísmos. E, sem dúvida, que grasse um sentimento de "patriotismo", de maior repartição societal.

 

(Pronto: agora podem protestar-me de "frelimista").

publicado às 09:26

Francisco Noa sobre Moçambique

por jpt, em 30.01.14

 

 

Uma das expressões mais pirosas que gosto de utilizar é aquela do "fulano de tal faz o favor de ser meu amigo". É isso mesmo que sinto diante de Francisco Noa, uma mão-cheia de homem. Uma entrevista sua numa revista angolana: ÁFRICA21 FEVEREIRO 2014 Nº82.pdf. Na qual aborda, en passant, o estado da literatura moçambicana actual. E, mais em detalhe e com ponderação (que vai aqui escasseando), a situação de Moçambique.

 

Quanto à revista, à qual dei uma diagonal, fico surpreendido. Então uns tipos lançam uma revista em Angola e aplicam-lhe o acordo ortográfico? Ai, "podes tirar o miúdo de Lisboa mas nunca tirarás Lisboa do miúdo ....".

 

publicado às 14:34

Eleições Autárquicas

por jpt, em 20.11.13

 

O Pedro Sá da Bandeira (PSB) acompanhou as eleições autárquicas de 2008, era então o repórter fotográfico da delegação da Lusa em Moçambique. Para comemorar as eleições de hoje, quinquénio passado (voado), elas sempre a festa da democracia (por mais que apareçamos resmungões somos, cada um com a sua hierarquia de irritações, fundamentalistas democratas), aqui partilhamos algumas das suas fotos de então, feitas nas campanhas eleitorais dos municípios de Maputo e de Matola. Com os nossos "votos" de que o dia de votação e os dias de contagem corram a contento. Que o sufrágio seja sufragado ... E que alimente a paz.

 

 

publicado às 06:20

  (pressionando a imagem ela aumentará)

 

Um dia muito preocupante aqui em Maputo, más notícias, péssimas, vindas do centro do país, a perturbar-nos desde a manhã. Que a paz, o bem comum mais precioso que existe, se sobreponha aos conflitos de ideias e de interesses. Neste alvoroço, relativo, não catastrofista, não alarmista, mas preocupado, no meio da tarde chegam-me sms, de patrícios amigos aqui vizinhos. Avisando algo agora apenas fait-divers.

 

E raramente como hoje se pode perceber o que é realmente importante, e o que é e quem é realmente tão "desimportante". Dizem-me esses sms, afinal tão pouco relevantes, "Relvas demitiu-se". Em casa aguarda-me esta imagem, da edição de hoje da Visão. Uma delícia privada, isso de tamanho eco à piada daqui que há dias aqui narrei. E exactamente no dia em que o nefasto ministro se demite do governo. No qual não deveria constar. Sorrio, claro.

 

Um sorriso pequeno. Depois regresso a mim. Ao desejo que a paz se mantenha sempre neste meu "país amado". E, também, que na minha longínqua "pátria amada" só os melhores ou, pelo menos, só os decentes governem.

 

Depois, ainda, lembro-me de que há para aí dez anos por cá conheci o Pedro Rosa Mendes, almoçou em nossa casa. Talvez alguém lhe possa dizer que hoje, apesar de ser um hoje assim difícil, alguém em Maputo lhe manda um abraço. Porque sim.

publicado às 18:39

Liberdade de culto

por jpt, em 07.10.11

Questões como a da liberdade de culto levam-nos, sempre, ao oxímoro. Atacá-la ou defendê-la em absoluto recai sempre na insustentabilidade lógica (sim, lógica) da argumentação. E é com esse enquadramento reflexivo que acho incontornável a leitura do texto que Lázaro Mabunda dedica à actividade da IURD em Moçambique, a propósito do tão falado Dia "D". Excelente.

jpt

publicado às 12:45

[Lula, então presidente do Brasil, em visita a Moçambique]

 

Sobre o anunciado projecto de cedência de 6 milhões de hectares a agricultores brasileiros para desenvolverem plantações de produtos comerciais aqui transcrevo um interessante texto de Beluce Belucci, "economista, doutor em história econômica pela USP. Trabalhou mais de 12 anos em Moçambique, onde coordenou projetos agro-industriais na região de Niassa, Cabo Delgado e Nampula, após a independência em 1975, no ministério da Agricultura e no Banco de Desenvolvimento. Foi diretor do Centro de Estudos Afro-Asiáticos da Universidade Candido Mendes, Rio de Janeiro."

 

Esta terra ainda vai cumprir seu ideal publicado em 16/08/2011

 

Por Beluce Bellucci

 

A manchete do primeiro caderno da Folha de S. Paulo de 14/08/2011 “Moçambique oferece ao Brasil área de 3 Sergipes”, para o plantio de soja, algodão e milho a agricultores brasileiros com experiência no cerrado, parece trazer uma grande novidade e oportunidade aos capitais e empreendedores brasílicos. A longa matéria no caderno de economia expõe que estas terras estão localizadas nas províncias de Nampula, Niassa, Cabo Delgado e Zambézia, situadas ao norte daquele país. No mesmo artigo, um consultor indaga, arrogante e desrespeitosamente, “Quem vai tomar conta da África? Chinês, europeu ou americano? O brasileiro que tem conhecimento do cerrado”, responde ele apressadamente. A intenção explicita de colonização nesta passagem não foi contestada pelo jornal ao longo do artigo.

 

Pela matéria, fazendeiros brasileiros afoitos descobrem que em Moçambique existe “um Mato Grosso” inteiro para ser produzido, e 40 deles (não haverá um Ali?) se “apressam” a no próximo mês visitarem o país. O ministro da agricultura moçambicano revela que as terras poderão ser cedidas por 50 anos, renováveis por mais 50, ao preço módico de R$27,00 por hectare/ano.

 

Cabe inicialmente perguntar: será esse negócio uma grande novidade? e trará tanta oportunidade quanto a noticia faz parecer? O desconhecimento dos brasileiros que procuram o empreendimento reflete o desconhecimento histórico que o Brasil tem da África e faz jus ao conhecimento dos que a divulgam. Não compete encontrar aqui as razões por que “tão boa oferta” somente agora chega ao Brasil nem tão pouco saber quem está por trás desse affaire. Interesses seguramente devem existir dos dois lados, o africano e o brasileiro.

 

Mas a quem pode NÃO interessar esse projeto?

 

A região em questão possui vegetação diversa onde vivem cerca de 12 milhões de pessoas organizadas em sociedades com histórias, línguas, culturas e formação social próprias. Estão lá os macuas, os macondes, os nyanjas, os chuabos e outros. Foi o principal palco da guerra de libertação nacional de 1964 a 1975, e nos anos 80 da guerra de desestabilização levada a cabo pela África do Sul e pela Renamo. É uma população de resistência e luta. E o que dizem do modelo desse projeto? Que impacto terá sobre essa população? O que pensam outras instituições locais? Quem efetivamente ganha e quem perde produzindo nesse modelo na região? Não falemos em aumento de PIB ou da exportação, mas em nível de vida, em ganhos palpáveis, matérias e imaterias da população.

 

A experiência que os fazendeiros brasileiros dizem ter no cerrado, e o jornal repete, é de produção técnica, não de relações sociais de produção. Ela não inclui a experiência no trato com as sociedades africanas, aliás, neste quesito perdemos para todos os outros concorrentes. O brasileiro não conhece e quase não sabe andar na África, pouco se interessou pelo continente, seguramente pelo complexo de culpa da escravidão. Foi preciso uma lei, a no. 10.639 de 9/2/2003, para introduzir essa temática nas escolas brasileiras. Só recentemente expandiu suas representações diplomáticas e vem ampliando a cooperação e presença, pese a demanda, interesse e simpatia que os africanos dirigiam ao nosso país. Mas enquanto ficamos ao longo do último século com retórica e boas intenções face aos africanos, pouco fizemos e conhecemos. Em três décadas de presença na África os chineses se tornaram os maiores parceiros do continente. Antes dos fazendeiros e homens de negócios estiveram os estudiosos, os diplomatas, os estrategistas. Desenvolveram planos de longo prazo e não chamaram as regiões de Shanxi ou de Sergipe. Conheceram a história e respeitaram a soberania dos Estados e seus povos. Muito pode-se criticar sobre a presença chinesa na África, menos que seja aventureira.

 

A “novidade”

 

Todos afirmam que a África é hoje um continente subdesenvolvido, isto é, com carências alimentares, na habitação, na saúde, na educação, na capacidade produtiva, mas por quê? Como chegou a se subdesenvolver? Deixemos de lado o tráfico de escravos que mutilou sociedades por mais de três séculos (período que a força de trabalho africana era arrastada a produzir nas fazendas brasileiras – possivelmente em terras dos antepassados dos 40 fazendeiros) e nos aproximemos do século 20. O que fizeram os europeus, franceses, ingleses, portugueses e belgas na África? O que foi e como foi o colonialismo africano senão um fenômeno do século 20? Não foram lá essas metrópoles para civilizar e levar deus aos africanos? Não foram lá levar a civilização e ensinar-lhes como e o que produzir e consumir? E muito produziram... Mas como fizeram?

 

A colonização levada a cabo pelas potências foram entregues a companhias concessionárias (majestáticas ou à charte na França), que recebiam grandes concessões de terra em troca de pagamento de taxas ao estado colonial, na obrigação de produzirem, e para tal podiam explorar e gerir as populações residentes. Umas desenvolveram a agricultura de exportação (para as metrópoles que viviam a revolução industrial), e até integraram regiões com estradas e ferrovias para escoamento. Outras dedicaram-se à exportação de trabalhadores para as minas dos países vizinhos (caso da Companhia do Niassa). Muito se produziu e se exportou. Criaram-se fortunas com o amendoim, o copra, o algodão, o sisal, o café, o tabaco, a madeira... E onde estão estas riquezas? Nos palácios, estradas e infraestruturas africanas? No sistema de educação, saúde e no nível de alimentação da população negra? O povo africano trabalhou nesse século sob a batuta colonial. Produziu muito no sistema de concessão que agora se quer renovar, e foi esse modelo o que subdesenvolveu a África, trazendo para os africanos a miséria que vivem hoje. E é esse o modelo que agora se quer repetir. Antes dele os povos estavam em melhor situação que após.

 

Não são as terras fartas que chamam a atenção dos nossos fazendeiros, mas a existência de uma mão de obra que pode trabalhar a baixíssimos salários. Isso porque ela tem acesso à terra, já que boa parte da terra ainda é comunitária, e garante a própria subsistência. Enquanto esses homens trabalham nas fazendas, suas famílias produzem nas roças tradicionais. E, tendo a subsistência garantida, são impelidos ao trabalho quase gratuito, muitas vezes à força como demonstra a história, nas áreas dos fazendeiros brancos. Ao final do processo produtivo, a exportação, o PIB, os bolsos de poucos políticos e empresários nacionais envolvidos poderão crescer, mas a população continuará vivendo basicamente das suas subsistências e cada vez mais dependente de uma sociedade que a vem dominando culturalmente, através do radio e da TV, com canais globais e religiosos universais, cada vez mais produzidos aqui mesmo na tropicália. O contexto para um novo colonialismo está preparado, e a sua repetição transformará o que foi o drama colonial numa farsa liberal. Na versão colonial do século 20 as sociedades africanas encontravam-se ainda estabelecidas e foram fortemente exploradas nessa articulação com o capitalismo colonial, que a reduziram à pobreza atual. Hoje elas encontram-se fragilizadas, desconfiadas, famintas, e reeditar tal sistema com promessas e perspectivas de que irão melhorar é uma mentira criminosa.

 

Convém observar que a mudança desse modelo de exploração para o modelo desenvolvimentista, industrializante, com início no pós Segunda Guerra facilitou as propostas nacionalistas que culminaram com as independências das colônias na década de 60. Mas este assunto merece outro artigo.

 

O risco

 

Dizem que as terras em Moçambique estão ociosas. Na verdade, estão ocupadas há séculos por populações que a cultivam com tecnologias específicas, para a sobrevivência, num sistema que exige grande reserva natural e rotação. Quando os portugueses chegaram no continente encontraram homens e mulheres saudáveis e fortes. Não eram povos subnutridos nem subdesenvolvidos, mas populações com níveis tecnológicos distintos dos colonizadores. Passados o tráfico e o colonialismo, o que restou foram populações desagregadas, famintas, subdesenvolvidas, fruto das políticas produtivistas de quem “tomou conta da região”.

 

O que nós brasileiros queremos com a África? Mandar para lá fazendeiros para remontarem um sistema já conhecido historicamente e vencido socialmente, que produz e reproduz miséria para a grande maioria e lucro para poucos? Ou temos a intenção e alguma expectativa de estabelecer uma relação de cooperação que aponte para uma sociedade onde a vida das pessoas se transformem e melhorem?

 

O embaixador moçambicano em Brasília diz que “interessa-nos ter brasileiros em Moçambique produzindo, porque temos grande deficit de alimentos”, e o projeto prevê que será preciso empregar 90% de mão de obra moçambicana. A oferta é para produzir algodão, soja e milho, entre outros, visando a exportação. Sendo o milho o único atualmente utilizado para alimento humano. A Embrapa prepara as sementes com investimentos do Estado brasileiro, e o presidente da Associação Mato-Grossense dos Produtores de Algodão diz que “Moçambique é um Mato Grosso no meio da África, com terra de graça, sem tanto impedimento ambiental e frete mais barato para a China”. O chefe da Secretaria de Relações Internacionais da Embrapa diz: “Nessa região, metade da área é povoada por pequenos agricultores, mas a outra metade é despovoada, como existia no oeste da Bahia e em Mato Grosso nos anos 80.” O projeto oferece também isenção para a importação de equipamentos.

 

O que pretende este programa é aproveitar as terras moçambicanas, “de graça”, produzir para exportação, aproveitando-se da mão de obra barata, e a ausência de regulamentação ambiental e sindical. Entretanto, sabe-se já de início, os projetos são de capital intensivo e grande tecnologia, e vão utilizar pouca mão de obra. Os produtos não serão consumidos no país e a renda interna proveniente será a modesta soma de alguns meticais por ano, que ficará com a instituições estatais. Moçambique não é a Bahia, pois a África não é o Brasil. Mas o “Havaí é aqui” e lá.

 

Como se observa, são projetos que podem ser viáveis economicamente, mas não são sustentáveis do ponto de vista ecológico e muito menos social.

 

Ao se concretizar a proposta em análise, faremos com que o aprofundamento da relação com a África, tão querida quanto necessária, se dê por um empreendimento tipo colonial comandado por fazendeiros (e jagunços) e com a benção dos estados.

 

Por desconhecimento da história, despreparo dos envolvidos, falta de objetivos estratégicos, estrutura e planejamento do empreendimento, incluído aí o nosso Estado (pese os avanços recentes), a aventura brasileira na África, nos moldes apresentado, tem muita chance de se dedicar a ir descobrir a roda no cerrado e cair no ridículo, perder dinheiro e criar novos personagens conradianos.

 

Mas, se der certo, dará razão a uma anterior parceria entre Brasil e Moçambique, a de Chico e Rui Guerra, por demais conhecida: “Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal, ainda vai tornar-se um império colonial (...), um imenso Portugal.”

 

Entretanto, um outro modelo de cooperação e investimento entre Brasil e o continente africano é possível e urgente de ser pensado. Mas temos que nos preparar internamente para isso, num escopo do que queremos para o nosso povo e das relações entre países.

 

É momento de governo, Estado, universidades, empresários, instituições públicas e privadas, como o Instituto Lula, opinarem sobre um novo modelo de parceria entre Brasil e a África, que envolvesse diferentes agentes brasileiros e africanos, inclusive os fazendeiros do cerrado, para encontrar outro ideal a ser cumprido.

 

jpt

publicado às 12:17

Privatização da segurança

por jpt, em 09.04.11

Conflito laboral na empresa G4S, em Maputo. Os trabalhadores manifestam-se (com violência?, assim me parece pois as instalações da empresa estão devastadas) e negoceiam com a administração. Esta protela hipotéticas resoluções. Nada de novo, o registo habitual por esse mundo. Depois a polícia bate nos trabalhadores. Está a ecoar a sua cultura, da punição física. Muitos que criticam os incidentes mostrados neste filme defendem no privado o castigo corporal nas esquadras [Um dia, há anos, eu vi uma mão cheia de intelectuais e artistas moçambicanos louvando o abate de quatro assaltantes a uma casa de câmbios na Julius Nyerere. Estávamos sobre os cadáveres dos bandidos, e eles eufóricos. O gajo da "direita suave" é, claro, o jpt ...].

Estes acontecimentos da G4S remetem-me para bem mais do que a denúncia da violência policial. Insisto, esta faz parte da cultura profissional e é acarinhada pela população - que quantas vezes a exige ou solicita. Porventura tratar-se-á de apelar a uma mudança cultural na corporação, autonomizando-o radicalmente das concepções populares (e burguesas) do exercício da justiça e punição.

Mas há algo muito mais importante do que isso: os batidos são empregados de uma empresa de segurança. Esse ramo de actividade que prolifera em todo o mundo, e com vigor em Moçambique. Trata-se da privatização da segurança pública (e, até certo ponto, do abdicar do Estado, tendencial que seja, do seu monopólio de violência legítima). Nesse contexto, sociologicamente tão relevante, colocar a polícia contra os seus "concorrentes" - quantas vezes antigos militares e antigos políticas - é, para além de uma afirmação de um Estado-patrão (nunca a polícia bate nas administrações ou nos patrões), um perigoso exercício. A reflectir no assunto, parece--me.

jpt

publicado às 07:13

WikiLeaks: o sol e a peneira?

por jpt, em 10.12.10

Abaixo estão transcritas as mensagens da embaixada americana em Maputo agora tornadas públicas pela organização WikiLeaks. Não vale a pena tapar o sol com a peneira, a publicação do conteúdo destas mensagens, o facto de serem emitidas por quem são e o seu imediato (e futuro?) tratamento jornalístico produzem profunda mácula no poder moçambicano. E não vale a pena tentar tapar o sol com a peneira, a Wikileaks ganhou tamanha repercussão internacional que não referir essa publicação é absurdo. Também por isso deixei mais abaixo a ligação ao sítio que as alberga.

Mas neste âmbito entendo que há alguns pontos a realçar, até porque facilmente são esquecidos. O primeiro é o de que a notícia não são hipotéticos factos ilícitos produzidos por sectores da sociedade moçambicana. A notícia são as mensagens diplomáticas americanas sobre a situação moçambicana. E esta distinção não é um sofisma.

É certo que em Moçambique a vox populi há muito que refere a tendencial criminalização da economia, que resmunga diante da corrupção estatal, no que é acompanhada por instâncias da sociedade civil (como, por exemplo, o Centro de Integridade Pública) e, até, por alguns membros do poder, como por exemplo máximo o dirigente histórico da Frelimo, Jorge Rebelo. E aponta hipotéticos nomes e factos. As mensagens americanas agora publicadas ecoam parte disso. Mas elas não são "a verdade", "os factos", são mensagens transmitidas. São isso, apenas isso, ainda que devido à sua autoria signifiquem muito, influenciem muito. E são elas, apenas elas, a notícia.

Convém recordar esta distinção, até porque isso é esquecido: pelos jornais, pelos leitores, pelos bloguistas. Que abandonam a distância face aos discursos lidos, assumindo-os como factos. O que os diplomatas americanos dizem tornou-se "a verdade". Le Carré rejubila com a matéria-prima que brota. Greene sorri amarga e invejosamente, no purgatório, onde creio que nos observará.

Também por isso convém olhar para as caixas de ressonância e para os paladinos desta organização WikiLeaks. São em grande medida um lumpen-intelectualismo (mesmo se titulado, dada a proletarização da burguesia europeia) cujo húmus é um anti-americanismo ideológico, feroz e activo. É esse contexto de pensamento que surge agora a assumir as interpretações da diplomacia americana como se fossem letra de lei. Uma total contradição de termos. Estamos numa baixa rotação do pensamento, no ground zero da locução. Balbucia-se muita asneira. Impratica-se a reflexão. Entenda-se bem, no fundo de tudo isto, na sua base discursiva, habita uma refutação de tudo o que se assuma como instituição, um rasto típico do pensamento informulado.

A propósito destas mensagens relativas a Moçambique - e muito para além do que abaixo referi, de que nelas não encontro nenhuma novidade face ao que tenho ouvido publicamente sobre Moçambique nos últimos anos - há algo de fundamental a frisar. Não encontro nas mensagens tornadas públicas - nem tampouco numa outra respeitante a Portugal, e algumas outras sobre Zimbabwe ou Quenia -, nada que ofenda ou fira os princípios democráticos. Ou seja, não vejo em que é que este correio diplomático americano ofende as relações internacionais, o direito internacional, condição única para legitimarmos o seu roubo e publicação. Nem mesmo as vejo ofendendo uma relativamente abrangente ética interaccional. Neste contexto, e como abaixo disse, considero este roubo de comunicações internacionais um acto de pirataria. Indigno e anti-democrático.

Neste particular caso as mensagens ecoam factos prováveis sobre a realidade moçambicana? Porventura. É esse porventura, essa percepção do processo político local que me fez, em tempos, apesar da minha concepção de bloguista enquanto hóspede estrangeiro, referir irado um embaixador incompetente, incapaz pessoal e politicamente de se vincular a princípios democráticos, como seria de exigir a um representante português actual. E pude indignar-me com a actuação da presidência da Assembleia da República portuguesa, o qual indignificou a função para a qual foi, em má hora, eleito. Fosse por boçal incompetência fosse por interesseira articulação económica.

Não vale a pena taparmos o sol com a peneira, já o disse.  Ou seja, as mensagens foram publicadas, quem quiser vai ler, estão aí as ligações. Outra coisa, radicalmente diferente, é ser reprodutor dessa pirataria. Piratear os textos estatais americanos é, já o disse, atentar contra a democracia. Reproduzi-los é disso ser agente, mesmo que involuntário. Da negação democrática, conjuntamente com aqueles que em nome de uma pretensa transparência democrática intentam a opacidade do totalitarismo. Assim incompreendendo a democracia. Institucional. E, como é óbvio, diplomática.

Coisa que em muito ultrapassa as conjunturas do poder político moçambicano.

O ABM pensa de forma diferente e reproduziu as mensagens, face ao seu putativo interesse para os amantes e amadores de Moçambique. É o seu entendimento. Tal como ele diz no texto anterior "uns americanos dizem uma coisa, outros dizem outra". Exactamente como no ma-schamba.

jpt

publicado às 00:02

Dia de eleições moçambicanas

por jpt, em 28.10.09

guebuza-pai-de-mocambique

[Maputo, 2009 - inscrição aqui muito original]

beira-adeus-frelimo

[Beira, 2007 - inscrição muito cinéfila]

Dia de eleições. Presidenciais, legislativas, provinciais. Não me parece que venha a ocorrer alguma surpresa.Nota: Na internet a fazer uma cobertura constante está o jornal "A Verdade" no facebook. E vários blogs (visíveis, para quem os não tem nos favoritos, aqui).jpt

publicado às 12:58


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