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Visão História

por jpt, em 07.11.15

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Precioso exemplar esta última publicação da revista "Visão História", dedicada à história do império português em África ("origens e construção"). Competência em "aplicação" de inteligência, um tom nem celebratório nem auto-punitivo, um registo com a densidade necessária e sem ponta da rigidez académica, uma capacidade de abrangência notável, isto de em 98 páginas percorrer das influências no Kongo e a colonização de Cabo Verde desde fins de XV até aos meados de XX com a figura de Norton de Matos incluindo uma até vasta e deliciosa iconografia (gravuras e fotografias). Um punhado de artigos interessantíssimos, realço os do grande historiador Valentim Alexandre, sobre a construção do novo império após a independência do Brasil, do antropólogo Frederico Delgado Rosa sobre as "expedições científicas" de XIX, de Miguel Bandeira Jerónimo e José Pedro Monteiro sobre a história de apropriação do trabalho africano, da escravatura ao trabalho forçado, e mais sobre Moçambique o texto de Luís Almeida Martins (que assina vários artigos) sobre Gungunhanha e um outro sobre Marracuene, entre vários. Revista 5 estrelas!!!

 

E se se pensar que o seu custo equivale a 8 cafés (ou a 20-23 cigarros, consoante a marca), então torna-se obrigatório ir ao quiosque comprá-la.

 

 

publicado às 07:48

A hipocrisia

por jpt, em 21.10.15

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 (Montepuez 1994) 

 

Em 1994-5 vivi 5 meses numa aldeia a 40 kms de Montepuez, a velha Namwenda, renomeada N'ropa após a independência, o meu primeiro trabalho em Moçambique, chegado da África do Sul. Foi uma experiência abissal para este burguesote, mesmo que já viajado. Não tanto as histórias camponesas ouvidas, que faziam parte do trabalho, sobre o ainda quase recente tempo colonial, o trabalho forçado, o imposto, a cultura forçada, a repressão, a chambucada, a prisão e a morte, narradas até já entre-sorrisos, que foram e ainda são um escarro pejado de muco na merda do lusotropicalismo que os socialistas soaristas chamaram lusofonia e que tantos patrícios ainda agitam (há hoje mais um artigo no Público sobre isso, mesmo que nesse requebro da aparência crítica do turismo universitário). E que também sempre me originam um encolher de ombros, compreensivo, nos arreigados negacionismos dos velhos colonos, saudosistas esmagados pelo drama histórico de que quase sempre foram meros peões. Nem tanto também as histórias sobre a guerra da Renamo, então ainda tão recente, aquilo dos raptados, refugiados (e tantos), de toda a desgraça acontecida. E não tanto por causa desse historial porque já lera, e bastante, sobre aquilo tudo, ainda que assim narrado de viva-voz, e só porque eu perguntava, tivesse tão mais efeito. Abissal porque rude, rudíssimo, não só no meu corpo, lesado em 28 quilos sem qualquer doença, abissal porque a partilha da morte, da doença, da pobreza radical, uma coisa inimaginável. Abissal porque nisso tudo também a partilha de tantas mais coisas, aquilo do sentir, da infinita capacidade de sermos felizes ainda assim, daquele modo.

 

Não fiquei "macua", nunca disse "a minha aldeia", não fiz "ritos de iniciação" nem me filiei como curandeiro ou chefe de tradição, não procriei por lá, não aderi às causas então ali vigentes, não me me transformei "num deles" (nem digo "eles", já agora), nunca entrei nessa pantomina folclórica tão usual entre antropólogos (e também nos missionários do desenvolvimento). Pura e simplesmente, nunca mais fui o mesmo. E sei que o meu melhor, por parco que seja, aconteceu ali entre Balama e Montepuez, o resto foi só o futuro, todo degenerativo à excepção da paternidade. Só voltei uma vez, uma década depois, como contei aqui, para perceber que não poderia voltar a voltar, não aguentaria, o tempo passara. Em suma, não fiquei "de lá". Mas, e para sempre, fiquei lá, algo de mim por lá ficou. Por  isso já pedi a amigos próximos, se eu rebentar de repente não quero isso do velório nem funeral. Dois deles que levem os restos à cremação, e que se faça um pequeno bar aberto. Depois, se ainda for necessário, apoiem a minha filha e, se houver dinheiro para isso, mandem os restos para alguém de Maputo ir ao charco de N'ropa largá-los, sem mais nada do que isso.

 

Nos finais de 2000 houve manifestação em Montepuez, congregando população do distrito. A polícia prendeu participantes, encerrando-os na cadeia da pequena cidade - edifício que conheço, pois tinha-o visitado. Nessa noite morreram 120 pessoas, asfixiadas numa cela onde tinham sido inenarravelmente confinadas. Eu sei que não foram ordens presidenciais nem do governador da província, foi um monumental sinal da insensibilidade da administração civil e policial local e também um sintoma da crispação dos tempos (que por vezes regressa). Foi um dia horroroso, que senti como amputação, desesperante. Não chorei a "minha gente" (que não o era) nem "aquela gente" (que não o era). Chorei-me, chorei-os.

 

Nesses mesmos dias em Maputo reunia-se a Internacional Socialista, então presidida por António Guterres. Sobre o assunto nem uma palavra proferiram. Joaquim Chissano foi então eleito vice-presidente da IS, coisa que a gente sabe protocolar (havia para aí 70 vice-presidentes) mas que teve efeito propagandístico interno. Estou à vontade nestas coisas: acima disse que sei que Chissano não ordenou aquilo (nem nunca o faria); e se eu fosse moçambicano seria um frelimista crítico e, mais ainda, como aqui escrevi, um chissanista. Mas naquela altura o silêncio de Guterres, ainda para mais nosso primeiro-ministro, e de todos os outros, e o sufragar do responsável político daquela catástrofe avassalou-me. Nem na altura nem depois, no circo constante de visitas governamentais e privadas (negócios) dos inúmeros políticos socialistas que cruzavam Maputo, alguém referiu o assunto. Já agora nem António Costa, também ministro, por lá em visitas ministeriais para afinal passar férias no Bazaruto, em agressão ao papel institucional que lhe cabia. Uma coisa execrável.

 

Quinze anos depois são os mesmos políticos que andam por aqui. E vejo os opinadores de esquerda, e até políticos (agora a Mariana Mortágua), muito ofendidos porque o actual governo não actua, qual Norton de Matos, com os prisioneiros em Luanda, não afronta a cleptocracia angolana, se subordina a vis interesses diplomáticos e económicos. Depois, esgotado o quinhão de solidariedade com os crioulos luso-angolanos presos de consciência (e que não se duvide: liberdade para eles, já!), toca de escrever e batalhar para meter estes socialistas (os velhos silenciosos sobre Montepuez) no poder, os gajos dos negócios austrais. Enquanto se lamenta que Guterres, esse bom estadista, não se tenha candidatado a Belém. Porque isso dos camponeses, ainda por cima mesmo pretos, que se fodam.

 

E nós também, com este lixo de gente. De "esquerda", dizem-se. Chama-se a isto hipocrisia. Imunda.

 

 

publicado às 17:05

Imaginário colonial

por jpt, em 09.08.15

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Andando ali pela nova Lisboa, a da Parque-Expo, deparo-me com este naco de calçada portuguesa, inclusa numa pequena instalação perene da artista Ângela Ferreira. Sorrio ao reconhecimento. Não da palavra mas sim do imaginário. Alguns o dirão pós-colonial mas nem tanto eu. Sê-lo-ia, concedo, um jogo de cores a dizer o mais cosmopolita transversal Asante ou o mais falado Kotchapela*. Não lhe vejo, a este Kanimambo ali colocado, mal algum, apenas ternura laurentina ali deixada. Apenas sorrio, já disse, lembrando os discursos que empacotam as abordagens.

 

* Concedo: a grafia deste "obrigado", a sua pronúncia e até o exacto termo muito variam ao longo do eixo macuafono, tornando mais difícil a apropriação simpática pelos não falantes. Ainda assim  ....

publicado às 16:18

A propósito da Gulbenkian

por jpt, em 18.05.15

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Leio a correr umas coisas no jornal Público sobre alguns acontecimentos na Gulbenkian, mais sobre as malevolências coloniais da mentalidade dominante na Gulbenkian e noutras instâncias culturais privadas portuguesas e mais sobre a censura ao livro do Kannemeyer e mais sobre não sei bem o quê que afastou quem lá deve estar ou o que lá deve estar ou qualquer outra coisa que não percebo lá bem o que é ... só que alguém anda chateado com alguém e que há nisso sempre grupos de apoiantes.

 

E lembro-me de há cerca de uma década quando andei a apagar fogos lá em Maputo, a convencer os justificadamente irados amigos, tratados como se lixo fossem, a não romperem com aquilo que agora guincha em Lisboa ser muito  moderno e progressista. E também me lembro de nojo que me transmitiram quando um muito importante pacóvio português por lá passou a inaugurar uma grande exposição, a vomitar desprezo em formato "vocês precisam de um branco para montar as coisas". E lembro-me bem de como tentei explicar o que se passava: "tens que compreender o que é um paneleiro de lisboa", os ademanes e nojices que expele o referido "género". Vá lá, compreenderam e lá - por interesse mútuo - se fizeram as coisas "lusófonas" que os "modernos" e "progressistas" de Lisboa queriam fazer.

 

São estes "bem-pensantes" que agora dançam can-cans, canibalizando os Kannemeyers para usarem nos seus interesses privados, e gritando "colonos" aos outros. A gente envelhece e ri-se. As décadas passam e a m... lisboeta é a mesma.

publicado às 02:19

E ... gastronomia lusófona

por jpt, em 30.03.15

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Parlamento português chumba apelo para libertação de jornalista angolano Rafael Marques: "PSD, CDS, PS, PCP e "Os Verdes" rejeitaram hoje, no parlamento, um voto do Bloco de Esquerda a solicitar às autoridades judiciais angolanas a libertação e anulação do julgamento do jornalista Rafael Marques." - houve cinco deputados socialistas que se demarcaram da (im)posição oficial da sua bancada e votaram favoravelmente o apelo à libertação. Apesar de socialistas merecem (hoje) ser saudados e nomeados: Isabel Santos, Eduardo Cabrita, Bravo Nico, Carlos Enes e António Cardoso.

A tralha restante são as pessoas que nós temos, elegemos e merecemos. Melhor dizendo, que somos.

publicado às 18:28

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Abaixo referi a proposta da presidente da assembleia da república portuguesa para a criação de um programa "Pessoa" que enquadre o desenvolvimento de um espaço comum para o ensino superior (e a investigação?) dos países CPLP. Referindo também a confluência disso com o programa apresentado pela nova direcção do Partido Socialista. Referi também a existência de um protocolo multilateral sobre o assunto datado de 2004, como forma de desconfiar da vacuidade das actuais declarações das lideranças políticas nacionais sobre esta matéria. E lembrando que já há uma década o anúncio do protocolo nos causava (aos envolvidos na matéria) tristes sorrisos, sabedores do que "a casa gasta". Em 2004 eu trabalhava há já dez anos ligado à cooperação nessa área, conhecia as trapalhadas provocadas pelas características sociológicas da administação portuguesa ligadas a esta área (em particular aqueles sectores hoje congregados no "Camões"). E a perfídia eunuca das instâncias universitárias, mergulhadas em rivalidades de pequena monta - poderão dizer que é mera má-língua, mas recordo que acompanhei uma reunião da Associação das Universidades de Língua Portuguesa (AULP) em 1999 em Maputo. Uma cena abjecta por parte das "autoridades académicas" portuguesas. Ao que me disseram, e me continuaram a dizer, uma coisa habitual. Enfim, o que obsta não é a falta de instrumentos políticos e financeiros, é mesma a pequena gente que partidos e sociedades semi-secretas alcandoram aos sectores intermédios dos poderes públicos (presidente do conselho dos institutos politécnicos, por exemplo, lembrando a abjecta personagem, vero traidor, em 1999) ou estacionam nos pequenos postos da administração (director de serviço, chefe de divisão, etc.).

 

Enfim, para além das memórias, convirá ir ao real actual, para ver o "estado da arte". Falando-se em 2015 deste espaço comum universitário lembrei-me do acontecido em Fevereiro de ...2015. Aconteceu em Lisboa o XII Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais. Propus as minhas comunicações, uma para um "grupo de trabalho" proposto por dois antigos alunos nossos, no Departamento de Antropologia da UEM. Aceitaram-me e fiquei todo contente, que melhor do que ir falar onde estão os nossos mais-novos a organizar? A Vânia, já colega professora na UEM, está a acabar o doutoramento em Lisboa e o Hélder está a fazer, com grande brilhantismo segundo me dizem, o mestrado no Brasil, auspicioso começo da sua carreira.

 

Estava eu ansioso de saber novas dele, das suas impressões e projectos. Chegado ao recinto do congresso logo perguntei por ele. "Não veio!". "Porquê?!!", lamentei, logo antevendo a inexistência de financiamento para a viagem. "Não lhe deram visto para Portugal". Fiquei estupefacto, "o quê?!!!". "Sim, no consulado português - não recordo qual a cidade brasileira - disseram-lhe que sendo moçambicano devia ir a Moçambique para pedir o visto para Portugal".

 

Assim, sem mais.

 

E estes políticos, e candidatos a políticos, e reformados políticos (como Esteves) continuam a perorar. E a gente a ouvir.

publicado às 09:47

"Lusofonia" e "cooperação"

por jpt, em 21.12.14

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Na decoração de um modesto restaurante italiano em Bruxelas encontro um painel composto por dizeres sábios em múltiplas línguas e variados alfabetos. E afronto a minha falta de cultura humanística. Pois passei anos neste ma-schamba resmungando contra a tonta ideologia da "lusofonia" e a tosca prática da cooperação (ajuda pública ao desenvolvimento) portuguesa.

 

Quando, afinal, bastaria ter afixado este dizer de João de Barros, que condensa (denunciando o seu tempo e anunciando o futuro tempo que é nosso). Ensinassem-no às gentes do Estado e que ao Estado ascende ...

publicado às 17:10

Fotografia colonial portuguesa

por jpt, em 10.12.14

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O tipo de livro que desperta imediato interesse, vera água na boca, este  "O Império da Visão: Fotografia no contexto colonial português", organizado por Filipa Lowndes Vicente (de quem li há algum tempo um livro delicioso [e sábio], o "Outros Orientalismos", exemplo de reflexão imaginativa e ágil). Este de agora é um volume com a participação de vários autores.

 

Será apresentado amanhã, quinta-feira, dia 11, às 18h30m, no agora célebre Instituto de Ciências Sociais (ali entre a Av. das Forças Armadas e a Biblioteca Nacional) por Isabel Castro Henriques, que é em Portugal uma verdadeira referência na história de África.

 

Não acredito (crise e, mais do que tudo, penacho académico - o também dito blaseísmo, que por cá tanto abunda) que sirvam chamuças no fim. Mas ainda assim justifica-se a ida, em busca do desconto do dia no preço do apetecível livro.

 

publicado às 23:21

A esquerda que ri

por jpt, em 12.07.14

 

 

O Argentina-Alemanha vejo-o num bar, vindo de Mavalane onde me abandonara da família, ida "a banhos". Mesa alargada, gente conhecida, alguns amigos. O jogo cinzento, táctico diz-se, só lá para o fim nos animamos, até pela chegada de um argentino (celebrando pagando fartas rodadas). E por isso conversa alguma. Um bom amigo, profissional das empresas, sabedor dos bancos e das economias, vai-me abordando o "BES". E fala do DDT. Espanto-me, desconhecedor. "DDT"! diz, o petit-nom de Ricardo Salgado, o "Dono Disto Tudo" durante os largos últimos anos portugueses. Sorrio, sabida a condição desconhecida a denominação. Entretanto, resmungo, lá na "gasta pátria" desunham-se em partidites, "a esquerda/direita", como se assim não fosse, dele não fossem acólitos. "Pois", resmunga-me o amigo, nós na azia dos emigrados.

 

Apanho no Corta-Fitas eco de uma entrevista de Joana Amaral Dias, a antiga musa do neo-comunismo cool português: o "posicionamento esquerda-direita está ligado a uma estruturação psicológica que se dá por volta dos 18 meses". Assim "as pessoas de esquerda e de direita tem personalidade, cognição e ambições diferentes" e "aquilo que nós sabemos de uma maneira geral, é que a grande diferença entre os eleitores de esquerda e de direita é que os primeiros têm mais a capacidade de transformar aquilo que é inerente à condição humana, o ódio, o medo e a angústia, em laços com os outros – o tal poder para mudar". O grau de indigência é tamanho que nem vale a pena comentar. Mas lembrar quem a ouviu, ombreou, seguiu. A esquerda que ri, no vácuo recanto.

 

O Buala é um sítio muito interessante, sempre recomendável. Para quem não o conheça trata-se de um "portal multidisciplinar de reflexão, crítica e documentação das culturas africanas contemporâneas em língua portuguesa", indispensável para um olhar mais informado. Espanto-me diante de um texto acabado de colocar: "A subida eleitoral da extrema-direita na Europa", um texto assinado por Plataforma Gueto (e a nota de apresentação deste autor [colectivo?] é elucidativa). Poder-me-ia perguntar sobre a pertinência da colocação no Buala de um texto destes, cuja tese é uma imputação, a da assumpção das teses da extrema-direita (europeia) pelas forças partidárias actualmente no poder português. Mas isso são os critérios editoriais do próprio Buala, não me compete a mim delimitá-los, quanto muito notá-los. E, sobre este caso, lamentar a sua colonização pela agenda de luta partidária portuguesa, ainda para mais numa deriva deste tipo. Mas mais do que isso convirá olhar para este "texto" panfletário de acção política, com os ademanes académicos - as bibliografias, as citações de nomes célebres (Mbembe), cruciais na academia portuguesa (Valentim Alexandre, José Manuel Sobral) ou com situacional capital estratégico (Luís Bernardo Honwana, nome amigo e respeitável ali a dar muito jeito). Convém olhar pois o texto cruza a ideia (nela assenta?) do lusotropicalismo [e sua sequela lusófona] como molde intelectual da direita portuguesa (a tal difusa extrema-direita actual que quer combater). Nele, apesar das citações e das bibliografias, nada ocorre sobre a transversalidade dessas perspectivas. Trata-se, pura e simplesmente, de imaginar o "inimigo", e identificá-lo (delimitá-lo). O tempero "academicista" sobre um pensamento nulo. Uma bosta abaixo de cão. A conspurcar o "Buala, portal multidisciplinar de reflexão, crítica e documentação das culturas africanas contemporâneas em língua portuguesa". Ou não.

publicado às 09:20

 (Escola Portuguesa de Moçambique, recanto das placas celebratórias de visitas oficiais do governo português. Foto de 2009)

 

Sobre a "cooperação" como área de política externa, já aqui escrevi. Uma área na qual trabalhei alguns anos. Esta semana houve em Lisboa o seminário "os clusters da cooperação portuguesa". Gostava de ter assistido. Até porque um desses "clusters" (e é sintomático que as instituições estatais não consigam falar a própria língua ...) é na Ilha de Moçambique. Uma opção ocorrida em meados da década passada. E sobre a qual na época pude, informalmente, opinar. Dizendo apenas o que era óbvio, mas que não aparecia assim aos decisores. Estas coisas já aconteceram há muito tempo, já são passado, e um tipo aos (agora) cinquenta anos pode falar disso de modo desprendido (até porque com esta idade já não se vai "a lado nenhum", não se pode ser interpretado como "estratega"). E também porque a maioria dos funcionários já não estão nos lugares, mudaram ou reformaram-se. Por isso teclo as minhas memórias.

 

A opção por sediar na Ilha de Moçambique um núcleo importante da cooperação portuguesa surgia-me como um erro político. Tanto para o aqui, pela leitura política que isso provocava e pelo irreprodutivo que o projecto seria; como para o lá, alimentando a manutenção do húmus colonial [o que é diverso de colonialista] do pensar português sobre África - sobre este, para quem tenha interesse tenho este texto "Olhar em África".

 

Antevia também um falhanço prático, face às dificuldades locais (que abordei num texto longo mas não académico) e à incapacidade humana e logística das instituições estatais civis portuguesas. Antevisão/certeza que vim a explicitar anos mais tarde no postal mais pérfido de dez anos de ma-schamba: este, anunciando a conclusão óbvia de tal projecto.

 

Ainda assim, antes do arranque do projecto, vim a ser sondado - apenas sondado - para ser o seu "coordenador". Os tempos corriam-me difíceis e, engolindo a (falida) arrogância, não me neguei. Anos antes, com algumas poupanças de lado, permitira-me uma maior dignidade. No início de 2000, quinze dias depois de ter sido dispensado de adido cultural aqui, fui convidado para ser "coordenador-adjunto" da cooperação portuguesa em Timor. Era uma saída em grande! Mas eu passara os últimos anos a sofrer a clique "gâmica", um universo execrável, cultural e eticamente. E respondi, cheio de "panache", "não posso! Por causa dos meus avós ... Se volto a trabalhar para vocês (socialistas, entenda-se) eles levantam-se das tumbas e vêm atrás de mim". E vim-me embora da esplanada do Polana. Não foi, claro, uma boa decisão estratégica. Mas ainda agora, quinze anos depois, sorrio ao escrever isto. Ainda bem que foi assim.

 

Mas os anos tinham passado, eu ficara aflito (aqueles dias em que me apanham a fumar Pall Mall/Palmar), não pude dizer que não. Lá disse as minhas condições, sabendo que eram quase inaceitáveis - pois eram as condições de um tipo que conhece o terreno. E nunca acreditei que aquilo fosse avante. Pois um dia, quando simples professor cooperante, escrevera uma longa jeremíada sobre a cooperação, e em particular sobre a tralha humana que habita(va) nas instituições a que ela se dedica (os "funcionários públicos" do "estado social", sempre reclamados como vítimas mas núcleo sociológico onde reside o pior do "português suave"). E quando me acabara o contrato escrevera ao insigne presidente da cooperação dizendo-lhe o que pensava dos tristes serviços que ele presidia. [as últimas páginas deste texto]. E realmente nunca mais ouvi falar do assunto.

 

Lembro-me de tudo isto ao ler do tal seminário, apresentando resultados da "avaliação" (positiva, decerto) destes "clusters". E lembro-me também da sucessão de "primeiras-pedras" na construção da Escola Portuguesa de Moçambique, que acompanhei por deveres de ofício. E da foto com que ilustro este texto, o recanto das (imensas) placas assinalando a visita de uma qualquer "sua excelência" governativa à escola. Explicitando, de modo abrasivo, e ainda por cima transmitindo às novas gerações, este culto tão português, o das "primeiras-pedras" e "placas comemorativas". Legado, porventura, do paganismo celtibero.

 

Quanto ao dito "cluster"? Uma ou outra primeira-pedra, algumas placas. Decerto que algumas benesses caritativas, sempre bem-vindas. O tempo vais passando. Nós reformamo-nos, morremos. A cooperação deixará de o ser. Para quê falar disso?

publicado às 10:40

 

 

Raramente ouço rádio, principalmente nos taxis. Quando vim para Moçambique atentei, por razões profissionais, nas então recentes RTP-África e RDP-África. Depois deixei. Mas ficou-me a memória dos projectos que sustentavam estas iniciativas mediáticas, inscritas na política de extroversão portuguesa. Afirmava-se, e até se procurou, a pertinência de estratégias constitutivas de perfis com conteúdos adequados ao público africano de língua oficial portuguesa e, marginalmente, a pequenos núcleos de falantes ou estudantes de português em alguns países africanos. Quanto aos imigrantes portugueses em África não eram considerados o alvo [diz-se "target" no jargão], e teriam outros meios de aceder à informação sobre a longínqua pátria, entre os quais, evidentemente, as RDP-Internacional e RTP-Internacional, pensadas e executadas a pensar exactamente nessa gigantesca mole de emigrantes portugueses.

 

Os anos passaram e não desfiz a ideia que tive no início. Estações com uma conceptualização preguiçosa e polvilhadas de profissionais emprateleirados. Conteúdos desajustados, polvilhados de informação muito institucional enviada das capitais africanas, e "embrulhada" com afrodescendentes simpáticos e um ou outro português oriundo das velhas colónias, estes marcando (reclamando) identidades "africanas" através de obtusos sotaques e apreço pelas mais superficiais características da sempre recordada "África". 

 

Mas nunca pensei que este desajuste chegasse tão longe. Hoje, no taxi, vamos ouvindo um qualquer cançonetista da "lusofonia". E depois começa o .... tempo de antena das eleições europeias em Portugal. E, trânsito complicado, ali ficámos a ouvir longos minutos dos partidos portugueses (azar meu, começou o BE, falando a inefável Marisa Matias, dizem que agradável à vista mas nem acho tanto assim). 

 

Mas viesse quem viesse. Tem alguma lógica, conceptual, estratégica, ou seja lá qual for, construir uma RDP-África, destinada aos públicos africanos que falam português, e massacrá-los com o "tempo de antena" eleitoral oficial? Não tem. Nenhuma. Apenas sintomático de uma gigantesca preguiça intelectual, de um "coçar a micose" político, de uma trapalhada intelectual até pungente. A pobre administração pública, a desgovernação política. 

 

Uma vergonha seria. Se a gente não estivesse habituada. 

publicado às 16:34

 

[Fotografia de Sérgio Costa]

 

Anteontem Paulina Chiziane e Ungulani Ba Ka Khosa foram condecorados por Portugal, ambos recebendo o grau de Grande Oficial da Ordem Infante D. Henrique. Aconteceu numa gala televisiva, produzida para o efeito e transmitida por RTP e RDP (secções África), algo que me espantou, habituado a um diferente cerimonial estatal. Mas funcionou bem. Khosa falou e disse o fundamental, que estas condecorações reclamam a "cidadania diplomática" para a cultura, nisso saudando o actual embaixador português em Maputo (que é um homem a saudar, pois empenhado e clarividente) por ter a perspicácia de assim o entender e de o praticar.

 

A diplomacia cultural portuguesa (que integra a acção cultural externa mas nela não se esgota) tem sido, pelo menos nos últimos vinte anos, muito frágil e desconexa. Não por questões políticas ou (escassez) de recursos económicos mas devido a determinantes estruturais: as características culturais e as dinâmicas patrimonialistas da administração pública portuguesa. Factores que mais fazem louvar a inteligência em induzir e a capacidade de levar a cabo um acto destes, inusitado. O qual sublinha o óbvio mas tantas vezes esquecido: a diplomacia (e a política) é feita por pessoas, não por "estruturas" mais ou menos esconsas. Haja gente (assim)!

 

Na cerimónia acontecida pode-se retirar ainda uma actualização do modo como a administração e alguma intelectualidade portuguesas entendem o relacionamento com Moçambique e, por extensão, com os restantes países de língua oficial portuguesa. Khosa e Chiziane foram condecorados tendo em conta os seus méritos literários mas os fundamentos expressos foram também outros. Por um lado, como reconhecimento da sua importância sociológica, pois reconstrutores do conteúdo cultural do país. Por um outro lado, e com particular relevo, pela sua promoção do enriquecimento da língua portuguesa, em léxico, em sintaxe e, como Khosa sublinhou, na semântica, devido ao convívio com as suas línguas primeiras. 

 

Todos os locutores portugueses se referiram a esse assunto, à importância do trabalhos destes escritores no actual cerzir do português. O embaixador em Maputo, José Augusto Duarte, a apresentadora da gala televisiva Sónia Araújo, bem como (através de mensagens gravadas) o presidente Cavaco Silva e um conjunto de individualidades (Morais Sarmento, Rebelo de Sousa, Canavilhas, Moura Duarte e Rogeiro, sendo que este falou muito bem). O notável é que, num momento ancorado no reconhecimento da importância do trabalho sobre a língua comum, nenhum dos portugueses se referiu à "lusofonia".

 

Finalmente! Poder-se-á mesmo dizer que anteontem se assistiu ao (festivo) funeral dessa noção - cheia de subtexto colonial, incompreendedora -, tão dinamizada pela intelectualidade socialista em finais de XX, inconsciente herdeira da "visão do mundo" do republicanismo colonial, e nesse lamaçal intelectual incapaz de entender o mundo actual. Noção recuperada, há pouco, aquando da ascensão do novo governo, com os assomos de uma "diplomacia lusófona", jogada na luta do poder interna à actual coligação governativa. Mas agora com breve apogeu. Acabou. Resta esperar que a purificação nocional seja, efectivamente, acompanhada por uma maior capacidade interpretativa. E, assim, política.

 

 

publicado às 03:46

 

Daqui a bocado, à 1 da manhã (23 em Portugal) na estação SIC Notícias o programa "Expresso da Meia-Noite" abordará Moçambique. Entre os convidados estará o nosso FF (Fernando Florêncio, no seu avatar de professor de antropologia em Coimbra). Para quem não receba o canal (eu, por exemplo) refiro que no "sítio", acima ligado, será colocada a gravação.

 

Também estará presente o Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas do governo português José Cesário. Nada me move contra este membro do governo. Muito menos, como é óbvio, contra as comunidades portuguesas (entidades meio míticas a que eu, veterano emigrado, voto particular simpatia). Mas permito-me referir isto: nos últimos meses foram raptados em Moçambique dois imigrantes portugueses e dois luso-moçambicanos. Sobre o assunto já falou este mesmo secretário de estado, o actual vice-primeiro ministro e (muito mal, diga-se) o próprio Presidente da República. Agora de novo o secretário de estado das comunidades. Isto aparenta alguma verborreia (entenda-se, exactamente o antónimo exacto da palavra "diplomacia").  Noutros tempos portugueses, e face à complexa situação política em Moçambique (a qual também inclui o frisson sobre o ciclo de criminalidade urbana), quanto muito falaria, e com toda a parcimónia que a racionalidade político-diplomática impõe, o secretário de estado dos negócios estrangeiros e da cooperação.

 

Não será preciso ser grande águia para retirar daqui duas considerações: uma alteração totalmente casuística da política externa portuguesa face a Moçambique (pois assim agora denotado como predominantemente local de emigração nacional); o esfacelamento do  próprio MNE ocorrido sob a governação de Passos Coelho. Sou completamente insuspeito de simpatias cegas pelo PS (estão aqui os arquivos do ma-schamba para o comprovar). Mas para quem conheceu "secretários de estado da cooperação" com a dimensão de José Lamego, Luís Amado e João Gomes Cravinho, é completamente patético acompanhar o ramalhete de SENECs que Passos Coelho tem vindo a apresentar. Talvez por isso o silêncio agora. Sem outro significado, afinal, que o do vácuo?

 

(É óbvio que sai isto da minha irritante cabeça, e que o bom do FF não  tem responsabilidade nenhuma na minha resmunguice, apenas me avisou que ia lá estar a falar.)

publicado às 20:02

É hoje a apresentação do livro

por jpt, em 22.10.13

 

Abaixo já referi o lançamento deste "Exploradores Portugueses e Reis Africanos", livro escrito por Filipe Verde e Frederico Rosa. Venho aqui recordar quem esteja em Lisboa e tenha disponibilidade que decorrerá hoje, às 18.30 na Bertrand do Chiado. Se por lá estivesse iria, com toda a certeza. Ainda que não acredite que ofereçam chamussas (nunca percebi este costume das editoras deixarem os leitores à míngua de alimento carnal).

publicado às 05:41

Sou amigo do Filipe Verde há quase trinta anos (como custa escrever estas quantidades) e é também por isso, por esta minha fidelidade à ideologia do amiguismo, que aqui venho divulgar este "Exploradores Portugueses e Reis Africanos" (editado por A Esfera dos Livros), o livro que agora escreveu com Frederico Rosa. O qual será apresentado ao público no próximo dia 22 (terça-feira) em Lisboa, na livraria Bertrand no Chiado, por aquela hora do fim da tarde. Acontece ainda que o Filipe é o tipo com a mente mais brilhante que eu conheço (sim, sei do piroso que isto soa), opinião que já bloguei a propósito do lançamento do seu luminoso livro "O Homem Livre", o qual deveria ser presença constante nas estantes mas que me parece meio esgotado, e que continuo a recomendar como obra máxima do pensamento actual em Portugal. O Filipe Verde tem ainda a rara capacidade de pensar denso e escrever leve (entenda-se: muito bem), tornando acessível o seu pensamento de Homem Livre, nada sujeito a modismos e a obrigações de lojas, clubes ou capelas. Com tudo isto até parece que quero desmerecer o co-autor Frederico Rosa, mas não é o caso, é apenas eco de o desconhecer, apenas o ouvi uma vez, há anos, numa informadíssima comunicação, daquelas que denotam um intelectual de mão-cheia.

 

O livro destes dois antropólogos intenta uma releitura das viagens portuguesas em África durante XIX, visitando o calcorrear de Lacerda e Almeida, António Gamito, Rodrigues Graça, Silva Porto, Serpa Pinto, Hermenegildo Capelo, Roberto Ivens e Henrique de Carvalho, cruzando o olhar da antropologia, da história e da literatura. Coisa pensada não para especialistas mas sim para quem se possa e queira interessar, seja sobre o período histórico, seja sobre África, seja sobre essa coisa da construção dos discursos sobre o longínquo (e quantas vezes tornado exótico). Em termos de apelar a um repensar da história começa muito bem, logo com o título, nisto de "...Reis Africanos", pontapeando o velho olhar sobre o caos (apolítico) africano, o primitivismo sempre presente, com várias roupagens ...

 

Enfim, o lançamento é daqui a uma semana. E se alguém daqui (do in-blog) parta para assistir (os tipos falam bem, já agora) peço para ir lá ao Filipe Verde e entregar um abraço ido do jpt, qu'isto de viver longe tem recompensas mas também tem destas coisas, o perder os bons momentos dos nossos. 

 

Para quem não tiver disponibilidade fica o desafio, o de folhear o livro a deixar-se tentar, a ver se gasta os quase vinte euros (em podendo, e pelo que já li, justificar-se-á).

publicado às 08:20


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