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O PSB foi à bola

por jpt, em 02.09.14

Enquanto este jpt se prepara para abalar do "velho continente" (entenda-se a pronunciação, também dita "statement" em português da classe média lisboeta) este PSB prepara-se para abalar para o "velho continente", para ainda mais austrais paragens. O referido PSB é um tipo porreiro, meu amigo e até compadre. Mas não há belo sem senão: o homem é um ferrenho benfiquista. E assim, já tolhido pela nostalgia, no passado domingo foi ali às bandas de Carnide despedir-se do seu clube.

 

Como ambos estamos em abruptas transições biográficas a gente entende que podemos suspender, por um breve postal, a obediência aos estatutos editoriais do ma-schamba. E aqui fica a memória da última ida à Luz deste nosso próximo expatriado:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado às 20:51

Eleições Autárquicas

por jpt, em 20.11.13

 

O Pedro Sá da Bandeira (PSB) acompanhou as eleições autárquicas de 2008, era então o repórter fotográfico da delegação da Lusa em Moçambique. Para comemorar as eleições de hoje, quinquénio passado (voado), elas sempre a festa da democracia (por mais que apareçamos resmungões somos, cada um com a sua hierarquia de irritações, fundamentalistas democratas), aqui partilhamos algumas das suas fotos de então, feitas nas campanhas eleitorais dos municípios de Maputo e de Matola. Com os nossos "votos" de que o dia de votação e os dias de contagem corram a contento. Que o sufrágio seja sufragado ... E que alimente a paz.

 

 

publicado às 06:20

Brincadeira

por jpt, em 15.09.12

 

Exercício lúdico de atribuição de personagens literários a actores políticos.


TROIKA […] bando de seres humanos de aparência feroz, montados em garranos índios sem ferraduras, a cavalgar, meio bêbados, pelas ruas, barbudos, bárbaros, vestidos de peles de animais cosidas com tendões e munidos de armas de todos os feitios, […], e os cavaleiros usavam ao pescoço escapulários ou colares de orelhas humanas secas e enegrecidas, e os cavalos tinham uma aparência agreste e olhos selvagens e arreganhavam os dentes como cães bravios, e do bando fazia também parte um certo número de selvagens seminus a rodopiar nas selas, perigosos, imundos, brutais, e todo o grupo se assemelhava a um flagelo saído de uma terra pagã onde aquelas criaturas e outras semelhantes se alimentassem de carne humana. Cormac McCarthy, Meridiano de Sangue


PASSOS COELHO Talvez não fosse muito brilhante, disse Robey humildemente, mas que podia fazer? Não podia fugir às suas ideias. Nenhum de nós podia fugir às nossas ideias, e toda a gente tinha de enfrentar a mesma dificuldade, isto é, que havia centenas de coisas sobre as quais era obrigatório pensar e aprender. Tinha o dever de fazer o melhor que pudesse a esse respeito. Era assim que encobria o ardor que, no entanto, senti a pulsar vigorosamente no fundo.Queria dar ao livro, continuou Robey, o título de O Buraco da Agulha. Porque nunca houve a possibilidade de uma vida espiritual para os ricos, a menos que desistissem de tudo. Porém, já não eram apenas os ricos que teriam problemas pela frente. Num futuro próximo, a tecnologia iria gerar abundância e toda a gente teria o suficiente de tudo. Haveria desigualdade, mas ninguém mais passaria fome nem grandes necessidades. As pessoas comeriam. Bem, e quando comessem, como é que ia ser? O Éden da liberdade, da fartura e do amor, o sonho da Revolução Francesa a caminho da concretização. Mas os franceses tinham sido demasiado optimistas e acharam que, quando as decrépitas civilizações do passado fossem derrubadas, nada nos poderia impedir de entrar no paraíso terreal. Só que não era assim tão simples. Estávamos diante da maior crise que a História já viu. E não estava a referir-se à guerra, então em gestação. Não, descobriríamos se esse paraíso terreal se concretizaria ou não.- O pã-pão agora é quase de graça na América. O que é que vai acontecer quando a luta pelo pão aca-aca...Os bens de consumo vão libertar ou escravizar o Homem?Quase éramos levados a esquecer a aparência ridícula dele e a exuberante colecção de tapeçarias, antiguidades, objectos de ferro, trenós russos, alças e rabos de capacetes, caixas de madrepérola. De qualquer modo, mesmo quando estava nas mais altas esferas, parecia desconsolado, pronto a debulhar-se em lágrimas. Entretanto, o gosto de presunto rançoso vinha--me à boca de vez em quando. Saul Bellow, As Aventuras de Augie March


PAULO PORTAS «Nada há mais chato do que uma pessoa viajada.» A velha banheira erguia-se sobre as patas amolgadas de uma criatura ambígua, talvez um leão imperialista. A Opel afastou do nariz um pedaço de espuma. Espolinhou-se na espuma já velha de uma hora, acrescentando-lhe água quente de quando em quando e mergulhando até ao pescoço quando sentia uma corrente de ar.«Então não tens nada para dizer», disse eu.«É chato. Não interessa a ninguém. As pessoas que viajam muito perdem a alma algures. Todas essas almas perdidas estão lá em cima, no ozono. São lançadas para a atmosfera pelos aviões, juntamente com os químicos nocivos que bem conhecemos. Há uma cintura de almas lá em cima. As pessoas que viajam muito só falam de viagens. Do antes, do durante e do depois. Este é o pior sabonete do mundo, Bucky. Merda, tu metes-te no meu apartamento, vens para aqui viver, e quando vais às compras trazes-me para casa lixo sob a forma de produtos para o corpo. Como é que uma rapariga se há-de pôr bonita? O mínimo que podes fazer é esfregar-me as costas. Há uma espécie de destrutividade interior no discurso sobre viagens a meio de uma viagem. Além disso, viajar em demasia contribui simplesmente para isolar as pessoas. Torna-as mais limitadas. Torna-as chatas.» Don DeLillo, Great Jones Street


VÍTOR GASPAR À porta, já se sabia:- Tio Alma-Grande! Ó Tio Alma-grande!- Lá vai…Daí a nada o moribundo encontrava a paz nas mãos e sob o joelho do Alma-Grande.Entrava, atravessava impávido a multidão que há três dias, na sala, esperava impaciente o último alento do agonizante, metia-se pelo quarto dentro, fechava a porta, e daí a nada saía com uma paz no rosto pelo menos igual à que tinha deixado ao morto. Os de fora olhavam-no ao mesmo tempo com terror e gratidão. Miguel Torga, Novos Contos da Montanha, O Alma-Grande.

 

PSB

publicado às 17:10

aqui referi as compotas do nosso PSB, produzidas com a fruta das suas courelas, a corajosa forma como ele encarou o regresso a Portugal, e ao depauperado mercado do fotojornalismo que encontrou. O PSB não quer, e até lhe fica bem, fazer do ma-schamba um trampolim para a divulgação dos seus magníficos produtos. Mas a gente avança à sua revelia.

Agora chamando a atenção para uma entrevista televisiva. Em que ele, inclusivamente, ensina a fazer as ditas compotas (presumo que deixando de fora aquele "pequeno-nada" que as faz tão especiais). A ver. E a saudar.

jpt

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publicado às 19:15

Setúbal, a Cidade do Rio Azul

por jpt, em 03.03.12

«Em Setúbal nasceu um clube pequenino que ficou bem na memória

E com os anos cresceu entranhado no destino com o nome de Vitória,

Agora já foi igual aos grandes de tradição o Vitória faz das suas

Quer dentro de Portugal ou em qualquer outra nação perde uma não perde duas

Vivó Vitoria cantemos todos bem alto...»

 

PSB

publicado às 19:10

A "chicotada psicológica" no Sporting (mais uma) não é supreendente. Com Domingos a somar maus resultados e a protestar com os jogadores e com os associados ("fadistas, médicos e carpinteiros") do clube, ela esperava-se. Quando, na véspera, Godinho Lopes lhe deu o voto de confiança, o sempre-repetido "beijo de Judas" presidencial, o desenlace foi anunciado.

Há muitos anos que o Sporting é um "nó górdio". E para o desenvencilhar só me ocorre esta bela fotografia do nosso PSB.

jpt

publicado às 02:36

Filme Piegas

por jpt, em 08.02.12

 PSB

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publicado às 06:10

Memória fotográfica: A Viagem

por jpt, em 27.01.12

 

Tocou o telefone. Era preciso lá voltar. A convite da Presidência da República. Iríamos acompanhar a visita do Presidente às zonas afectadas.Acabávamos de regressar de dez dias duros, de milhares de km. A subir e a descer o Rio. Muito sofrimento alheio. Tristeza nos rostos, culturas arrasadas. Sem frutos. Só água, muita água.Mesmo assim, sentia-me privilegiado por ter assistido. Do ar, no conforto de um helicóptero, muitas vezes a baixa altitude, quase tocando aquele imenso lençol, toda aquela visão apocalíptica parecia-me o que de mais bonito havia visto. A natureza no seu máximo esplendor. Brutal, cruel e ao mesmo tempo de uma beleza assombrosa.Sete da manhã no Aeroporto Internacional de Maputo. Mudança de planos, afinal o Presidente segue directo para Tete, com ele a imprensa estatal. TVM, Rádio Moçambique e o «domesticado» Notícias.Nós, não. Vamos antes para a Cidade da Beira onde nos juntaremos a alguns jornalistas. E depois de machibombo até Caia. No dia seguinte, sim, veremos «O Chefe», assegura o assessor da Presidência que nos acompanha. Questionámo-nos quanto ao que iria acontecer, criando cenários. O mais certo é um apelo à ajuda internacional. A Cruz Vermelha Moçambique já o havia feito dias antes. Canalizando alguns fundos para os seus cofres, para fúria das outras organizações humanitárias na região, incluindo a protecção civil local.Chegámos à Cidade da Beira. Depois de várias horas de espera, partimos enfim. Ambiente ruidoso. Dois moçambicanos juntos fazem uma festa, mais de quatro, uma rave.À chegada, desorganização. Estão à procura de sítio para dormirmos. A casa do professor nigeriano, ausente em férias escolares, está livre. Vamos para lá. Quase há pancada pela única cama e pelos dois sofás pequenos. Não, aqui não. Não nos preocupemos. «Há de se resolver.»A noite cai, a solução tarda. A única hipótese é a escola, vão-nos arranjar uma sala com colchões. É só uma noite. Amanhã se quisermos levam-nos a Chupanga. Zona alta onde foi colocado o acampamento para os deslocados. Mas, temos que estar de regresso impreterivelmente às nove para não nos cruzarmos com a delegação do Presidente... Trocamos olhares cúmplices. Sentimo-nos enganados, manipulados. «O que estamos, então, aqui a fazer?»Já é tarde quando chegamos ao restaurante, a comida acabou. Venha uma dose de batatas fritas em forma de puré oleoso e duas cervejas mornas. Um luxo.De regresso à escola. Vale-nos o cansaço. Caio a dormir quase de imediato no pequeno colchão que me foi dado, depois de fortes saraivadas de repelente para os mosquitos. Se não apanhar malária hoje, decerto nunca apanharei.Despertar às cinco e trinta para a prometida viagem a Chupanga. Esse fim do mundo que já conheço de visitas anteriores. Onde miticamente jaz o corpo de Mary Livingston, mulher do famoso explorador, aqui falecida vitíma de Malária.São 60 km de tenebrosos buracos agravados pelo desconforto do machibombo.Não desanimamos, é mais uma oportunidade para ver. Registar. Um imenso acampamento onde apesar de tudo reina uma organização quase natural.De volta dos depósitos de água, reservatórios de cor azul e laranja, sujos de uso, sobre as cabeças das mulheres. Barulhentas. Corcundas, de crianças envoltas em capulanas. Olhares mortiços e narizes ranhosos. Um pouco mais longe, outras mais crescidas, de aspecto saudável, a correrem atrás de uma bola de trapos.Os homens na higiene diária, alguns de escova de dentes em punho. Indiferentes. Como se o mundo não tivésse desaguado sobre eles dias antes.É já debaixo dos protestos da rapariga do protocolo para que nos despachemos, estamos a violar o acordo, que vejo o Presidente da Nação. A preto e branco, em pose de Estado. Debaixo daquele braço triste. Como que omnipresente. Regressamos a Caia. A pequena vila transformada em epicentro da ajuda. Mais tarde a esperada conferência de imprensa. Aguardamos todos, barulho nos ares. Ao longe. Como pequenas moscas, os helicópteros que transportam aquela enorme e rica comitiva.Os guarda-costas à frente. Atropelam e empurram a população curiosa. Uma mulher, em passos ébrios, fura o muro protector. Em segundos está agarrada ao Presidente. Braços esquerdos levantados, mãos coladas. Juntos rodopiam, ao som de uma orquestra imaginária. Os repórteres de imagem acotovelam-se para captar o imprevisto. Gravadores em punho, expectativa. Não, não vão pedir a ajuda internacional. Está tudo controlado. É com orgulho que viu o trabalho feito por moçambicanos.Também eu, como que contagiado, rejubilo do brio moçambicano.

PSB

publicado às 19:36

"As compotas do Pedro"

por jpt, em 23.01.12

 

O nosso co-bloguista Pedro Sá da Bandeira surge na edição do Diário de Notícias de ontem (21.1.2012), em artigo ilustrado pela fotografia que reproduzo acima. Ali se explica (também) o pousio bloguístico em que ele se encontra, dedicado às suas urgentes e literais machambas. O Pedro, meu amigo e compadre (por via da amizade sororal das nossas filhas), é repórter fotográfico, trabalhou durante anos no "Record". Partiu para os EUA e depois para Moçambique, onde trabalhou com assinalável sucesso. E fez ainda exposições individuais. Do seu trabalho realço a exposição "Vai Fazer Bom Preço" em 2008. Uma coisa raríssima, um olhar destipificador, uma marcha contra o exótico e a despersonalização, um momento de inteligência perfeitamente excêntrico ao comum do olhar português sobre África.

 

É um profissional com este valor que, regressado a Portugal por razões familiares, encontra um mercado profissional desgraçado, prisioneiro da sub-remuneração, o estertor do jornalismo como existia, o desbaste da sociedade que conhecíamos. Profissionais primeiro proletarizados, depois sub-proletarizados. O PSB, à sua maneira, suave e sem procurar os píncaros, recusa a lumpenização. E tem a extrema coragem de procurar outros caminhos, de se reinventar. Um naco de terra de família, mãos à obra na produção agrícola e na sua transformação. Um must de dignidade nestas suas compotas, as "compotas do tio" como eu insisto, risonho, em intitular. Em vénia. Viva o PSB!!

 

Ele fez zoom à fruta da quinta da avó


Do congresso norte-americano para a Quinta de São Romão, em Setúbal, vão cinco anos. Pedro Sá da Bandeira, 41 anos, é fotógrafo. Estudou no Cenjor, estagiou no desportivo Record e colaborou com títulos como o El País, o Le Monde, a revista Edit ou o jornal de Washington The Hill. Foi ainda correspondente da agência Lusa em Maputo, Moçambique. Além do fotojornalismo, Pedro trabalhou como fotógrafo para a Organização das Nações Unidas, a Fundação Gulbenkian e a USAID - Agência de Cooperação para o Desenvolvimento do Departamento de Estado americano.


De regresso a Portugal, depois de quatro anos nos Estados Unidos e outros tantos em Moçambique, Pedro não encontrou o mesmo mercado que em 2002, ano em que saiu do País. "Escolhi a fotografia porque gostava e porque queria uma profissão que não me obrigasse a estar fechado num escritório. Passava as manhãs a ler jornais, a história do jornalismo era-me familiar. Tinha a quinta da família, e comecei a arranjar as coisas, não naquela coisa idílica de ir para o campo, mas para ter, no fundo, melhores laranjas para comer em casa. Rapidamente comecei a ter o que queria na fotografia - andar ao ar livre - e passei a ir para Setúbal quase todos os dias. Depois, é esta economia de sobrevivência: tinha lá uma ameixeira. Quando vi as ameixas a cair, decidi fazer uma compota", conta.


Até ao ano passado, a casa da avó de Pedro servia apenas para férias e fins de semana. Primeiro, o fotógrafo decidiu recuperar o laranjal - que produzira frutos até ao governo de Cavaco Silva e permitira à família comercializar laranjas. Mas Pedro não ficou pelo pomar: começou a fazer compotas de fruta e plantou uma horta com legumes da época. "Ervilhas, rúcula, tomate... agora só como tomate produzido por mim...", esclarece.


Mas como é que um fotógrafo profissional troca as lentes e as objetivas pela enxada? Não troca. Pedro continua a levar a máquina fotográfica para todo o lado e tem documentado o crescimento e a produção da horta. Além disso, continua a trabalhar como fotógrafo sempre que surgem trabalhos - como aconteceu em 2011, quando foi contactado pelas Nações Unidas para fotografar o trabalho State of World Population Report.


"A fotografia continua, mas procuro-a menos, sempre à espera de uma resposta. Não desisti da profissão, mas, de momento, ser fotógrafo não está a garantir-me qualquer tipo de rendimento. Não é que o que eu estou fazer esteja, mas pelo menos todas as semanas faço uma sopa com os meus legumes."


O sucesso das compotas de fruta da época - que Pedro cozinha e coloca em frascos esterilizados - já não se resume a pessoas da família: o fotógrafo pensa apostar na venda dos produtos em mercados, depois do sucesso que as suas compotas fizeram no Natal.

"Há muita concorrência, por isso tenho apostado em pequenos pormenores. Por exemplo, a baunilha que uso é francesa e as receitas são as mais tradicionais."


Com um investimento que ronda os 500 euros mensais, entre "combustível e sementes", a venda de compotas ainda não cobre todos os custos de produção, mas Pedro quer prosseguir com o projeto, a par da fotografia. Para isso, tem fotografado a horta e espera poder vender as fotografias emolduradas. "É assim... As voltas que a vida dá."


Entre ervilhas, espinafres, couves-flores, brócolos e tomate, Pedro Sá da Bandeira decidiu mudar de vida. Ou como o próprio escreveu numa carta, "se calhar, o futuro passa por aí. Por nos reinventarmos".

Retrato

Pedro Sá da Bandeira nasceu em 1970 e tem dois filhos. Frequentou o curso de Relações Internacionais mas optou por ser fotógrafo, por não se imaginar a trabalhar "num escritório". Entre 2006 e 2010, colaborou com a agência Lusa na delegação de Maputo, Moçambique. Em 2009, expôs o trabalho realizado em Moçambique no Instituto Camões. Vende cada frasco de compota por 5 euros.


jpt

publicado às 01:01

Sete Mil Milhões

por jpt, em 27.10.11

 

[Fernanda Manhique, estudante de Geografia, fotografada no campus da UEM por Pedro Sá da Bandeira]

 

Foi ontem publicado o FNUAP, State of World Population 2011. Em poucas horas seremos sete mil milhões. O relatório deste ano destaca Moçambique. E isso é feito exactamente através de uma galeria de personagens moçambicanas, activos e activistas cidadãos, assim feitos exemplo do mundo que somos, e retratados para o efeito pelo nosso PSB. Uma incisiva galeria de gente que o é um pouco mais, e que aqui é partilhada pelo PSB.

 

(Nisso também a encher-nos o peito, ufanos do co-bloguismo, de o termos aqui mais junto a nós, no meio dos tais sete milhões).

 

jpt

publicado às 22:59

100 dias de Governo, Portugal

por jpt, em 28.09.11

PSB

publicado às 22:25

Neste ano após-Shikhani

por jpt, em 26.09.11

["Shikhani, 28.9.2007; Foto de Pedro Sá da Bandeira"] 

 

Neste ano após-Shikhani

 

O ano 11 do século começou exactamente na véspera. Preparavam-se as libações apropriadas ao rejuvenescimento do calendário, espraiados ao sol, acalentados pela festa da continuidade que se aproximava, quando tudo foi interrompido, enublado. Os sms, esses tantans de agora, anunciavam, cruzando o país: “Shikhani morreu!”.

 

O areal onde recebi a nova tem Maputo como horizonte, longínquo como este sempre o é, mas assim de súbito tornado ainda mais inalcançável. E tudo me surgiu como simbólico. O ali estar, defonte à sua cidade agora feita túmulo. A data, fim-de-ano , sempre dada a rescaldos, as contas do deve e haver de cada um. Estas a acusarem-me de não o ter procurado, acompanhado, desculpando-me por não querer perturbar a intimidade alheia. Soube ali que tendo ele perdido a vida desperdiçara eu próprio um pouco da minha, ao não o ter demandado, perguntando sobre aquele seu mundo encantatório, assim deste aprendendo algo mais. E, mais importante, nele fruindo.

 

Mais tarde, naquela noite, quando nós os vivos comemorávamos este estar vivos, brindei sozinho ao velho que acabara – não sou religioso, a morte é o fim. Fica a memória, sim, mas nos outros, para estes a usarem. A minha memória de Shikhani, o meu artista moçambicano preferido, que dela fazer?, foi esse o meu brinde, meu compromisso comigo mesmo.

 

Recordo-o com enleio quando, ainda eu recém-chegado a Maputo, fui até Shikhani, então num flat à Samora Machel, um verdadeiro “jardim suspenso”, pejado de pinturas e desenhos. Ali me perdi, em espanto e encanto. Logo agendámos outro encontro, coisa de eu querer ver mais e com mais atenção, e também para preparar uma exposição, que até veio a acontecer. Nesse outro dia fui à casa do bairro do aeroporto, para onde Shikhani se estava ainda a mudar – “e onde há mais luz para ver” disse-me. No quintal, ao sol, foi-me abrindo o baú, dezenas das suas “coisas”, como as declarava, naquela sua voz pastosa, numa placidez até irónica, cruzada por laivos de sorriso que transformavam o seu corpo enorme em quase-criança.

 

Estava eu absorto no seio das pinturas quando Shikhani anunciou que tinha mais umas obras, e foi buscá-las, para logo surgir com as suas esculturas, arte que eu lhe desconhecia. Foi um embate, o maior que tive no país. Sempre recordo que depois dei comigo sentado num pequeno banco, sem ter reparado como ali chegara, manuseando tudo aquilo que se me desvendava. “De onde lhe vem isto, mestre?”, perguntei, e fui perguntando, ingénuo, como se tal seja coisa que se pergunte. Um cosmos pré-colombiano, passei a dizer, pobre de expressões, a todos aqueles a quem falava, ininterruptamente, de Shikhani. Para tentar expressar a sua radical originalidade, densa, abissal, labiríntica, imersa num frenesim de sentidos.

 

Foram essas memórias e a de outros breves contactos que com ele tive, mas também dos meus diálogos com a meia dúzia de peças dele que vim a possuir, que me acorreram naquele início de 11. Acabrunhando-me, como sempre a morte o faz? Sim, mas também felicitando-me o acaso da vida, este de o ter encontrado um pouco. E assim que fazer agora, para agradecer essa fortuna?, foi também o meu primeiro sono do ano.

 

Nem uma semana passara, já cruzara eu a baía de retorno a casa, e de novo soou o SMS-tantan, foi Idasse na alvorada a avisar: “Malangatana morreu!”. O ano começava, trágico, com esta razia nas personagens centrais do país. Pérfida coincidência, disse eu, o racionalista descrente em destinos. Conterrâneos, contemporâneos, colegas, parentes, tanta afinidade entre ambos veio desembocar na mesma foz de tempo.

 

A morte do velho mestre, o sempre aclamado Malangatana, logo fez explodir a comoção nacional. Pela sua grandeza, homem “maior do que a vida”, feito símbolo do país. Pela sua primazia, verdadeiro apropriador da modernidade no país, e dela reprodutor, incansável disseminador. Pelo seu atrevimento, de tudo tentar, tudo reclamar, tudo agir, no afã de recriar. E porque na sua obra pictórica, às vezes esquecida nas loas que lhe tecem(os), ter convocado para este nosso presente o passado e futuro do seu cosmos, assim tornando-os presente, um presente supra-preenchido, fortaleza de tantas forças, às vezes inebriado – fazendo-me lembrar, europeu que sou, o antepassado Bosch -, outras vezes terrivelmente doloroso. Explícito. E assim, no seu reclamado atrevimento e no seu mundo pintado, Malangantana surgiu aos olhos dos compatriotas o moldador da identidade comum, fez-se princípio.

 

Mas fez-se também como se tudo. E esse seu viver voraz foi-o também na morte, como se tudo se apagando em seu torno. Deixando-me assim com este luto, amargo, que desde então ocorre. No qual caminho, no mesmo areal daquele último dia antes de 11. Que fazer com o “meu” Shikhani? Esse das esculturas excêntricas, disformes, desordenando a ordem humana. Dos constantes labirintos, às vezes até figurativos outras apenas eles. Do doloroso despojamento, naquelas frenéticas inconclusões disfarçadas de meros passeios geométricos. Eu sigo a olhá-lo como um nosso desvendar. Dos abismos aos quais pertencemos. Dos implícitos. A identidade, afinal. Sem fronteiras. A dos homens.

 

Quando terei, e quando teremos, a coragem de voltar a Shikhani?

 

jpt e PSB (texto e fotografia publicados na edição africana do jornal Sol de 23.9.2011)

publicado às 23:18

Maschamba

por jpt, em 09.06.11
PSB

publicado às 10:49

Frente e Verso

por jpt, em 24.05.11
PSB

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publicado às 11:01

«Espectáculo do mundo».

por jpt, em 20.05.11

 

«Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo.» Desde que cheguei a Portugal, há ano e meio, que vivo uma dualidade em relação ao «espectáculo do mundo». Como um doente bipolar. Sem saber se rir ou chorar, enraivecer ou serenar. Na maioria das vezes, perplexo com o que leio e oiço.

 

E é com este pasmo que assisto diariamente ao que é reportado da detenção de Dominique Strauss-Kahn. A caricatura jornalística da enviada da RTP (ninguém lhe diz que em inglês a palavra island deve ser pronunciada iland, ou da existência de uma palavra mais curta em português que é ILHA?). A indignação dos «fazedores de opinião» pela forma como a justiça e polícia americana têm tratado Kahn, apelidando-a de «justiça faroeste». A de políticos transformados em comentadores, com um sorriso entre o cínico e o descansado (como quem diz «felizmente vivo aqui, e não lá»), a considerarem a acção da polícia estado-unidense digna de um regime «fascista». Os mesmos que recentemente rejubilavam com o espectáculo da prisão de Bernard Madoff. Avaliando a mesma justiça de «a mais democrática do mundo», entre outras preciosidades.

 

Indiferente, contesto, e apenas referindo um jornal diário de hoje, que o verdadeiro «Faroeste» é aqui:

 

- O primeiro-ministro demissionário, José Sócrates, rejeita a participação num plano de privatização da companhia Águas de Portugal (AdP), em 2000. Mas afirma «que pensou, isso sim, foi em fazer uma parceria estratégica com a EDP, porque quer a EDP, quer a AdP tinham alguma coisa a ganhar na altura» (e nós, o que é que tínhamos a perder?).

 

- O Presidente da Câmara de Oeiras, Isaltino Morais, condenado por crimes de «fraude fiscal, abuso de poder, corrupção passiva, …», volta a recorrer da sentença, que de recurso em recurso vai diminuindo drasticamente (de sete para dois anos no anterior).

 

- Miguel Relvas, secretário-geral do PSD, reconhece no julgamento do caso Portucale (ontem), que abandonou o Governo em 2004 (governo de gestão PSD-CDS) para «acelerar e criar condições para que alguns processos (?) fossem resolvidos».

 

- Na Madeira o PSD rejeita no Parlamento local a «constituição de uma comissão de inquérito para apurar responsabilidades pelos efeitos da tragédia de 20 de Fevereiro de 2010».

 

- Nos Açores, o Governo Regional, PS, cria mais uma parceria público-privada para «construir e explorar equipamentos para dar resposta a necessidades sociais da região». Recorrendo, mais uma vez, a empréstimos externos. Amanhã, o espectáculo prosseguirá. Ou, como certamente diria a jornalista da RTP, «the show must go on».

 

PSB

publicado às 19:52


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