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Nas estantes avoengas

por jpt, em 06.07.12

Janeiro 1887

Creou-se logo depois o ministerio das obras publicas, commercio e industria, portico triumphal destinado a dar ingresso á nova senda dos melhoramentos materiaes, e por baixo do qual teriam de passar em pompa constitucional, engrinaldados de rhetorica e envôltos em relatorios, cobertos de discursos e chapinhados de agua benta, todos os inventos scientificos da moderna civilisação europea, o vapor e a electricidade, a locomotiva, o fio telegraphico, o cabo submarino, e todos os novos systemas de docas, de portos de abrigo, de navegação, de alumiamento e balisagem das costas maritimas, etc. E ao receber cada um d'esses melhoramentos, o paiz sentia-se alegre, feliz, e quasi tão orgulhoso como se fôsse elle proprio, ou o seu governo, quem os tivesse descobertyo e pela primeira vez applicado á prática das relações sociaes.

As successivas formações de companhias, as adjudicações de empreitadas, a circulação de um consideravel augmento de dinheiro novo entre as classes operarias, as repetidas festas inauguraes de estradas, de pontes, de estações de caminhos de ferro, lisonjeavam e distrahiam a burguezia, suggerindo-lhe pretexto para se banquetear tambem por sua propria conta, mobilando salas de apparato, encommendando espelhos e lustres, illuminando, recebendo, lançando convites. A primeira exposição universal de Londres e a subsequente exposição de Paris fizeram viajar pela primeira vez ao centro da Europa muita gente rica até então sedentaria, caturra e odienta, além dos janotas expedidos em commissões do Estado, sob illimitados pretextos de utilidade publica, para estudarem toda a especie de cousas, reconhecendo-se para esse fim com o mais triumphante jubilo que se não sabia cousa alguma. Das alegres communicações de trato pessoal com a Inglaterra patusca de Lord Palmerston e com a França chic do duque de Morny, vieram-nos repentinos e consideraveis desenvolvimentos de elegancia e de moda, novas necessidades de luxo e novos requintes de prazer. Importamos então, juntamente com o artigo de Paris, com a camellotte do boulevard, novos systemas financiaes, receitas de syndicatos, de companhias anonymas, de trucs de bolsa. Trouxemos algumas cocottes; trouxemos camisas bem talhadas e casacas bem feitas; trouxemos corridas de cavallos e os cavallos inglezes; trouxemos o jogo de fundos para a rua dos Capellistas, e o baccará para o Gremio; trouxemos a opera buffa para a Trindade, e as toilettes Benoiton para as nossas famílias. (...)

A este conjunto de cousas chamava o governo regenerador, com mais ou menos propriedade, a prosperidade publica, e dava-se para os effeitos da popularidade e do porlamentarismo - um pouco de mais talvez - o ar victorioso de ter sido elle quem, pelo arrojo da sua iniciativa, creara as circumstancias determinantes de taes factos. (...)

Há comtudo na administração regeneradora dois factos culminantes que directamente influiram na opinião do publico, e algum tanto na orientação social. Esses dois factos são a conversão da divida publica, e a prática inteiramente nova dos pagamentos em dia aos empregados e aos pensionistas do Estado. Os pagamentos pontuaes, que ainda hoje se fazem nos dias primitivamente fixados pelo innovador, conciliaram á situação regeneradora as sympathias agradecidas da classe mais importante da nação. A conversão da divida, capitalisando os juros em débito por meio de uma operação engenhosa e complicada, abriu a porta a successivas operações analogas, habituando o governo a appelar para o crédito, contrahindo emprestimos sobre emprestimos com uma frequencia a que o paiz acabou por se tornar indiferente, bastando-lhe, como apparencia de prosperidade, vêr que os seus agiotas medravam a olhos vistos, que as estradas progrediam, que os pagamentos do thesouro e das secretarias continuavam a achar-se em dia, que as fabricas augmentavam bafejadas pela protecção das pautas, e que sobre tudo isto a rhetorica da representação nacional não cessava jamais de derramar torrentes infindaveis de metaphoras as mais arrojadamente jubilosas e optimistas, bem que, a exemplo do que sucedeu ao governo, successivamente se fôsse endivididando tudo, - as camaras municipaes, as juntas geraes, as juntas de parochia e as casas dos particulares.

Os diferentes partidos que desde 1851 até hoje se teem revezado no poder com o primitivo partido regenerador, em cousa alguma alteraram os methodos estabelecidos no modo de governar. Não trouxeram um único principio novo; prosseguiram fielmente no mesmo systema de supprimentos, de conversões e de emprestimos, substituindo apenas, em vista de uma justa consideração de equidade, os deputados, os governadores civis, os regedores e os agiotas amigos dos contrarios, pelos deputados, pelos governadores civis e pelos agiotas seus proprios amigos."

(Ramalho Ortigão, "Fontes Pereira de Mello", As Farpas. III Tomo – Os Individuos, Lisboa, David Corazzi Editor, 1887, pp 185-189)

jpt

publicado às 00:20

Ainda aquelas estantes

por jpt, em 26.09.05

Em linguagem e pensares do seu tempo, a lembrar-me coisas do presente no lá, esteja esse mais "republicano" ou mais "sidonista":

"Paralisadas na sua psychologia todas as faculdades e todas as virtudes que dão a um agregado humano a posse collectiva de si mesmo e a consciencia de um fim que justifique - como em todos os organismos - a sua existencia, perdida a fé, perdida a coragem, perdida a alegria, o povo portuguez appela para o milagre, absorve-se no messianismo, subordina todos os seus actos e todos os seus pensamentos no regresso do "rei desejado" ou do "rei encoberto"..."

[Ramalho Ortigão, Últimas Farpas, Paris/Lisboa/Rio Janeiro/S. Paulo/ Belo Horizonte, Livraria Aillaud & Bertrand/Livraria Francisco Alves, 1915, p. 58]

publicado às 02:04

Mais "Ainda aquelas estantes"

por jpt, em 26.06.05

(continuando):

"Segundo os antigos alienistas seria até um estranho caso de delirio parcial collectivo. Os psychiatras modernos rejeitam esse diagnostico, considerando as vesanias e as monomanias não como formas autonomas e distinctas especies morbidas, mas sim como phases clinicas de um delirio chronico iniciado por um accesso de hypocondria geral....

Hoje mesmo ... persistem residuos depressivos e taras ancestraes que, ao minimo abalo na elaboração cerebral dos motivos que determinam os seus actos, tornarão o povo portuguez tão genuinamente sebastianista como no tempo dos seus antigos agitadores e profetas ..."

(Fevereiro 1911)

[Ramalho Ortigão, "O Sebastianismo Nacional", Últimas Farpas, Paris/Lisboa/Rio Janeiro/S. Paulo/ Belo Horizonte, Livraria Aillaud & Bertrand/Livraria Francisco Alves, 1915, p. 59] 

publicado às 02:10


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