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Sobre Reinata

por jpt, em 14.10.14

reinata rainha.jpeg

 [Reinata, "Rainha de Mueda", c. 2011]

Lembrei-me de um texto que escrevi sobre Reinata em 2010. É um texto de ocasião mas gostei de o ter escrito, tal como gostei de ter sido jurado dos prémios FUNDAC - ainda para mais sendo um estrangeiro -, algo que acabou por provocar o texto.

Por isso guardei-o aqui, para quem tiver curiosidade.

publicado às 10:59

21 de Abril

por jpt, em 23.04.12

Sábado. De manhã conduzi um pequeno grupo, que convocara durante os dois últimos dias, ao bairro do Jardim, para visitar a casa de Ídasse. Alguns veteranos destas andanças, outros neófitos, até totalmente. Deram um mergulho, verdadeiramente. Encantaram-se, saíram cheios de sensações. E com as mãos cheias de obras, nitidamente aquelas que puderam levar. Ficou o pintor encantado, com o encanto que provocou. Eu, que quando for grande quero ser como o Ídasse, beneficiei-me com esta rápida "Demoiselles de Xilunguíne" (que é o nome que lhe dei).

Foi uma bela manhã, pela tarde dentro. E dela saímos invejáveis, por todos aqueles que não nos acompanharam.  

E pela tarde seguimos até à Feira do Livro de Maputo, na FEIMA, o parque que se vai instituíndo como uma aposta ganha quanto a animação da cidade (a animação gastronómica, o sítio do artesanato, as esplanadas e restaurantes, eventos vários, agora a festa do livro). Esta Feira do Livro é o que é: poucas bancas, poucas editores, nem todas as livrarias, algumas instituições (pior do que tudo, é até penoso de ver, a banca de monos super-usados da biblioteca do centro francês) com um ar mortiço. Mas é um esforço. Nesta tarde de sábado mostra também que este evento é uma porta para uma análise sociológica das práticas culturais na sociedade moçambicana letrada. Mas não foi para isso que lá fui, muito mais para fruir, apesar de estar, literal e radicalmente, desprovido do vil papel. Convívio, e as crianças a brincarem no parque ...

Assisti ao lançamento da edição em inglês do "Género, Sexualidade e Práticas Vaginais", Esmeralda Mariano e Brigitte Bagnol, um livro que é um marco nas actuais ciências sociais moçambicanas. Não só pelo necessário regresso à prática etnográfica mas também pelo mostrar como é possível fugir à chã "filosofia social" cristo-desenvolvimentista sem abandonar a aliança ciência-cidadania. É fundamental ler este livro e, com ele, sobre ele, imaginar como olhar o real.

Descubro, surpreendendo-me, uma banca dedicada a iconografia histórica: velhos postais, reproduções de fotografias, recortes de jornais, reproduções de mapas. Um casal espanhol, ali em regime de hóbi. Tipos óptimos, pelo que me pareceu. Arranjo 2 velhos recortes, algo fatigados, reproduzindo fotografias de Tambara, no Zambeze. Cada uma ao preço de um café. No fim-de-semana que vem estarão numa feira no café "Sol" (sommerschield "B"). Para os apreciadores ou curiosos valerá a pena ir lá beber um café. E, sim, estão lá alguns dos célebres postais editados por Santos Rufino ...

Depois, assisto a uma apresentação de "Reinata Sadimba", de Gianfranco Gandolfo (com fotos de Mário Macilau e arrumação de Ivone Ralha). A artista está doente e não esteve presente. As instituições oficiais espanhola e suíça, financiadoras, falaram - os espanhóis activos na área da "cooperação" cultural (muito também porque são activos na divulgação do que acontece), os suíços fazendo lembrar uma ligação do início da caminhada artística de Reinata com a cooperação suíça (com cidadãos suíços, será melhor dizer). O autor também botou, e "ameaçou" mais livros dedicados aos artistas moçambicanos - o filão destes que atravessam a carreira sem que fique um registo mais ou menos abrangente é enorme, está muito bem o Gianfranco Gandolfo. O livro parece ser interessante. O preço é proibitivo para o comum professor, ainda não me cheguei a ele para não me doer não o ter.

Mais tarde, na esplanada, um mais-velho lembra-me um texto sobre Reinata que escrevi há uns tempos, e diz-me que não estava mal. Confesso que, por isso, o "famous" me soube melhor ...

Sento-me numa roda, na esplanada, ofertado de um whisky bem-vindo, que serão dois. À Carolina, ali a acompanhar o pai, lembram-lhe uma sua curiosidade, coisa já de há anos. Que lhe vale agora, em gentileza que lhe ficará para o futuro, este "Nudos", a colectânea do ofertador, um príncipe quando o decide ser. Chegados a casa ela empresta-me o seu presente, folheio rapidamente. Uma iniciativa óptima, relevante. E bastante focada no passado. Para recuperar as obras já mais esgotadas, algo bem avisado? Ou outros critérios. O prefácio de Nuno Júdice não me esclarece. Aos livros do Eduardo White tinha-os a todos, lendo-os. Agora a Carolina começa a sua caminhada.

Nessa mesma roda, à volta da mesa rectangular, sei que dois outros escritores estão quase-quase a acabar livro. Um romance, outro contos. Fico à espera. Mostram-me, mas estou sem óculos e assim, ainda por cima na noite mal alumiado, já nem leio, uma prometedora colectânea de textos sobre Maputo lançada hoje mesmo, edição da Minerva. Contam-me, e de modo unânime, que lá está um belo texto de Mbate Pedro. E do primeiro-ministro. A sério? É mesmo. E também do Khossa, mas nisso a opinião não é unânime, ele abstem-se de concordar, e só lhe fica bem. Parece que é barato o livro, a esse hei-de chegar.

A banca da cooperação espanhola com publicações interessantes, acima de tudo com volumes dedicados ao actual paradigma da "cultura como vector de desenvolvimento". Passo por lá, escolho quatro. Baratos, 150 meticais cada um, diz-me o trabalhador na banca. É barato, concedo, mas estou tão xonado que não posso ali. Segui para a tal esplanada. Passado um bocado passam uns alunos, saúdam, e trazem os volumes, baixaram de preço, agora na alvorada da noite já a 50 meticais cada um. Explosão minha, tácticas de bazar numa feira de livro. Resmungo, mas ainda lá vou. O s  livros já quase esgotaram, mas ainda trago estes dois.

À noite o jogo espanhol. E os nossos emigrantes a ganharem, são eles (mais o Cristiano, sempre menino da nossa academia) que me fazem torcer pelo Real Madrid. E que grande golo, a calar os catalães, actuais exemplos de anacronismo xenófobo. Vejo o jogo em casa, visitado por amigo. No fim bebericamos e falamos da vida, quem conversa seus males espanta.

Foi assim o 21 de Abril de 2012. O meu pai faria 89 anos, o seu primeiro aniversário em que está ausente. Teria gostado de saber disto tudo, em particular das coisas da neta (que só em parte aqui aparecem). Dos detalhes e das opiniões. Não saberia das coisas do dinheiro, que isso não lho diria, claro. E gostaria de saber que a vida continua. Com os solavancos dela.

Parabéns, pai.jpt

publicado às 01:24

Livro sobre Reinata

por jpt, em 17.04.12
 

O lançamento do necessário livro sobre Reinata Sadimba , a célebre escultora, verdadeiro ícone. Este "Reinata Sadimba. Esculturas/Cerâmicas" foi feito por Gianfranco Gandolfo, que tem produzido trabalhos de referência sobre as artes plásticas moçambicanas. Com toda a certeza que este será um daqueles imperdíveis. Acontecerá amanhã, às 18 horas, no Museu de História Natural.

jpt

publicado às 12:01

No consulado de Portugal (Av. Mao Tsé Tung) uma colectiva de nove artistas, em colaboração com o Núcleo de Arte: Reinata, Naftal Langa, Makamo, Mpfumo, Nachaque, Mahazul, Mapfara, Simione, Pekiwa. Um belo painel sobre a escultura actual em Moçambique. Mais do que recomendável visita. Inaugura quinta-feira, 1 de Setembro, às 18 horas (momento da chamussa) e continuará nas semanas seguintes.

jpt

publicado às 23:21

Reinata no CEB

por jpt, em 18.04.11

[Reinata, Rainha de Mueda]

 

Há poucos meses Reinata Sadimba ganhou o Prémio Consagração Fundac, um prémio de relevo aqui, ainda para mais se atentarmos no percurso biográfico-artístico da escultora. Não que um prémio agigante a artista mas o reconhecimento institucional (e público) serve para chamar - ainda mais - a atenção. Por isso um pouco da minha desilusão com a actual individual da artista no CEB (agora Centro Cultural Brasil-Moçambique). Entenda-se, ainda bem que acontece, ainda bem que o CEB continua a ser de porta aberta para os artistas (e "casa" de Reinata) mas podia-se ter apanhado o embalo do Prémio para se fazer algo de maior monta. E com isto falo do alarido, chamar pessoas para ver. E de um catálogo, que possa abarcar a figura da artista, ímpar. Pois está na altura.

 

A exposição é interessante, não particularmente inovadora, mas muito bem conseguida, com uma coerência que nem sempre as suas exposições atingem. 25 peças do universo feminino reinatiano, o contínuo erótico, os azares da vida, os desencontros conjugais, as eternas e poderosas machambeiras, o peso dos filhos-gémos, o cume da maternidade. Agora, uma Reinata pacificada?, com pouco monstruoso. Um tratado antropológico? Mais do que isso mas claro que sempre encantando quem olha o rural. Esse que é o global. [Depois, e para aqueles que ainda podem comprar (ai, que saudades, ai, ai ...) os preços são muito convidativos - entre os 3 mil e os 16 mil meticais] Por tudo isso será de ir a correr, antes que feche.

 

Acima deixo uma pobre fotografia da sumptuosa "Rainha de Mueda", um belíssima obra. E abaixo uma das suas perturbantes camponesas.

 


[Reinata, Mulher Camponesa]

 

jpt

publicado às 16:46

[Luis Abélard, "Reinata]

 

Foram hoje entregues os prémios FUNDAC 2010. Como é óbvio o mais relevante é o "Consagração", que foi atribuído à escultora Reinata. O júri, um grupo integrando Elvira Viegas, Funcho (João Costa), Machado da Graça, Ungulani Ba Ka Khosa, apresentou este texto dedicado à premiada (estou obrigado ao seu presidente, Machado da Graça, que facilitou a sua publicação neste ma-schamba).

 

A atribuição do Prémio FUNDAC “Consagração” a Reinata Sadimba reconhece a notável carreira desta escultora moçambicana, sublinhando o extraordinário merecimento da sua obra. O prémio intenta realçar junto da comunidade nacional as virtudes e as virtualidades do seu projecto artístico. Este que vem constituindo desde há décadas, começado na sua aldeia Nimu, animado com as iniciais experiências na capital nacional na já longínqua década de oitenta, enriquecido com a sua estadia na Tanzânia, e desde então estável mas nunca rotineiro. Pois tem sido um caminho sempre desbravando novas perspectivas, de desafio em desafio, passo a passo, neste seu trajecto de oleira a escultora, da fogueira ao forno. E o qual sendo acarinhado internamente tem também sido reconhecido no estrangeiro, como o demonstram as inúmeras exposições em que a artista tem participado, a título individual ou em manifestações colectivas.

 

Este prémio pretende alertar para as características próprias da sua arte, que implicam referências transversais à sociedade nacional, e as quais se poderão considerar como exemplares reformulações dos patrimónios plásticos e culturais, sem que esta reclamação possa questionar o carácter de irredutível individualidade do exercício artístico de Reinata Sadimba.

 

A escultora é receptáculo das tradições culturais do seu contexto originário. Crescida no planalto Mueda, cedo se iniciou no trabalho da olaria. Uma olaria tradicional, de dimensão utilitária ainda. Mas que também comporta importantes dimensões estéticas, expressas nas temáticas geométricas que explicitam simbolicamente valores e concepções culturais cosmológicos. Uma olaria trabalho feminino, correspondendo a uma divisão por género dos encargos representacionais da cultura maconde: os homens esculpindo na madeira os discursos locais sobre o mundo, as mulheres fazendo-o, menos explicitamente, no moldar da argila.

 

Ascendida à maturidade Reinata inovou o seu trabalho de oleira. Rompeu com os limites utilitários da sua actividade e assim tornando-se demiurga de um novo mundo, figurativo, antroponómico, instável e em riscos de permanente surpresa. Nessa constante vontade de novos passos e novos fornos, carrega consigo o seu passado, traz os picotados geométricos que invocam as formas mas acima de tudo os conteúdos do mundo humano. Traz ainda o ensino tradicional, dos ritos femininos, palco das iniciais figuras da olaria local (shitengamatu) utilizadas nas suas danças finais. Traz, com toda a certeza, as figuras cósmicas, esses shetaniaté mestres do destino, que todo o Moçambique conhece e associa ao discurso maconde. E traz também todo o mundo de figuras, uma fauna reconstruída, um mundo assim capturado para seu deleite e sossego comunitário.

 

Pois no seu labor, pela sua fervilhante imaginação, assiste-se também á reconstrução do papel do imaginário feminino, à mudança do estatuto desses discursos femininos. O mundo, não apenas a representação do mundo, passa a ser produzido por Reinata. E, depois dela, pelas mulheres oleiras. E, porque não, pelas mulheres. Todas elas. Também elas.

 

Sim, Reinata representa o mundo. Mas representa-o como ele é e como quer que ele seja, uma mescla feliz, até utópica. Usa para isso a sua matéria-prima, a cultura na qual foi feita crescer. Mas é exactamente essa sua dimensão criativa, essa sua constante reconstrução, criativa, irónica, que apresenta erotismo e tristeza, festa e quotidiano, a fertilidade, o carinho, o mundo doméstico e a constante monstruosidade, é esse caminho sempre inesperável que Reinata anuncia que cumpre o desígnio artístico que aqui se consagra. As virtualidades da reconstrução. Constante. E rebelde. Assim demonstrando, através da sua individualidade, a extrema plasticidade da cultura dita popular. Sempre reinventada.

 

Reinata oleira maconde, dizem-na como se fosse essa a descrição que a definisse. Escultora do mundo, esculpindo mundos. Fazendo futuros. Pelo seu brilho inscrevendo as mulheres como dele escultoras.

 

Mas também anunciando a escultura em cerâmica, campo hoje em dia tão pujante nas artes plásticas moçambicanas actuais. Com toda a certeza devido à sua influência. São também esses novos caminhos colectivos rasgados por Reinata, essa sua marca no futuro, que se consagram neste e por este prémio.

 

Nota: fotografia de Reinata de autoria de Luis Abélard, publicada em "Com as Mãos. 24 Artistas Moçambicanos" (Athena, 2010).

publicado às 05:47

Arte Africana em Lisboa

por jpt, em 17.02.10
(por AL apressada)Do nosso leitor Nuno Salgueiro Lobo vem-me a informação que a galeria lisboeta Influx Contemporary exibe actualmente uma exposição colectiva de artistas Africanos contemporâneos, oriundos de diversos países, incluindo Angola e Mocambique.Pretende-se com esta exposição estimular um outro olhar sobre a Arte Africana:A maioria das pessoas ainda associa a expressão ‘arteafricana’ às formas ‘tradicionais’, a chamada (erradamente)de ‘arte primitiva’ ou tribal: objectos utilizados em cultos erituais ancestrais que encerram em si uma aura demisticismo e espiritualidade. ‘Arte africana’ normalmentesignifica ‘passado’.Mas, as coisas em África mudaram muito entretanto…Pelo que me foi dado ver no site da galeria, vale com certeza a pena dar um salto ao Lumiar.

publicado às 12:44

KM 1834

por jpt, em 17.10.09

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Já foi há quinze dias, mas fica aqui o registo. A curiosa iniciativa "Karl Marx dezoito trinta quatro". Na prática Mabunda, o cada vez mais celebrizado escultor de armas recicladas e ferro-velho, transforma a sua casa em galeria e abre a porta para uma colectiva, uma óptima forma de "receber". Não foi a primeira vez. Na altura da primeira (Março 2009) escapara-me a iniciativa

km-1834

que juntou três gerações: o próprio Mabunda, Mauro Pinto, Idasse e Reinata.

Desta vez Mabunda e Mauro Pinto repetiram e juntaram-se-lhes alguns outros artistas (ver convite). A casa cheia de obras, algumas muito recentes (fotografias frescas do Mauro - que tinha um quarto para ele - por exemplo) outras já conhecidas mas sempre a recordar (como a bela série de Berry Bickle). Estava pois a casa cheia e também de pessoas, que o sábado à tarde foi dia de KM 1834. Quem abrilhantou a cena foi o agrupamento "Sem Crítica", com música e declamações ("coisas" como eles dizem que fazem). Deixo três pobres fotos para memória, alguns deles tocando diante do Cristo de Mabunda (no chão) e ombreando com o fantástico Músico de Titos Mabota (abaixo em grande plano)

sem-critica-com-cristo

dsc_0012

KM 1834 é uma bela onda. Não só por poder juntar as pessoas com as obras (e as pessoas com as pessoas, e as obras com as obras). Mas porque desinformaliza um meio que aqui tende, muitas vezes, ao pomposo. A repetir, espero. Assim para que fiquemos no meio dos estranhos mundos que nos propõem, assim pelo menos durante algum tempo saindo das nossas próprias estranhezas ...

ag-sem-critica

 jpt

publicado às 02:10

...

por jpt, em 19.11.07

O esteta LNT não poderia ter escolhido melhor o grafismo para a campanha deste blog mudo ao rapto de criancinhas.(autoria Reinata Sadimba; obra pertencente à colecção particular do também candidato jpt).

publicado às 08:56

...

por jpt, em 19.11.07

O esteta LNT não poderia ter escolhido melhor o grafismo para a campanha deste blog mudo ao rapto de criancinhas.(autoria Reinata Sadimba; obra pertencente à colecção particular do também candidato jpt).

publicado às 08:56

Via correio electrónico, telefone e comentários, alguns insatisfeitos premiados têm reclamado a inexistência de uma estatueta que acompanhe a distinção Gandula 2005. Óbvios efeitos da globalização pan-americana e da subjugação ao paradigma "oscar". Mas enfim, não sendo eu mais um do que um reaccionário não vou combater a alienação alheia. Assim sendo aqui rendo-me aos anseios alheios e apresento a extraordinária estátua que simboliza o Gandula 2005

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["Admirado", Reinata]

publicado às 10:35

Reinata Sadimba

por jpt, em 01.10.05
Se há algum génio nas artes plásticas em Moçambique (e dado que Shikhani não esculpe, desesperemos pois) então será Reinata, tradicionalizando tudo o que nos inova, regesticulando um monstruário que só alguns poderão achar lá do Cabo Delgado, mas que é mesmo dela. Às vezes um grotesco máximo, um horror e humor a pedir alguém que mexa o suficiente nas palavras para que o possa definir.

Vem esta breve nota por causa da última exposição individual dela, "Rumo a Nova Descoberta" assim chamada, à qual ainda cheguei a tempo. Dezenas eram as obras, mas coisa suave, como se a velha atravessasse agora período de calmaria nas inquietações que lhe moldam a olaria. Será tal possível? Abundantes mulheres, um zoológico em crescendo, mas, perdoe-se-me, este assim tipo bric-a-brac.



Em suma, Reinata é Reinata, mas não saí com o deslumbre a que me habituei quando a cruzo.

Ainda assim, e fosse eu expatriado bem-pago não lhe deixaria em mãos um delicioso (pobre palavra, outra vez) auto-retrato "A Dona da Exposição", um realismo etnográfico "Mulher pilando mapira" que está extraordinário, e o mais significante de tudo o que ali se apresentou, um "Procurando Água" que é a única peça que me lembrou com vigor a sua cosmologia.



Vêm estas reproduções para ilustrar a adenda. Reinata é nome grande. Já viajou muito, expôs, foi catalogada e fotografada. Porventura até filmada. Não é pois lamento de falta de documentação para o futuro, este que se segue. Mas Reinata é mesmo nome grande. Como é possível expôr em Maputo, terra dos poucos mecenas e decerto distraídos, nesta pobreza? E ainda para mais numa instituição estrangeira, o Centro de Estudos Brasileiros, com perfil de cooperação e divulgação. Como é possível deixar esta artista expôr acompanhada apenas de um desdobrável que nada mais é do que uma fotocópia ali impressa a pedido do visitante. Sem roteiro, sem documentação. Sem publicidade que se veja. Um desinteresse, um abandono. Assim a parecer nada mais do que uma linha no relatório de actividades lá para o fim do ano. Mas que actividade? Ligar a luz?

Dir-se-á que o que interessa são as obras. Mas, e quem não compra? E quem compra mas quer saber o mais possível. Acompanhar o mais possível. E, já agora, se o que interessa são as obras então é ir ao Museu, visitar a artista. Nada! Até dói ver uma artista destas ser assim desacarinhada. Sem miserabilismos, sem coitadismos. Mas sim porque quem expõe Reinata expõe. Como deve ser. E quem não patrocina Reinata não patrocina ninguém.

publicado às 13:58


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