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Um do Rui Knopfli, para o final

por jpt, em 19.11.15

Ao ma-schamba comecei-o há 12 anos, lá em Moçambique, não por este monopolizado mas sim dele alimentado. Anos depois juntaram-se aqui bons amigos, pela tal amizade mas também por motivos das suas atenções ao país que nos encantara, a cada um de sua maneira. A vida correu-nos e o antes tornou-se distante. E nisso, por assim, o blog foi fenecendo, injustificado até. Terminamo-lo aqui. E se começou com um excerto do grande Rui Duarte de Carvalho ficará bem terminar com um poema de Rui Knopfli, para marcos não se podia pedir mais. Ficam os agradecimentos a quem leu, aturou, gostou e/ou resmungou.

 

Invernal

 

Corre já um arrepio pela crista

de Novembro. A imprevisível surpresa

da luz de inverno é a sua agressiva

doçura horizontal. Toma-se de frio

 

o ombro esquerdo, a moinha persistente

espreitando o coração cansado.

Subo devagar o Mall e a luz

fere-me os olhos frontalmente, filtrada,

 

fina e branca, quase paralela ao solo, 

como em África nunca aconteceria.

Perpendicular, fita-me de frente,

rasante ao chão como se lhe pedisse

 

que, por fim, me receba. Novembro,

agora pressago, Novembro, agora

sobre o ombro esquerdo, baixando,

insidioso, sobre o lado dito fatal.

 

Rui Knopfli.

publicado às 17:10

No feedly (33)

por jpt, em 21.05.15

taxi.jpg

 

- "Tufo: património cultural de Moçambique", no Buala. Um texto algo ligeiro mas interessante de Hélio Nguane sobre a dança moçambicana. Abordando, acriticamente, essa deriva actual, a da "patrimonialização" (via UNESCO) das expressões culturais, o arremedo folclorista dos dias d'hoje - que em Portugal tão bem conhecemos, do fado aos chocalhos, para não falar do inenarrável episódio do "cante" alentejano ("canto", em português padrão).

 

- A taxa única dos taxis no aeroporto de Lisboa, no A Origem das Espécies.

 

- Je suis Vilhena, no Book Loving Girls.

 

- O país dos outros, Rui Knopfli editado em castelhano, no Da Literatura.

 

- "Eu não faço parte do grupinho ACAB (All Cops are Bastards). Criticar a atitude daquele polícia e desejar que seja exemplarmente castigado não é colocar em causa a PSP – é defendê-la.", sobre o espancamento de Guimarães, no Bitaites.

 

- Pior era impossível, sobre os custos do marketing (eleitoralista?) da Câmara Municipal de Lisboa e da Polícia nas comemorações da vitória benfiquista, no Blasfémias.

 

- 1776: the revolt against austerity, on New York Review of Books Blog.

 

- Sobre a visão da ciência de Mariano Gago, no jornal i via De Rerum Natura. Não é para agora, só para daqui a alguns anos: Gago foi muito importante na concepção nacional da investigação, e nisso ímpar agente de desenvolvimento do país. E foi também ministro conivente com o "socialismo" craxiano que devastou o desenvolvimento do país. Como - daqui a uns anos - iremos olhar para a sua obra, se vista de modo abrangente? (Já agora: faz hoje seis meses que Sócrates está detido, esse que em pleno conselho de ministros gozava, primus inter pares, com as acusações à sua "licenciatura", dizia quem lá se sentava).

 

- O arquitecto do Café Majestic, no A Cidade Surpreendente, blog dedicado ao Porto, cidade de que ando a aprender a gostar.

 

- Who's afraid of african democracy?, no New York Review of Books Blog.

publicado às 21:50

Os Lusíadas

(variações sobre um tema recorrente)

 

 

Vela parda, barca sem leme

ao leme da aventura desventurada

sobre estas praças regressamos, granito 

e basalto, livro de estátuas perfiladas

à friagem do sono sem sonhos.

 

As chagas do tempo e da febre,

as cicatrizes da ausência e do olvido,

emprestam à madeira corroída

dos rostos uma pintura de estrangeiros.

Incómoda memória sangrada

 

em silêncio, através da noite perplexa,

sobre a praia original descemos.

Surda e endurecida no gosto

da cobiça, não concede a pátria

o favor que havia de acender

 

o engenho. E a magra tença,

se mal resguarda o corpo enfermo,

menos guarda o inverno da alma.

Em cinzas e sombra ao abismo

baixaremos: esconjuros e autos-de-fé 

 

não logram corromper a árdua

incomburência do testemunho

que somos; mais que a fria

laje da hipocrisia, durará

o remorso desta voz enrouquecida.

 

(Rui Knopfli)

publicado às 00:12

A Distância

por jpt, em 30.05.12
(O texto na edição de hoje do "Canal de Moçambique") 

A distância

Ao longo da vida tenho conhecido alguns escritores, poucos. De conhecer mesmo, não “aquilo” das patéticas sessões de autógrafos, das filas intermináveis exigindo aos escribas que rabisquem os seus gatafunhos, cansados, mercantis, nos livros ali comprados. Não os persigo como tal, escritores, naquela ideia de que são como se semi-deuses, criadores sobre-homens. Conheci gente, que por acaso escreve. Há pessoas interessantes, outras nem tanto, tal como os outros, os leitores e os que não lêem. Quanto às biografias, daqueles já idos ou distantes, pura e simplesmente não as leio. Ou seja, não me são importantes as pessoas, e seus esconsos da vida, para lhes viver as obras. Certo, será assunto legítimo para os profissionais da literatura. Mas para nós, os que vamos às livrarias? Não. Nada ganho em saber se Lowry era mesmo alcoólico ou Céline maldisposto. É importante saber que livros leram Cervantes ou Dante, para entender o mundo que escreveram? Será, se apenas os sentir como documentos. Não, se temer os purgatórios de hoje ou se seguir, como sigo, qual Sancho Pança.

Vem-me isto a propósito da impressão sentida agora mesmo, ao tornar a reler “O Monhé das Cobras”, o final de Rui Knopfli. Sou fraco leitor de poesia, não me consigo erguer às profundidades a que tanta dela mergulha, e talvez por isso tanto gosto deste poeta, que narra, me deixa acompanhá-lo. Ao livro lera-o em 1997, quando “importei” umas dezenas de exemplares para aqui distribuir o que já se antevia ser uma despedida. E anos depois procurando-lhe aqueles versos resumo do meu país “… Feita de lavras / em pousio e esperança adiada, / pertencemos todos a esta áfrica lusitana / que pelas outras se expandiria. Por estas / andámos perdidos, ignorando então / que a passagem obrigava ao regresso …” (“As Origens”). Voltei agora.

Para mais uma vez me deixar amargurar, é o termo. Afinal, em contradição com o que digo, a encontrar o homem esquecendo os textos. Pois tanto ele se impõe neste seu “adeus”. Pouco sei dele, nunca questionei aqueles que o cruzaram ou estudaram. Nem ao Nelson Saúte, seu cultor, nem ao Noa, seu estudioso, nem a Zé Craveirinha, seu “verso e anverso”, nem mesmo ao “Kok Nam, o fotógrafo, baixa a Nikon / e olha-me, obliquamente, nos olhos: / Não voltas mais? Digo-lhe só que não.” (“Aeroporto”), que o acompanhou à partida, definitiva, de Moçambique.

Lembro-me de, há muitos anos, aqui receber uma bela visitante, romeira em busca dos trilhos do poeta. Só me perguntava onde era a casa do Knopfli, sabia lá eu onde era! Alguém a terá levado, lá para as bandas do Núcleo de Arte, ainda hoje não sei. Desencontrado, eu queria discutir “A Ilha de Próspero”, livro tão elogiado e de que nada gosto, apenas documento, coisa padrão, mesmo que talentosa à sua maneira, um olhar marcado e que marcou, ainda o hoje. Mas nada. Fiquei só, resmungando aquele autor, homem ali algemado no seu tempo, na sua gente, em torno das pedras e dos estereótipos, dos velhos típicos, das belas mulheres, com msiro ainda por cima, uns belos e jovens seios a precisarem das jóias locais, como se não suficientes em-si. O poeta a olhar os restos de uma ilha construída por “mouros embarcadiços, ali fugidos aos negros canibais do Continente”, como ainda deixou Alexandre Lobato apresentá-la, e já naqueles anos 1970s! Um homem a ir até à “Ponta da Ilha” para olhar “telhados de macute que se repetem / sempre iguais, ruelas de terra batida / entrelaçadas em labirinto rústico” e deixar-nos três, notei sempre, apenas três fotografias tiradas cá de cima, da avenida central. Todas as barreiras ao olhar, brilhantes sob o sol da mito “muipiti”.

Era isso que me brotava, o meu resmungo diante daquele “Próspero e Caliban”, a rasa leitura de que veio a brotar a lendária revista “Caliban” do Lourenço Marques de 70s, e que um dia mais tarde o Nelson e o Soares Martins vieram a reimprimir. Rasa leitura porque a empobrecer Shakespeare, como se este ali narrasse o mero mundo, ecoando-o, e não a desvendá-lo. A dizer esta “tormenta” da coexistência da “magia branca” e “magia negra”, do curandeiro e do feiticeiro, ainda para mais coisa tão sabida do Rovuma ao Maputo, ideia tão à mão de semear, bastaria ter os olhos para ouvir.

Um meu resmungo diante de um Shakespeare de cardápio, a deixar fugir a ideia central, de que se caliban é colonizado por próspero, é-o pois colonizado pela razão. Por uma razão que não é boa, apenas a fúria e o orgulho quando comedidos. Por isso o elogio exótico, o “generoso” paternalismo de Knopfli do “Não são estes os filhos de Caliban” (“Canção de Ariel”). Incompreendendo que as gentes da Ilha são os filhos do boçal e horrível Caliban. Porque todos nós somos caliban e próspero, é essa a nossa “tormenta”, o “outro” está cá dentro, melhor dizendo o “outro” é o mesmo. Pois é disso que se trata, não da refracção da política e da geografia.

E desses pólos, pobres, afinal não saiu o poeta. Por isso, homem do meio, sem o ter percebido como, se foi num “não voltarei, mas ficarei sempre”. Há pouco, em tarde de cafés longos, perguntei a quem sabe daqueles tempos, “o que é aconteceu com o Knopfli?”. Que “foram vocês que o mandaram embora” veio a resposta, a surpreender-me, qualquer coisa decidida pelo então Alto-Comissário. Será verdade? Uma delas, pelo menos, muito a aconchegar esta incompreensão que lhe brota dos textos, e a dourar um mito, sereno, poético, a continuar.

Depois a república não o tratou mal, enviou-o com serenidade para Londres, o centro do mundo. E é isso que tanto angustia nestas visitas ao terminal “O Monhé das Cobras”. Que o homem, saído da sua Inhambane, desgarrado da sua Lourenço Marques, se findou a escrever sobre a “rua de coolela”, sem nunca ter encontrado naquela urbe, brutal, milionária de sons e tons, ainda que enublada, um qualquer encantador de cobras a quem se dedicar.

Leio Knopfli e vejo a distância. A dele. Para com o onde estava, para com o para onde foi. E vejo-o símbolo, da história de tantos dos meus patrícios. Do meu país. A não olhar(em) a urbe. E pesadelo. Na minha história.

É importante conhecer a vida dos escritores? Afinal … é.

jpt

publicado às 02:18

As mangas verdes

por jpt, em 29.05.12

João Melo, que é um amigo do ma-schamba já desde "os tempos", mandou para o grupo ma-schamba no facebook esta sua fotografia "mangas verdes, só falta o sal ...". Eu confesso que sou empedernido, gosto muito mais de blogs do que do facebook - e se as conversas, amenas, se deslocaram para lá pelo menos que as imagens venham para cá, quando significarem algo para o que vamos blogando. Acontece que estava a escrever um textito (também) sobre o Rui Knopfli, a publicar no Canal de Moçambique de amanhã. E já que isto das "mangas verdes" virou canónica referência ao poeta aqui deixo o seu (polissémico?) poema a este propósito

Mangas verdes com sal

Sabor longínquo, sabor acre da infância a canivete repartida no largo semicírculo da amizade.

Sabor lento, alegria reconstituída no instante desprevenido, na maré-baixa, no minuto da suprema humilhação.

Sabor insinuante que retoma devagar ao palato amargo, à boca ardida, à crista do tempo, ao meio da vida.

[Rui Knopfli, "Mangas Verdes com Sal", Lourenço Marques, Minerva Central, 1972, 2ª edição]jpt

publicado às 12:22

 

["Rio Zambeze (AL)"] 

Quem somos, senão o que imperfeitamente 
sabemos de um passado de vultos 
mal recortados na neblina opaca, 
imprecisos rostos mentidos nas páginas 
antigas de tomos cujas palavras 

não são, de certo, as proferidas, 
ou reproduzem sequer actos e gestos 
cometidos. Ergue-se a lâmina: 
metal e terra conhecem o sangue 
em fronteiras e destinos pouco 

a pouco corrigidos na memória 
indecifrável das areias. 
A lápide, que nomeia, não descreve 
e a história que o historia, 
eco vário e distorcido, é já 

diversa e a si própria se entretece 
na mortalha de conjecturados perfis. 
Amanhã seremos outros. Por ora 
nada somos senão o imperfeito 
limbo da legenda que seremos. 


Rui Knopfli - Quem somos 
Preciso ser um outro 
para ser eu mesmo 

Sou grão de rocha 
Sou o vento que a desgasta 

Sou pólen sem insecto 

Sou areia sustentando 
o sexo das árvores 

Existo onde me desconheço 
aguardando pelo meu passado 
ansiando a esperança do futuro 

No mundo que combato morro 
no mundo por que luto nasço 

Mia Couto - Identidade


 

AL

publicado às 23:17

Cahora Bassa

por jpt, em 13.11.06
Cahora Bassa. Já aqui e aqui saudei a conclusão do processo de transferência da barragem, um item do processo de negociação da independência, uma conclusão política para um (fantástico, aka extraordinário, aka descabido) empreendimento político. Saudando o final de um longo processo, saudando o governo português que, finalmente, resolveu o assunto.Deparo-me agora com a revista Visão, o numero anterior à visita de Socrates a Maputo, onde culminou as negociações.

 "Renascer em Moçambique", o título da pobre reportagem. Candura? Vácuo? A parvoíce habitual, jovens portugueses (entre 25 e 32 anos - neles algumas caras conhecidas) por cá, terra exótica e bela, vivendo aventuras, amores ardentes, empresas ascendentes. Capa condicente, casal com cabana atrás (e autóctones, presume-se que convenientemente agradecidos). Nada de novo, ha 8 anos por cá esteve Maria João Avillez a botar um "regresso dos portugueses" tão nada como isto, tão vazio e cego como isto (uma colecção de cromos preguiçosa, o tipo dos "gelados italianos", claro, o paradigma Cascais, esse que se baldou depois com as dívidas para trás, e uma série de jovens quadros de apelidos sonantes, tipo "vejam, nós tambem podemos ir..."). Gente nada, essa que escreve, gente de quem Rui Knopfli escreveu"Ninguém se apercebe de nada. / Brilha um sol violento como a loucura / e estalam gargalhadas na brancura / violeta do passeio. / É África garrida dos postais, / o fato de linho, o calor obsidiante / e a cerveja bem gelada. / Passam. Passam / e tornam a passar. / Estridem mais gargalhadas, / abrindo uma sobre as outras / como círculos concêntricos. / Os moleques algaraviam, folclóricos, / pelas sombras das esquinas / e no escuro dos portais / adolescentes namoram de mãos dadas. / De facto como é mansa e boa / a Polana / nas suas ruas, túneis de frescura / atapetados de veludo vermelho. / Tudo joga tão certo, tudo está / tão bem / como num filme tecnicolorido. / Passam. Passam / e tornam a passar. / Ninguém se apercebe de nada."(Winds of Change, tão bem lembrado no A Sombra dos Palmares).Gente pobre, ignara, a dos jornais? Lendo tralha destas logo assim se acha. Para quê coisas tão fracas, nem superficiais chegam a ser? Pergunta cansada, nem quer resposta tamanho o menosprezo que tal gente acolhe. Mas logo depois esta tralha simpática esta, jovens portugueses "a renascer em Moçambique", burgueses entre belas raias e boers escaldantes, tons ocres, descampados imensos, um futuro cobiçável (e repetível), um país simpático que os acolhe e tal permite, e a tantos outros, gente boa, "terra da boa gente". E assim os escaparates lusos cheios desta capa, nem precisam de comprar e ler, basta passar na rua, actua o implícito, o indito, o subconsciente.E na semana seguinte Socrates em Mocambique a "entregar" Cahora Bassa. Antes a opinião pública "preparada", trabalhada, mexida. Desta maneira melíflua. Ah, "renascer em Mocambique", entre raias, autóctones e terras assim. Gente pobre, ignara, a dos jornais? Nada!Um lixo. A Visão. Mas também quem os compra. Entenda-se, que lhes encomenda lixo destes. E quem lho consome.

publicado às 18:20

...

por jpt, em 12.10.06
Ilha de Moçambique: o verso ...MuipítiIlha, velha ilha, metal remanchado,minha paixão adolescente,que doloridas lembranças do tempoem que, do alto do minarete,Alah - o grande sacana! - sorriaaos tímidos versos bem comportadosque eu te fazia.Eis-te, cartaz, convertida em puta histórica,minha pachacha pseudo-orientala rescender a canela e açafrão,maquilhada de espesso m'siroe a mimar, pró turismo labrego,trejeitos torpes de cortesã decrépita.Meu Sitting Bull de carapinha e cofió,têm-te de cócoras na sopa melancólicade uma arena limosa e marinha,gaivota tonta a adejar inutilmenteao lume de água contra a amarraque te cinje para sempreao bojo ventrudo do continente.De teu, cultivam-te a vénia e a submissãosolícitas, trazidas nos pangaioslá do distante Katiavar,expondo-te apenas no que tens de vil,razão talvez para que ao longe, de troça,pisquem mortiças as luzes do Mossurilou sangre no meu peito esta mágoa incurável.Mas retomo devagarinho as tuas ruas vagarosas,caminhos sempre abertos para o mar,brancos e amarelos filigranadosde tempo e sal, uma lenturabrâmane (ou muçulmana) durando no ar,no sangue, ou no modo oblíquo como o soltomba sobre as coisas ferindo-as de mansinhocom a luz da eternidade.Primeiro a ternura da mão que modulouesta parede emprestando-lhe a curva hesitantede uma carícia tosca mas porfiadalogo o cheiro a sândalo, o madeiramentocorroído da porta súbito entreaberta,o refulgir da prata na sombra mais densa:assim descubro subtil e cúmplice,que a dura linha do teu perfil autênticote vai, aos poucos, fissurando a máscara.[Rui Knopfli]... e o anverso?MuhípitiÉ onde deponho todas as armas. Uma palmeiraharmonizando-nos o sonho. A sombra.Onde eu mesmo estou. Devagar e nu. Sobreas ondas eternas. Onde nunca fui e os anjosbrincam aos barcos com livros como mãos.Onde comemos o acidulado último gomodas retóricas inúteis. É onde somos inúteis.Puros objectos naturais. Uma palmeirade missangas com o sol. Cantando.Onde na noite a Ilha recolhe todos os istmose marulham as vozes. A estatuária nas virilhas.Golfando. Maconde não petrificada.É onde estou neste poema e nunca fui.O teu nome que grito a rir do nome.Do meu nome anulado. As vozes que te anunciam.E me perco. E estou nu. Devagar. Dentro do corpo.Uma palmeira abrindo-se para o silêncio.É onde sei a maxila que sangra. Onde os leopardosnaufragam. O tempo. O cigarro a metralharnos pulmões. A terra empapada. Golfando. Vermelha.É onde me confundo de ti. Um menino vergadoao peso de ser homem. Uma palmeira em azulhumedecido sobre a fonte. A memória do infinito.O repouso que a si mesmo interroga. Ouve.A ronda e nenhum avião partiu. É onde estamos.Onde os pássaros são pássaros e tu dormes.E eu vagueio em soluços de sílabas. OndeFujo deste poema. Uma palmeira de fogo.Na Ilha. Incendiando-nos o nome.[Luís Carlos Patraquim]

publicado às 06:04

...

por jpt, em 19.02.06
Por falar em Knopfli.

publicado às 21:08

...

por jpt, em 19.02.06
Sobre Knopfli é melhor ler.

publicado às 20:58

...

por jpt, em 29.11.05
Mais Knopfli.

publicado às 23:23

...

por jpt, em 27.11.05
Hoje há Knopfli no sempre visitável À Sombra dos Palmares.

publicado às 22:35

Incendiar os astros?

por jpt, em 30.08.04
A Leonor do Fazendo Caminhotem partilhado poesia, e muito em especial poesia moçambicana. E muito Knopfli, o que muito nos fica e faz bem. Ter-se-á cansado, decidiu encerrar a casa, até argumentou haver muitos outros blogs de divulgação poética. O que é verdade, e muito bom.Agora reconsiderou (conheço bem a sensação) e abriu o Fazendo Caminho II. A acompanhar e a agradecer. [E a regressar ao primeiro, que tem armazém cheio].A agradecer-lhe o bom gosto que partilho de quando em noite, a iluminar-me, aqui deixo um bocadito do que ela gosta:
"...Para quêquerer incendiar os astros se, dentro de nós,ainda não acendemos todas as luzes"
(Rui Knopfli, Ars Poética, Mangas Verdes com Sal)

publicado às 00:46

Craveirinha e Knopfli

por jpt, em 28.05.04
José Craveirinha comemoraria hoje o seu 82º aniversário. Aqui fica a memória. Ilustrada por um pequeno livro, que acarinho, em que se recolhem algumas das suas crónicas de jornal, casadas com as contemporâneas de Rui Knopfli, um "verso e anverso" desses irmãos de letras inventado pelo António Sopa: "Contacto e outras Crónicas" + "A Seca e outros textos".

 

No final dos anos 40 o então jovem Zé Craveirinha escrevia, com um tom muito da época, coisas de sempre:

 

"O movimento que se deseja efectuar-se-á ...quando o homem de cor intelectualmente preparado não desdenhar acintosamente o influxo de correntes culturais de origem africana, num sonambulismo ignaro que se vem prolongando demasiado. ... Trata-se muito simplesmente de não abdicar de uma cultura indígena, nem renegar uma corrente europeia, quando de tal enxerto pode surgir uma beneficiação integral..." (8-9)

publicado às 20:12

Poema de Rui Knopfli

por jpt, em 28.05.04

Em Maio blogs mil foi o que foi ... assinale-se o primeiro aniversário à sombra dos palmares, que antologia já é.

 

Que começou e continuou assim:

 

(...)Teu olhar tem a curvatura

terna e feroz de uma grande-angular.

Esse perfil distante de cimento

e argamassa é toda uma geometria

decantada e gostosa molhando os quadris

deleitados no charco doce da baía.

Diacho, que perfil mais bonito, hem?

Então, Rui, que é isso,não vais agora comover-te?

 

(Rui Knopfli)

publicado às 20:08


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