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O discurso de Mia Couto

por jpt, em 03.09.15

Mia-Couto-exibindo-o-Certificado-do-doutoramento-H

 

 

Mia Couto recebeu ontem da Universidade Politécnica o título de doutor honoris causa. Na ocasião proferiu um intenso discurso [versão integral]. E muito interessante, um verdadeiro documento para se abordar o ambiente cultural do país e, nisso, também o político. Mia Couto é um homem muito gostável: acessível, afável, encantador mesmo. E um cidadão muito empenhado e corajoso. (Ao longo dos anos aqui tenho repetido, em vários postais, este meu entendimento que é apreço). E é um escritor muito gostado, daqueles a que os leitores não só aderem à obra como também ao homem. A esse propósito lembro-me de um pequeno episódio que disso julgo denotativo: quando atribuíram o Nobel da Literatura ao francês Patrick Modiano procurei informações sobre o escritor, que desconhecia (afinal já tinha lido um livro, "Dora Gruber", que pouco ou nada me dissera, tão pouco que o esquecera). Via Google fui parar à página no Facebook dos seus admiradores, tinha pouco mais de 2000 inscritos. Nesse mesmo dia acedi a uma das várias páginas-FB dedicadas a Mia Couto, a qual tinha mais de 100 000 inscritos! Pequenos detalhes decerto, mas que indiciam o fervor com que os admiradores o seguem, lendo e aplaudindo. E esse fervor, que em Moçambique é também, e muito normalmente, polvilhado de orgulho pátrio, tende para o unanimismo na recepção das suas obras e das suas opiniões, uma aceitação acrítica.

 

É um pouco esse o desconforto que sinto na leitura deste discurso. Que é, como disse acima, um documento para se ler o Moçambique de agora e de antes. Tem um conteúdo social retumbante - é absolutamente delicioso, antológico mesmo, o episódio do jovem que gostaria de ser honesto mas ao qual falta patrocínio para tal: se non è vero, è ben trovato. E uma vertente política notória, à qual é difícil não aderir, na defesa de valores pacíficos, de aversão às disparidades, de defesa do diálogo e da inclusão. Que corresponde, de modo quase explícito, a um rescaldo muito crítico do período presidencial recentemente terminado. Algo que se articula, sublinhando, na sua coincidência com as contundentes afirmações proferidas nesta mesma semana durante o julgamento em Maputo de Castel-Branco e Mbanze, ainda para mais divulgadas pela imprensa nacional em directo. São dois momentos simbólicos muito fortes, em sequência, assim uma semana a recordar em termos políticos, no que se configura como a reutilização explícita do património moral e ideológico samoriano pelos intelectuais nacionais, em contramão à utilização da figura do primeiro líder nacional que o estado vem fazendo nos últimos anos. Se este em busca de legitimação agora em modalidade de crítica (prospectiva).. Mas sobre esse conteúdo político não me cumpre opinar, estrangeiro e vivendo à distância, ainda que me permita pensar que seria (e será?) bom que os termos da sua elaboração sejam discutidos.

 

Mas fundamentalmente o que me toca é outra coisa. Sei que a maioria dos jovens moçambicanos pouca ou nenhuma literatura lê. Ao longo de anos a maioria dos alunos com que trabalhei o referiram. E aqueles poucos que o tinham feito (ou faziam) ao anunciarem os autores já lidos sistematicamente lembravam Mia Couto e, ainda que muito menos, Paulina Chiziane. E, só depois, Khosa. E de literatura estrangeira, tão menos acessível e tão mais distante, muito menos ainda, algo verdadeiramente raro. Assim, para muitos o Mia é a porta de entrada da literatura. E creio até que para vários também, infelizmente, quase a de saída. É nesse contexto que me custa ler a sua concepção utilitária de literatura, ainda para mais porque prevendo (e já assistindo) à aceitação do discurso (algo agora mensurável na rapidez do "partilhar" e "gostar" no mundo internético). Pois para Mia Couto a literatura está ali para "resgatar ... [a] moral perdida" sendo o " mecanismo mais eficiente e mais antigo de reprodução da moralidade" passando "não apenas sabedoria mas uma ideia de decoro, de decência, de respeito e de generosidade". Uma subalternização da literatura a uma função social e política, como se alimento da construção e reprodução nacional. Esta posição do escritor é conhecida, até porque a pratica. E é legítima, a cada um a sua opinião. E muitos dirão que corresponderá também ao seu contexto biográfico, aos constrangimentos e urgências que entende no seu país. Mas o que (me) custa é saber que pela sua influência vai penetrar o entendimento dos que ali, apesar de tudo, vão lendo. E que assim se podem deixar algemar pela ... moralidade. Esquecendo ou desconhecendo um velho ditado do colono (ou próprio, pois tantos dos leitores são portugueses): que de boas intenções está o inferno (literário) cheio. E assim torcendo o nariz a quem aparece a dizer que nisto de leituras (e até de escritas) o bom mesmo é a ... amoralidade.

 

publicado às 18:26

Carlos Nuno Castel-Branco

por jpt, em 29.07.15

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(Carlos Nuno Castel-Branco; fotografia de João Cordeiro, publicada no "Público")

 

No Público de hoje um artigo sobre o processo movido ao economista moçambicano Carlos Nuno Castel-Branco, por "crime contra a segurança do Estado, por difamação e calúnia" devido a uma "carta ao Presidente da República", e ainda a Fernando Mbanze, editor do jornal Mediafax que a publicou. O julgamento foi adiado para finais de Agosto. Entretanto estão disponíveis petições da Aministia Internacional solicitando o encerramento deste processo (em inglês; em português). O conteúdo desta petição pode ser analisado e será discutível, como excelentemente o acaba de fazer Elísio Macamo no seu mural de facebook. Mas acima de tudo parece-me urgente, e muito benéfico, que o processo se esgote. Também como contributo para a pacificação do ambiente nacional, como sinal adverso aos revanchismos.

 

Mas também como fruto de uma análise contextual. Vou ser franco, eu não gostei da carta publicada, um texto no mural de facebook do autor publicado no tão tenso final de 2013. O qual deu brado, foi muito discutido, saudado e repudiado (em termos públicos foi repudiado em tons muito feios, nos quais muitas vezes habitou o racismo). O meu desgosto não se prende com a perspectiva do autor sobre o processo nacional, pois esse é um outro registo de debate. Mas sim com o seu tom, abrasivo, demasiado abrasivo em meu entender. Naquelas múltiplas discussões sobre o tema várias vezes o considerei "um mau momento". Que todos temos, em particular os que praticam esta escrita quase-imediata na internet. Mas também não me parece que um texto destes seja um atentado à segurança nacional. É muito mais um irado desabafo, um discurso de um cidadão exaltado com um processo de que discorda. E isso deveria obrigar a pensar o seu autor, pois Carlos Nuno Castel-Branco é um homem peculiar: um poderoso investigador, um excelente académico, um infatigável trabalhador, um cidadão despojado. E, talvez mais do que tudo isso, um enorme patriota. Como o sabemos, todos os que o conhecemos, pessoal e/ou intelectualmente. Alguém cujo percurso de constante dádiva não justifica tamanha leitura literal, como esta que agora acontece. E por isso mesmo muito aguardo que este processo se encerre.

publicado às 13:03

A última viagem a Nelspruit (2)

por jpt, em 15.01.15

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Era o primeiro dia da campanha para as eleições em Moçambique. Para nós era já a despedida, sonhando-a de curto prazo, temendo-a para muito tempo, a tal papaia na garganta (que ainda não engoli) na angústia de perder a "terra" que, afinal, não era a minha. Nessa última semana fomos a Nelspruit, no regresso em Ressano deparei-me com esta imagem. Parei o carro, para a captar. Talvez só quem conheça a zona fronteiriça possa entender o porquê disso, do meu amargo espanto. Logo após o portão da fronteira, no início da descida - o início do país - uma queimada do lixo remanescente defronte da carcaça do velho "chapa" abandonada na berma da estrada. Orlada dos cartazes, novíssimos, até frescos, da candidatura de Filipe Nyusi, que os militantes da Frelimo ali tinham colocado nas últimas horas.

 

O contraste com a paisagem sul-africana, imediatamente atrás, rodoviária e não só, é enorme. Sim, eu sei que o Mpumalanga fronteiriço é a terra dos latifúndios de plantação, do trabalho ilegal explorado, talvez um dos resquícios maiores do velho apartheid, mesclado com o vampirismo dos novos-possidentes. Por isso mesmo a comparação "a seco" da "higiene" ainda-traansvalesca e o desarranjo da crescente Ressano Garcia é sociologicamente inepta. E por isso mesmo politicamente reaccionária.

 

Mas ainda assim, e talvez como nunca, até porque sendo a última vez perspectivada, a última entrada no "país [que não pátria] amado" chocou-me, aquele cupido usufruto do lixo em vez dos cuidados ecológicos.

 

Por isso guardei a imagem, partilho-a agora. Simbolizando o meu desejo que Filipe Nyusi, hoje empossado, tenha sucessos na sua presidência, e que estes sejam o do país. E que, nesses sucessos, se incluam também a indução junto dos tantos apoiantes do partido do sentir, pensar, ecológico. Nisso a ideia de que o lixo é para tratar, não para usar como material de suporte propagandístico.

publicado às 23:34

A tragédia de Chitima

por jpt, em 12.01.15

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A agora acontecida tragédia de Chitima (no Songo, província de Tete) é avassaladora. Os mortos já são 63 e o número tende a subir, com inúmeros hospitalizados. Tudo provocado pela ingestão, em festividade, de pombe, bebida artesanal com base de mapira (sorgo). Um tambor de 200 litros no qual foi misturado um qualquer produto letal. Face a uma desgraça destas convém não especular, e não deixar de fora a possibilidade de um qualquer intuito criminoso. 

 

Mas a ideia que logo brota é outra, é de que terá havido um outro objectivo, o de incrementar a "força" da bebida. Lembro bem do que me avisavam, repetidas vezes, quando cheguei a Moçambique: para nunca consumir bebidas alcóolicas destiladas artesanalmente cuja confecção não tivesse acompanhado. Pois havia o hábito, antigo, de lhe associar múltiplos produtos, por exemplo pilhas, para aumentar o "coice". Terá acontecido isso? Terá sido, pelo contrário, algum produto corrompido? Julgo que em breve se saberá, mas isto é uma verdadeira desgraça.

 

E lembra-me, claro, as páginas iniciais do romance de Lídia Jorge, "A Costa dos Murmúrios", que narra (presumivelmente assente num acontecimento que a autora terá acompanhado na época) uma desgraça similar, um carregamento de alcool que matou inúmeras pessoas na Beira colonial dos tardo-1960s. Belas e terríveis páginas. Para acompanhar este luto.

publicado às 20:46

Para ouvir daqui a bocado

por jpt, em 17.11.14

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Resumo

 

Ao lado da África do Sul, famosa sociedade dada a extremadas discriminações identitárias, Moçambique parece um paraíso de cosmopolitismo e interculturalidade. Ainda assim, de entre as diversas comunidades etno-linguísticas e religiosas que compõem o tecido social do país, e que aparentemente coexistem pacificamente, encontra-se uma muito reduzida e heterogénea comunidade judaica que o trabalho de campo antropológico revela ser pautada por fracturas identitárias severas. Tal diversidade coloca em risco a sua própria continuidade, não fosse algum grau de tolerância e abertura necessárias na aferição de quem é judeu ou não, em Maputo. A etnografia demonstra haver desentendimentos entre os vários critérios de categorização identitária, entre os quais a lei judaica, a religiosidade, a classe e a cor são tidos como importantes. As noções de hibridismo, hospitalidade, globalização imaginada, apatridade e alteridade são no presente estudo incontornáveis, de modo a compreender quem se afirma ou é percepcionado como judeu, concretamente neste contexto africano específico.

publicado às 17:24

O massacre de rinocerontes e de elefantes em África tem recrudescido, e também em Moçambique. Algumas esperanças na preservação ecológica que as últimas décadas tinham permitido desvaneceram-se nos últimos anos. A crescente população, a falta de rendimento, de oportunidades de trabalho são alguns dos factores. A inexistência ou fragilidade das instituições também o serão, mas mesmo na África do Sul, onde estas existem e funcionam, a invasão furtiva tem tido efeitos devastadores. E, claro, o ressurgimento de alguns pólos orientais do comércio internacional é turbo desta desvario assassino. A extinção das espécies é uma ameaça real, dolorosa.

 

Moçambique tem sido particularmente afectado. Chegam constantemente relatos de massacres de elefantes, os rinocerontes foram extintos. Diante de uma incapacidade da sociedade em obstar a este comércio - que ainda para mais é uma tradição secular, ainda mais difícil de combater. Amanhã há uma "Marcha Mundial pelos Elefantes e Rinocerontes" e em Maputo haverá uma concentração e desfile. Espero que possa sensibilizar a administração pública e a "sociedade civil" para uma muito maior actividade em defesa destas espécies. Para depois, no mesmo eixo, se afirmar a defesa das malhas florestais, retorica (politicamente?) reduzidas a "recursos naturais", nisso devastadas exactamente devido aos mesmos factores. Um processo tétrico, letal.

 

A marcha é global. Acima o mapa das cidades onde decorrerão actividades. Talvez que o google não esteja totalmente actualizado, espero bem. Pois olhando-o vejo, com tristeza, que aqui em Bruxelas, a Brasília da União Europeia, não há qualquer acção. Não comento, ainda não conheço a sociedade, mas lamento pois seria um palco fundamental para influenciar instituições.

 

Mais lamento, mas nem estranho, a inexistência de qualquer actividade em cidades portuguesas. Num país onde as gentes se mobilizam por várias questões, normalmente corporativas ou futebolísticas. Ou das agremiações partidárias. Mas onde não há, 50 tipos que fossem, gente capaz de se juntar num parque a dizer "não" a esta barbárie global. Não há duas ou três escolas secundárias - e tão aguerridos são os seus professores quando são referidos os seus estatutos e remunerações - que se associem no largo da paróquia ou do pelourinho. Não há meia dúzia de associações de estudantes universitários que interrompam o exaltante vomitar pós-praxes.

 

Nem há uma câmara municipal que o dinamize, dessas que tanto se geminaram (gemelaram, como se diz em Moçambique) com municípios africanos, em viagens autárquicas pejadas de camarão, caranguejo, e prostitutas baratas para as bolsas europeias. Uma Évora geminada com a Ilha de Moçambique, ambas Património UNESCO (e não as espécies forma fundamental de património mundial?). Um Porto que manda os autocarros velhinhos para a Beira? Uma Vila Pouca de Aguiar onde o seu presidente, dinaussauro nada-excelentíssimo, organizou uma geminação com 18 (dezoito) municípios moçambicanos numa reunião ali em Maputo? Nada ... Um país onde há décadas subsiste a farsa (roubando dinheiro do erário público) de um partido fantasma no Parlamento, falsificando o espírito constitucional, dito "ecológico os verdes", que nem para isto se mexe. 

 

Amanhã em Maputo e em tantas outras cidades haverá gente, que o é, a sair à rua, por esta razão, nobre e pura. Os outros são o que são ..., desgente.

publicado às 10:03

 

(Sábado, 16 de Agosto de 2014. Esquina da Av. Julius Nyerere com a Av. 24 de Julho, Maputo: carro pertencendo a uma caravana de propaganda da Renamo)

 

Quem lê o ma-schamba sabe que não botei sobre política moçambicana. Algo que está explícito no que chamámos, ironica e pomposamente, "estatutos editoriais do blog". Várias razões para isso, abrangentes e individuais. Sempre entendi que ser estrangeiro em terra estrangeira inibe alguma acutilância ("ouça lá, se está mal mude-se", será sempre a resposta possível e irrebatível). Ainda por cima tendo eu uma malvada tendência para o maniqueísmo quando sobre política - algo visível nos 532 postais sobre "política portuguesa" nesta década de blog (na maioria escritos por mim), triste colecção histriónica.

 

Sendo estrangeiro e ainda por cima português. Sempre estive ciente de que botar sobre política em Moçambique nessa condição poluiria a interpretação do que eu escrevesse. Daqui resmungar-se-ia o meu "tuguismo" ["expulse-se do país, de preferência para um país onde lhe cortem a cabeça", escreveu há anos sobre mim o então secretário-geral da Associação de Escritores Moçambicanos, no portal dessa organização, diante do radical silêncio dos seus pares de letras; "actualmente todos os intelectuais e pedagogos portugueses são aldrabões e colonialistas", botava há tempos um conhecido "jornalista de investigação"; "todos os portugueses são mal-criados", sublinhava um ilustre jurista e agora "fazedor de opinião" local]. Mas também dos meus patrícios. Botasse eu sobre política daqui e estou certo que teria tido o choque de opinadores patrícios daqui oriundos, um núcleo societal que esteve bastante activo na internet, sempre constantes e lestos na crítica radical a todos os itens do processo nacional moçambicano, como se este ontologicamente ilegítimo [ainda assim, apesar dos meus cuidados, fui recebendo a imputação de "frelimista". E também a de "detentor de interesses em Moçambique" - e eu agora a fumar Pall Mall, bolas].

 

E há o estatuto pessoal. Professor numa universidade pública moçambicana, fui durante alguns anos cooperante português - e nesta última condição contratualmente proibido de exercer actividade política no país (uma expressão lata, eu sei, mas que assumi de modo abrangente, até pela mera assinatura do contrato, à qual ninguém me obrigou a não ser eu próprio). Mas há muito tempo que não sou cooperante e como tal poderia escrever sobre o que me apetecesse. Friso essa liberdade. Há anos que escrevo no "Canal de Moçambique", um jornal conotado com a Renamo ou o MDM (varia consoante o locutor). É certo que escrevo sobre temas não políticos (livros, viagens, locais de Maputo, quotidiano, etc). Mas ainda assim é muito significativo que ninguém, alguma vez, me tenha alfinetado em relação a isso. 

 

Dito isto. Não boto sobre política moçambicana. Mas vou pensando, claro. De maneira algo diferente dos meus vizinhos, que isto de ser estrangeiro poupa-me ao abrasivo, o do prós e contras. E da dos meus patrícios daqui saídos, também eles maioritariamente abrasivos, pelo menos os que foram e vão escrevendo sobre o aqui.

 

Tenho aqui uma boa mão cheia de amigos "samoristas", cultores do nacionalismo desenvolvimentista e da personalidade carismática do primeiro presidente. Tenho alguns, menos, "guebuzistas", que frisam o empreendedorismo e a descentralização patrocinados pelo actual presidente. Muitos conhecidos e alguns amigos estão na expectativa do MDM (não serão exactamente "simanguistas", não há neles uma pessoalização da adesão), crentes na democratização societal que patrocinará. Muito poucos no meu núcleo social são renamistas (alguns foram-no, mas foram saindo nas purgas anti-urbanas e anti-intelectuais naquele partido).

 

Eu cheguei ao país em 1994 (as próximas eleições serão as primeiras multipartidárias que não acompanharei). O país estava crispado, saído de uma devastadora (e como o foi ...) guerra, com a ameaça de fracturas regionais políticas. E estava paupérrimo, dos mesmo mais pobres do mundo: colónia sub-desenvolvida atravessara um regime de índole comunista e entrara naquilo que se chamava "Bretton Woods" com uma economia fragilíssima, sem capital, sem investimento estrangeiro, sem infraestruturas, sem recursos humanos para um mundo globalizado. E sem espaço para entrar no mercado mundial, que é coisa que a gente tende a esquecer. Sem uma cultura tradicional democrática e sem instituições com essa prática.

 

Assisti (ou pelo menos foi isso que os meus olhos entenderam) a um urdir das teias do país, uma pacificação interna. Dolorosa, por vezes errática. Conseguida. A uma democratização, passos a passos, ainda que com coisas que chocam a sensibilidade estrangeira (a desgraça de Montepuez em 2000 talvez a pior). A uma fabulosa inserção internacional, uma diplomacia moçambicana absolutamente brilhante nos múltiplos palcos bilaterais e multilaterais, isso também denotando a maleabilidade interna. Ao crescimento de uma burguesia nacional (a "classe média" do jargão, a "sociedade civil" de outro jargão), com os tiques da "compradora" (este termo de um jargão já mais fora-de-moda), apropriadora ("apropriação primitiva do capital", disse o teórico), mas necessária a uma "economia de mercado" (aquilo do capitalismo) nacional. À ascensão de uma componente tecnocrática do poder político, à qual eu sou muito sensível, apesar de antropólogo - não há desenvolvimento, ainda por cima partindo de tamanhas dificuldades, sem tecnocratas.

 

Nada disto foi perfeito, nada disto foi exemplar, nada disto é utópico ou exaltante, romântico. Foi, e será um processo. Com as maleitas da vida em sociedade. Pode ser sempre melhor, até muito melhor. Mas é. Um algo maiúsculo. É por isso, por ter conhecido Moçambique nesse período e tanto me ter surpreendido (e "engajado", apesar de mim-próprio) que aqui sou um "chissanista". No respeito a um estadista democratizador, um construtor desta democracia, sempre saudavelmente imperfeita.

 

Brotou-me isto nestes últimos dias. Pois na manhã do sábado passado fui beber um café ao "Nautilus". No cruzamento da Nyerere com a 24 de Julho, a 500 metros da residência do Presidente, a outros 500 metros dos serviços da Presidência. Inesperadamente ali passou uma caravana de propaganda política da Renamo, que fotografei da esplanada, a primeira que vi neste período pré-eleitoral. Isto um ano e meio depois de a Renamo, estuporadamente, ter encetado acções militares no centro do país. De ter ateado o medo da guerra. E pode agora manifestar-se mesmo no centro da capital do país. Apesar desse tudo ... É uma lição, para os críticos de todos os matizes. A paz e a democracia são necessárias. E são possíveis, apesar dessa irracionalidade política.

 

Há muita coisa a fazer no país? Há, com toda a certeza. Sou eu mais sensível à protecção ecológica e dos direitos dos agricultores (itinerantes) à terra - ameaçados pela vertigem da exploração dos recursos minerais e silvícolas, que recompõem modelos de exploração exógena. Mas mais importante é ter a consciência de que os instrumentos democráticos e democratizadores existem e a cultura de paz também. Para os manter, e fazer crescer, será preciso que os críticos larguem os respectivos maniqueísmos. E, sem dúvida, que grasse um sentimento de "patriotismo", de maior repartição societal.

 

(Pronto: agora podem protestar-me de "frelimista").

publicado às 09:26

 

Começam hoje as comemorações das três décadas de programas de cooperação [ajuda pública ao desenvolvimento] entre Moçambique e a União Europeia, organizadas pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros e Cooperação nacional e pela delegação da U.E. em Maputo. Ao fim da tarde no cinema Scala, às 18.30, será estreado um documentário moçambicano, produzido pela PROMARTE (de Sol de Carvalho) e realizado por Fábio Ribeiro, sobre essa cooperação, "Os 5 elementos: 30 de cooperação". Diz quem já o viu que está bem interessante.

 

Será interessante ir(mos) lá. Neste (ainda) novo milénio o discurso e a prática da "Ajuda Pública ao Desenvolvimento" tem-se alterado. Tanto pelas implicações dos diversíssimos processos nacionais como pela emergência de poderosos novos interlocutores com os países ACP. Os quais têm, com toda a naturalidade e legitimidade, diferentes objectivos e metodologias nas suas relações com estes países. Mas que não serão exactamente "desenvolvimentistas", no sentido mais conceptual dado ao termo, estarão mais atreitos aos modelos de "crescimento económico" mútuo.

 

Há quem, como eu, acredite no valor "desenvolvimento", ainda que ciente da sua dimensão humana, donde imperfeita. Assente nas ideias da democraticidade (e democratização), da tendencial equidade, e da sustentabilidade (sociológica e ecológica). Quem assim pensa tem agora, hoje ao fim da tarde, uma excelente ocasião para ver neste documentário a(s) voz(es) moçambicana(s) sobre esta articulação desenvolvimentista entre as instituições da União Europeia e as de Moçambique. E assim alimentar uma reflexão sobre o futuro.

 

Sei que há sempre muitas críticas aos interlocutores. Convirá pensar que em termos de "cooperação" a União Europeia tem sido um grande interlocutor do Estado moçambicano. Em meu entender com vantagens, para além da ideologia que acima referi. O facto de não ser uma cooperação bilateral (entre dois estados) implica uma maior abrangência e um desligar de interesses nacionais dos doadores (aquilo a que em tempos se chamou "ajuda ligada"), e isso é muito benéfico.

 

Convirá também recordar que Moçambique tem sido um grande receptor de ajuda europeia. Às vezes isso é um pouco ultrapassado no discurso interno, saudavelmente valorizador das capacidades endógenas. Mas convirá recordar uma dimensão fundamental nesse processo destas três décadas. A da extraordinária capacidade de absorção dessa ajuda, ou seja, a capacidade institucional do Estado (e da própria "sociedade civil") em articular e desenvolver projectos (sociologicamente) infraestruturais de enorme complexidade. Aquilo a que poderemos chamar uma auto-capacitação institucional, verdadeiramente louvável.

 

É isso, como democrata português e europeu, suavemente europeísta, e nada suavemente apaixonado por Moçambique, que me apetece agora ir festejar. Celebrando estes trinta anos de cooperação, através deste programa cultural que abaixo replico ["clicando" duas vezes na última imagem o programa das comemorações engrandece, ficando muito legível].

 

Até lá, espero.

 

 

 


   

publicado às 10:25

Entre-rios

por jpt, em 04.05.14

[Didáctica do casamento, mural em Gondola, Manica]

 

O blog tem um grupo ma-schamba no facebook que anuncia os novos postais, e respectivas ligações. O grupo é muito grande (7300 inscritos, mas é óbvio que os frequentadores são muito menos). Coloquei ali um álbum fotográfico, a que chamei "entre-rios" (do Rovuma ao Maputo, claro).

 

Nele estou a arrumar algumas centenas de fotografias que fiz em Moçambique. Vou arrumando as fotos, tentando fazer uma espécie de narrativa pictórica. Que espero algo perceptível. É uma pena, mas a tecnologia dos blogs não permite a arrumação aqui, onde preferiria alojar esta colecção.

 

Tenho consciência do que (não) faço com uma máquina fotográfica, mas é o "meu" Moçambique que quero "partilhar" (filiando-me na ideologia facebuquesca). Para introduzir o referido álbum "entre-rios" escrevi: 

 

Tenho a mesma relação com a fotografia do que com a culinária. Sou péssimo ao fogão e totalmente incapaz ao forno mas gosto de comer. Exactamente como com a máquina fotográfica. Mas tenho imensas imagens de Moçambique. Não valem pela sua beleza ou pela técnica. Mas são coisas e momentos que me chamaram a atenção. Estou a colocá-las neste álbum. Para quem tenha interesse e/ou paciência. E, em alguns casos, saudades.

 

Fica o convite para lá irem.

publicado às 23:49

Auto-hipnose

por jpt, em 03.04.14

 

 

Os mais novos nem saberão ou lhe darão o verdeiro relevo. Jacky Ickx foi uma enorme estrela do automobilismo, vice-campeão de Fórmula 1 no tempo de Jackie Stewart e também do primeiro brasileiro Fittipaldi. E depois dominador da então prova-rainha, as 24 Horas de Le Mans. De tal maneira foi estrela que Jean Graton o fez integrar a equipa de Michel Vaillant, célebre banda desenhada dos tempos.

 

 

 

Ao longo dos anos de vez em quando aqui resmungo contra o alarmismo, feito de desconhecimento e produtor de desconhecimento, que brota das notícias internacionais (em particular das portuguesas) sobre Moçambique. Como aqui o fiz, face ao descabelado exagero relativamente a uma vaga de criminalidade que ocorreu há meses em Maputo. Mas agora, talvez incoerentemente, venho em sentido contrário.

 

Leio esta desgraçada notícia: a antiga mulher de Jacky Ickx, em viagem de lazer no país, foi violentamente atacada numa estância (aka resort) por um grupo de assaltantes, que à catanada lhe deceparam uma mão. É evidente que o fundamental é o horror da notícia - a senhora foi entretanto operada, recolocada a mão, e muito espero que a recuperação possa acontecer. Pois a medicina actual faz alguns milagres.

 

Mas, e em nada secundarizando o trauma humano, ocorre-me outra linha. A do efeito letal que uma notícia destas terá no turismo moçambicano. Este, dizem-me, já bastante alquebrado, com menores taxas de ocupação nos últimos meses, depois do início dos desmandos da Renamo. E com a situação piorada devido ao eco internacional dos crimes urbanos. Agora esta notícia. Não é a primeira vez que acontecem assaltos nas estâncias balneares, por características locais mais ou menos ermos e quase desguarnecidos.

 

O facto de agora ter sido vitimizada alguém ligado a uma estrela internacional - e super-conhecido num contexto relativamente abonado, particular mercado internacional para o turismo de "resort" na costa moçambicana, virá a ter incidências complicadas para os próximos tempos. Para mais estes acontecimentos encaixam num velho imaginário. A imagem de uma mulher branca só, loura ainda para mais, ferida à catanada por um bando de negros num ermo de África fere mais o imaginário globalizado (sublinho, globalizado) do que um qualquer tipo morto à facada no Rio de Janeiro ou em Roma ou a tiro no Cabo ou Nova Iorque. Alguns poderão torcer o nariz a esta afirmação, dizê-la até racista. Mas não o é, apenas enfrenta imagens que vêm sendo perenes, talvez até subliminares. E particularmente num mundo, mercado, "turista".

 

Em Moçambique a maioria da criminalidade não é mediática, reside nos subúrbios, só é notícia quando é particularmente sanguinolenta ou quando, por vezes, provoca movimentos de justiça popular. E depois há a presente, e crescente, na "cidade-cimento". Se há anos era cíclica (antes das "festas" já se sabia que haveria um incremento) cada vez é mais constante. Esta, do(s) centro(s) urbano(s), é mais mediatizada, pois atinge pessoas e lugares mais próximos dos produtores de notícias. E em particular quando atinge estrangeiros, que não sendo um alvo privilegiado são um alvo visível.

 

Para esta situação, muito desconfortável e até angustiante, as pessoas apontam responsáveis. Aqui vejo uma grande diferença. Não quero entrar em antropologices e muito menos em culturalismos mas boto a minha opinião. O mundo europeu (e sua descendência) é muito marcado pela ideia cosmológica da omnipotência divina, cuja corruptela é uma difusa sensação de macro monocausalidade (ao escrever isto percebo que tenho voltar a ler sobre a teodiceia de Leibnitz). E cuja actualização, em versão laica pós XIX, é a crença no "sistema" (capitalista de Marx, pancrático de Foucault, etc.) como omnipotente causa das (más) acções. Esta sociologia teocrática, espontânea, é muito recente em África, onde as compreensões cosmológicas apelam bem mais às causalidades humanas, uma humanocracia moldada na perspectiva das poderosas articulações entre homens e seus antepassados imediatos. Aquilo que na linguagem vulgar se chama "feitiçaria" mas que não é isso. E que é uma sociologia individualista (um proto-liberalismo radical, se se quiser) espontânea, vigorosa. [E penso-a muito mais "moderna" e assente na crença da racionalidade individual do que a velha teologia europeia, nas suas versões vulgares].

 

Este meu relambório (o blog é um diário, portanto aqui fica este improviso) tem um fito. Se no mundo "ocidental" há a histórica tendência para a crença no tal "sistema" (pós-divindade) causador dos males, aqui há a história tendência para a crença na atribuição individualizada aos males acontecidos. 

 

Estes últimos meses foram angustiantes devido aos acontecimentos no centro e à mediática criminalidade. E contiveram bastante discurso político, pelas eleições acontecidas e pela preparação das próximas. No qual tenho lido muita gente apontando a responsabilidade desta explosão de criminalidade a alguns indivíduos. E, particularmente, ao presidente Guebuza. Por seu turno li alguns, mais defensores do poder actual, criticar a "fulanização" do discurso, no fundo a monocausalidade individualizadora que referi. E vou concordando com esta última posição.

 

Não se trata de tomar partido, de defender ou atacar o poder (não falo de política moçambicana, e não estou a falar de política moçambicana). Mas olhando isto percebo o quanto o meu fundo (teológico, cultural) europeu me marca a interpretação, rementendo-a para dimensões macro ("a mão invisível", o "todo-poderoso", o "sistema exploratório", nomeiem-nos ..). A questão não se prende com os governantes actuais, gostem os leitores ou não gostem os leitores destes ou de outros.

 

O problema, que tem como graves epifenómenos estes mais ou menos sonoros crimes, é a da rapidissima, profunda, até dramática transformação sociológica do país. Que não é má, nem é boa. É. Esta é a problemática, que muito ultrapassa o "dizer mal" do líder governamental, ou dos líderes das oposições. Ou até mesmo da malevolência estrangeira, latina, escandinava, anglo-saxónica, extrema ou mezo-asiática. Insistirmos na "fulanização" (versão individual ou grupal) é uma auto-hipnose.*

 

Como é uma auto-hipnose isto do "onde vais este fim-de-semana comprido", estes dois que aí vêm. Burgueses e expatriados em busca do recôndito balnear. Que não (nos) aconteça algo, é o meu angustiado desejo.

 

*Presumo que haja amigos (e FB-amigos) que me passarão a invectivar como "guebuzista".

publicado às 07:48

Maputo cidade-fantasma?

por jpt, em 07.11.13

 

 

(Postal escrito para o Delito de Opinião, pois blog muito mais lido do que este ma-schamba, em especial em Portugal, sede do jornal Público, abaixo referido).

 

São oito e um quarto (vinte e quinze, como aqui se diz), noite já cerrada, acaba a aula do pós-laboral, saio do "campus" para casa. O meu velho Ssangyong não anda, descontinuada a produção não encontro as peças para os travões, coisa já de há meses, e falta-me taco para comprar outro carro, mas tenho mesmo que comprar um novo, um pequenito, desses japoneses recondicionados que inundaram Maputo (para desespero dos puritanos da esquerda europeia, que compram carros novos a crédito e protestam com a automobilização dos corruptos africanos, a estes dizendo-os traidores às revoluções que vão sonhando lá no sofá e escalfeta do Estado-Providência), a ver se poupo uns 5 mil dólares para isso. Bem, neste lamento estou-me a afastar da "coisa", dizia eu que já são vinte e quinze (oito e um quarto, como se diz aí) e acabei a aula, vou do "campus" para casa. Ou chamo um txopela, que me custa um maço de Peter ou chateio a Inês, exausta a esta hora, para me vir buscar, ou vou a pé, quinze minutos a calcorrear que não me fazem nada mal, coisa que tenho vindo a fazer, necessidade oblige

 

Então lá vou eu, "campus" acima, cruzo a rua de França,  a quase viela a esta hora apinhada de carros e peões universitários, passo o "Macuti" animado como sempre, mas hoje não vou às 2M e moelas, desço a Zimbabwe, estou no Restelo cá do sítio, cruzo as putas de todos os dias, aos já habituais "olá fofo" "vamos dar uma volta" sempre respondo afável (é o meu momento diário de afabilidade) uns "boas noites", "bom serviço", que naquele entre ali me darão um ar de vovô tonto e inofensivo, passo para a Kaunda, carro acima e carro abaixo, sigo pelo Hospital Militar, desço à clínica de Sommerschield, zonas residenciais mais calmas na hora da novela e os cafés já fechados, entro na Kim-Il-Sung, carro à esquerda, carro à direita, e continuo no Restelo cá do sítio, vou falando sozinho, resmungando aulas, compondo argumentos da história empresarial que me ocupa, e que tanto me está a fascinar, mas também hipóteses de postais in-blog e tácticas para o jogo na Luz, amiúde saudando "boa noite, obrigado" aos guardas residentes e a vários transeuntes, alguns tardios do footing outros atrasados ao resting. Acabo em casa, exalando, transpirando ou suando, conforme quem me leia.

 

Depois, já banhado, jantado e dormido, leio que "Maputo é uma cidade-fantasma", pois aqui "o pânico instalou-se", são as teclas de Ana Dias Cordeiro ecoadas no jornal Público (e a esta hora já replicadas por 500 e tal faceboqueiros, nisto do "sharo logo existo" dos dias de hoje). Venho então escrever este postal. Para dizer que é tanga. Não é apenas o habitual desajuste do jornalismo português sobre o país (então o Público tem uma longa tradição, burlesca até, de asneirar sobre Moçambique). Não é apenas isso, repito. Deixemo-nos de coisas, deixemo-nos de merdas, não é só mediocridade, não é só restringir o olhar a uma pequena meia dúzia de compatriotas e botar apressadamente o que julga conveniente botar. É mesmo tanga, mentir para aumentar tráfego no "sítio" do jornal, para vender papel, para mostrar anúncios.

 

Estão os moçambicanos preocupados? Estão, com as escaramuças no centro e norte, com o que se passará nas próximas semanas até às autárquicas, com o preparar do ciclo eleitoral de 2014, com a criminalidade, constante nos bairros urbanos populares, agora re-irrompendo no centro burguês (na "classe média" como balbuciam os "leitores" da sociologia actual, "classe média" de quê?, porram outros). Estão os estrangeiros residentes (os imigrantes e os expatriados) preocupados, até alarmados? Estão, bastante. Está este jpt, bloguista, ainda por cima residente apeado, angustiado, de cenho (des)armado? Está, estou.

 

Mas não há pânico nestes 2 milhões e tal de pessoas. Nem são elas, somos nós, almas penadas numa cidade-fantasma. Nem de dia. Nem de noite, ainda que a esta faltando a miríade de neons que iluminam a crise despesista da "classe média" (classe média de quê?, porra!) que lê o Público.

 

Adenda: há uns dias disse que me blogo-calava, que isto não estava para isto. Mas, pensando melhor, não me apetece.

publicado às 10:20

A Gala e o discurso de Mia Couto

por jpt, em 26.10.13

 

Jantamos em casa de amigos chegados. Deixámos a filha em casa, ainda que esta ande preocupada com a guerra da Renamo e ainda mais com a vaga de raptos, assunto que lhe preenche os constantes sms, esse tique de geração, pois são estes visões que lhe invadiram o quotidiano, mães e colegas raptados, uma escola que está agora rodeada de guardas de coletes à prova de bala e shotguns na mão, um ambiente que não pode passar desapercebido aos putos, que os aflige. A meio do nosso jantar avisa por telefone que houve corte de electricidade, estes cada vez mais constantes, mergulhada ficou no luz de velas, ela ainda num cedo demais para lhe dar conteúdo romântico. Passado um pouco rebentam as explosões, há um solavanco à nossa mesa, ainda que estejamos ali num convívio bem-disposto. Entreolhares e sou eu, como se veterano, ainda que ali abundem os donos da terra, que afirmo ser fogo-de-artifício. Como continuam as longínquas rajadas espreguiço-me, como quem não quer a coisa, e vou à janela de onde nada vejo. Telefono a pedir informações sobre o que se passa, colhendo um "é a gala da Vodacom" entre sorrisos audíveis pois, dizem-me, há imensa gente a entre-telefonar-se por causa disto. Logo depois toca-me o telefone, é a filha de novo, em pânico com os tiros. Afianço-lhe que é festa, que não se preocupe, digo-lhe para ficar na cama que é vespera de aulas. Ela pede-nos para regressarmos a casa. Ríspido nego-me a isso, é apenas uma festa. Desliga e eu regresso ao copo de 2M. Vejo que a estou a tratar como se fosse o terceira linha da selecção junior de râguebi de Gales, esse que não tive como filho. Interrompo o belo peixe e as deliciosas beringelas fritas, abandono a conversa num "já venho ...". Atravesso o bocado de cidade, para sossegar a princesa, nos seus desamparados 11 anos. Quando regresso à mesa ela sorri, já descansada. No dia seguinte diz-me que entre os colegas todos comentaram o assunto, todos se assustaram, todas as famílias também. 

 

Fico a pensar, um pensar mudo, qu'isto do Diamantino (Miranda, como aqui é conhecido) veio sublinhar a prudência do silêncio imigrado. Mas fico a pensar que grave nas sociedades é quando há fracturas, hiatos, entre os grupos, incompreensões e, mais do que tudo, insensibilidades. E pior ainda quando os hiatos apartam as elites socioeconómicas do grande povo. Nem são malevolências ou ideologias, muitas vezes vêm de diferentes sociabilidades, as pessoas, nós, vivemos em pequenos comités, não nos apercebemos desse em torno muito global. Pois apenas uma enorme distância, uma insensibilidade, conduz a uma gala com fogo-de-artifício num altura destas, uma cidade de cimento acabrunhada com as ameaças de extorsão, os constantes raptos. E a longínquos combates. Dever-se-á parar a vida?, os festejos? Não, com toda a certeza. Mas será necessário assustar os vizinhos?, esquecer-lhes os estados de espírito?

 

Mia Couto esteve presente nessa gala. E fez este discurso. Para além dos dotes literários é um cidadão empenhado e corajoso. Mais uma vez o comprova com este exercício de cidadania:

 

 

        Mia Couto, 25-10-2013


"Pensei bastante se estaria ou não presente nesta cerimónia. A razão para essa dúvida era a seguinte: há três dias a minha família foi alvo de várias e insistentes ameaças de morte. Essas ameaças persistiram e trouxeram para toda a nossa família um clima de medo e insegurança. A intenção foi-se revelando clara, depois de muitos telefonemas anónimos: a extorsão de dinheiro. A mesma criminosa ameaça, soubemos depois, já bateu à porta de muitos cidadãos de Maputo. 

Poderíamos pensar que essas intimidações se reproduzem a tal escala que acabam por se desacreditar. Mas não é possível desvalorizar este fenómeno. Porque ele sucede num momento em que, na capital do país, pessoas são raptadas a um ritmo que não pára de crescer. Esses crimes reforçam um sentimento de desamparo e desprotecção como nunca tivemos nos últimos vinte anos da nossa história.

Esses que são raptados não são os outros, são moçambicanos como qualquer outro cidadão. De cada vez que um moçambicano é raptado, é Moçambique inteiro que é raptado. E de todas as vezes, há uma parte da nossa casa que deixa de ser nossa e vai ficando nas mãos do crime. Neste confronto com forças sem rosto nem nome, todos perdemos confiança em nós mesmos, e Moçambique perde a credibilidade dos outros. Esses sequestros estão nos cercando por dentro como se houvesse uma outra guerra civil, uma guerra que cria tanta instabilidade como uma qualquer outra acção militar, qualquer outra acção terrorista. 

Este é um fenómeno que atinge uma camada socialmente diferenciada do nosso país. Mas o mesmo sentimento de medo percorre hoje, sem excepção, todos os habitantes de Maputo, pobres e ricos, homens e mulheres, velhos e crianças que são vítimas quotidianas de crimes e assaltos. 

Eu falo disto, aqui e agora, porque uma cerimónia destas nos poderia desviar do que é vital na nossa nação. Não podemos esquecer que o nosso destino colectivo se decide hoje sobretudo no centro do País, nessa fronteira que separa o diálogo do belicismo. E todos nós queremos defender essa que é a conquista maior depois da independência nacional: a Paz, a Paz em todo o país, a Paz no lar de cada moçambicano. 
Se invoquei a situação que se vive hoje em Maputo é porque outras guerras, mais subtis e silenciosas, podem estar a agredir Moçambique e a roubar-nos a estabilidade e que tanto nos custou conquistar. 

Caros amigos 

Estamos celebrando nesta Gala algo que, certamente, possui a intenção positiva de valorizar o nosso país. Mas para usufruirmos o que aqui está a ser exaltado, as melhores praias, os melhores destinos turísticos, precisamos de saber o ver o que nos cerca. Na realidade, e em rigor, o melhor de Moçambique não pode ser seleccionado em concurso. O melhor de Moçambique são os moçambicanos de todas etnias, todas as raças, todas as opções políticas e religiosas. O melhor de Moçambique é a gente trabalhadora anónima que, todos os dias, atravessa a cidade em viaturas transportados em condições que são uma ofensa à vida e à dignidade humanas. 

O melhor de Moçambique são os camponeses que embalam à pressa os seus haveres para fugirem das balas. O melhor de Moçambique são os que, mesmo não tendo dinheiro, pagam subornos para não serem incomodados por agentes da ordem cuja única autoridade nasce da arrogância. 

O melhor de Moçambique são os que anonimamente constroem a nação moçambicana sem tirar vantagem de serem de um partido, de uma família, de uma farda. 

Os melhores de Moçambique não precisam sequer que os outros digam que são os melhores. Basta-lhe serem moçambicanos, inteiros e íntegros, basta-lhes não sujarem a sua honra com a pressa de se tornarem ricos e poderosos. 

Os melhores de Moçambique não precisam de grandes discursos para acreditarem numa pátria onde se possa viver sem medo, sem guerra, sem mentira e sem ódio. Precisam, sim, de acções claras que eliminem o crime e a corrupção. Porque a par deste galardão que distingue o melhor de Moçambique há um outro galardão, invisível mas permanente, que premeia o pior de Moçambique. Todos os dias, o pior de Moçambique é premiado pela impunidade, pela cumplicidade e pelo silêncio. 

Caros amigos, 

Disse, no início, que hesitei em estar presente nesta gala. Mas pensei que me competia, junto com todos vocês, a obrigação de construir um evento que fosse para além das luzes e das mediáticas aparências. Nós queremos certamente que esta festa tenha uma intenção e produza uma diferença. E esta celebração só terá sentido se ela for um marco na luta pela afirmação de valores morais e princípios colectivos. Para que a nossa vida seja nossa e não do medo, para que as nossas cidades sejam nossas e não dos ladrões, para que no nosso campo se cultive comida e não a guerra, para que a riqueza do país sirva o país inteiro. ''


publicado às 17:16

Facim 2013: Niassa

por jpt, em 02.09.13

 

A tradicional Facim (Feira Internacional de Maputo) decorreu na passada semana. A azáfama do costume, ao que me dizem os auto-mártires que têm a santa paciência para se deslocar a Marracuene. Mas é a grande mostra económica do país, compreende-se a vontade dos maputenses.

 

Entretanto um teclado amigo enviou-me estas fotografias. Tiradas no stand do Niassa. Lá estão as peles dos animais, que urge extinguir. E as presas dos elefantes (na foto abaixo outras presas com a indicação do peso, não vá o passante julgar-se enganado).

 

Enquanto os animais vão sendo chacinados a representação do Niassa na "Nação" acha que é este o património que deve mostrar. Para quê comentar? As pessoas, realmente, acham que é assim que deve ser.

publicado às 08:50

O Primado da Fonética

por jpt, em 14.08.13

publicado às 15:40

Ao Balcão da Cantina (31)

por jpt, em 14.08.13

 

O meu texto desta semana no "Canal de Moçambique"

 


Com Alexandria

 

1. No passado sábado grupos autodeterminados de “vigilantes”, populares mobilizados para defesa diante do anunciado grupo G20, massacraram seis pessoas em Maputo. Uma das vítimas foi o escultor Alexandria, homem a quem conheci e admirei, e a quem fiquei devedor, agora irremediavelmente, da visita ao seu espaço para discutirmos o seu actual trabalho, um convite seu várias vezes repetido nestes últimos meses. A mágoa com a desgraça ocorrida é, se possível, aumentada pelo absurdo da situação.

 

Artista, jovem nos seus 35 anos, pai de família, homem pacífico, espírito complexo e inquieto a expressar-se na sua obra, mas também dono de um sorriso desarmante na sua candura, brotado nos intervalos dos seus debates internos, Alexandria provinha de uma estirpe de artistas, filho e sobrinho, respectivamente, dos reconhecidos escultores Simões e Govane, e também familiar do renomado Pekiwa e ainda do precocemente falecido Cabaça. Assim sendo poder-se-á dizer que este atentado atingindo a sua linhagem fere o núcleo central da actual expressão escultórica no país, em particular a do Sul – e tão identitária tem ela sido no processo nacional.

 

Admirado nacionalmente e já abrindo caminho para a internacionalização do seu trabalho, Alexandria articulou o seu trabalho com as perspectivas que vêm sendo desenvolvidas na sua geração, reconstruindo tradições, a técnica, a temática, a discursiva. Com particular enlevo recordo as reconfigurações do tradicional pictórico das esculturas deste sul e, nestes últimos tempos, até a ideia da escultura colectiva, e das mesclas de materiais, em particular da madeira com o metal. Convivendo com o topo da sua geração, tanto dele albergado no Núcleo de Arte, teve ainda cruzamento de obras com Gonçalo Mabunda, porventura o escultor moçambicano de maior prestígio internacional actual.

 

Acredito que é nas expressões artísticas que as sociedades transmitem e reconfiguram o seu passado fazendo-o transitar até ao futuro, e a este constroem – muito mais do que em colectâneas de discursos ou em textos programáticos. Assim sendo, e por tudo o que venho afirmando, esta desgraça acontecida fere também o núcleo desta geração de produtores de presentes a legar, de moçambiques. Ou seja, fere o futuro.

 

Estamos habituados a que, por esse mundo e por toda a história, os artistas, inquietos, reconstrutores, inventores, nisso desobedientes, sejam cerceados e quantas vezes encerrados, pelos poderes, Estados e outros poderosos. Quantas vezes assim se tornando mártires, até exemplos para os seus povos ou mesmo, quando a tal lhes chega a grandeza, para a humanidade. Mas não é este o caso, pois Alexandria, o jovem Alexandria, foi martirizado, espancado, assassinado, desmembrado, pelo seu próprio povo. E por nenhuma razão objectiva, apenas por uma enorme confusão. Que gigantesco absurdo.

 

2. Que sentido para tudo isto, para a morte de Alexandria, e para a morte de outros cidadãos apanhados pela torrente da fúria dos auto-nomeados piquetes? Que nos últimos dias patrulham as áreas residenciais, temerosos do famigerado grupo ladrões violadores sádicos, pedófilos e bissexuais, que anunciam a sua visita às zonas e depois queimam com ferros de engomar as suas vítimas. Correm inúmeros rumores de crimes acontecidos, mas ainda não comprovados. Boatos alimentados pela enorme criminalidade efectivamente existente, a qual disparou este rizomático discurso popular e imediatas teorias da conspiração, que apontam responsáveis políticos (do poder ou da oposição) e/ou policiais para os crimes acreditados. Nisto o temor disseminou-se, anunciando-se pânico. E a "justiça popular" (re)instalou-se na cidade.

 

E certo que esta vaga de crenças, práticas e rumores, indicia um caldeirão social fervilhante, uma gigantesca desconfiança nas instituições também, e um profundo mal estar popular. E, na base, uma enorme sensação de insegurança, de desconfiança face ao presente e ao futuro. A própria simbologia anunciada, este "passar a ferro" das vítimas, será matéria para as fáceis leituras metafóricas, a dizerem um povo a querer significar o facto de estar "espalmado", "queimado", devastado, por um real incerto e supra-esmagador de tão duro que vai. E assim desumanizador, "coisificador" da vítima - pois apenas objectos são passados a ferro, nisso destruidor das identidades individuais.

 

Tudo lembra a crença no "chupa-sanguismo", nos anos 1990s. E também, ainda que então alimentada por alguns casos reais, ligados a práticas feitícicas, a vaga de acusações de “tráfico de órgãos” na década passada. E se a crença no vampirismo não colheu grande impacto nas classes médias e nos palcos internacionais, já esta última, pela sua parecença facial com as práticas da indústria médica, foi mais aceite, tanto no “cimento” citadino como no estrangeiro – recordo ainda reportagens de jornais portugueses e ainda a novela, que até chegou a ser premiada em Portugal, “Niassa” do jornalista Francisco Camacho, os discursos inebriados com o aparente exótico.

 

Também nesses casos as simbologias presentes nas crenças apontavam para a “coisificação” (entenda-se, desumanização) das vítimas, espoliadas da sua energia vital, órgãos ou sangue, pelas práticas mercantis/canibais de quem tinha poder para o fazer, tal como agora o são da sua pele (queimada) e da sua sexualidade (violentada). Isto é simpático nas leituras apressadas destes discursos sociais, mais nos “engajados” nas aparentes “boas causas”. Que nisso reduzem estes discursos populares a meras críticas aos poderes, aos poderosos que vitimizam, expropriam. Convirá algum detalhe nestas análises, perceber que estas invectivas não são apenas contra os “outros”, pérfidos “xingondos”, mas muitas vezes são também dirigidas ao próximo mais próximo. O que deslegitima tais leituras mais superficiais, as da crítica ao poder.

 

3. Como pensar este horror agora acontecido, o dos linchamentos? Apelar a algo muito diverso do que tem vindo a ser corrente ouvir no quotidiano moçambicano, seja no “povo” seja na “classe média”, demasiado habituado à violência (veja-se como já é quase rotineira a recepção de notícias dos mortos causados pelas forças da Renamo), e também demasiado descrente na firmeza dos sistemas policiais e judicial. Convém recordar William Blackstone, o influente jurista e político britânico de XVIII: “mais vale que dez culpados escapem do que um inocente sofra”. E associemos isso ao que disse o sociólogo alemão Max Weber, aquilo de que é o “Estado que detém o monopólio da violência legítima”. Sim, apesar de todos os defeitos que os Estados apresentam, das manipulações e apropriações que sofrem, mesmo em democracia.

 

E nesse sentido olhe-se esta “vigilância popular” não com uma simpatia compreensiva. Pois tentar compreender a acção social não é simpatizar com ela. E enfrentá-la. Compreendendo-a. Percebendo que os piquetes linchadores são o mal. Horrível.

 

Gritaram-no Alexandria e os outros falecidos. Gritemo-lo.

publicado às 08:05


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