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Ideologias e processos eleitorais

por jpt, em 23.09.15

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 Drew Dernavich, The New Yorker

 

Abaixo coloquei postal sobre ideologias. Até porque nunca comprei a tralha fedorenta e infecunda daquilo do "fim das ditas". É certo que a gente não tem o dever da super-coerência - aliás acho que temos é o dever da incoerência, isso de não fazermos obrigatoriamente concordar o que pensamos sobre as diversas áreas do acontecer, de nos desenvencilharmos dos dogmas sistémicos. Por isso me custa, e ainda mais em período eleitoral, ver os perorões da social-democracia, e os dos múltiplos (nada pós)marxismos e nisso aqueles da democracia participativa (o avatar actual dos amantes da ditadura das "vanguardas"), e também os da democracia-cristã tão fraterna e respeitadora sempre se quer, e ainda os dos sindicalismos mais-ou-menos corporativos, esquecerem tão sonoras afrontas aos direitos dos trabalhadores, às liberdades dos indivíduos, isto de se escolher onde se quer trabalhar (e viver) respeitando os contratos firmados segundo a lei e sob o livre-arbítrio. Afrontas essas, ainda para mais, tão disseminadas ("inculcadas" dizia-se antes) por essa sobre-máquina actual de fazer pensar, o futebolismo. Vê-se isso continuamente, as coerções psicológicas, morais, exercidas pelo patronato (ok, pelas empresas futebolistas), vê-se agora no Sporting com Carrillo. Mas de todos esses palradores, sempre tão cheios de ideias e até ideários sobre o país e mesmo o mundo, os que me custa mais ver tão calados sobre estas aparentes minudências, pois pensadas como apenas "coisas da bola", são os (ditos) liberais, esta tão difícil maneira de ver e fazer o mundo. O Pedro M., velho amigo e leitor do blog, percebeu bem o meu resmungo. E mandou-me este cartoon. Um verdadeiro manifesto, aquela coisa de uma imagem com arte e inteligência valer mais do que o apenas perorar princípios inseguidos. Nestas épocas de voto apenas ... vinagres para apanhar moscas.

publicado às 12:01

O fascismo

por jpt, em 18.09.15

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Paulo Querido, jornalista e veterano bloguista, o homem do falecido weblog.com.pt ao qual o ma-schamba tanto deveu nos seus tempos iniciais, teve ontem um postal abjecto, dizendo que o actual governo português é mais radical do que qualquer um dos de Salazar. O fascismo, cuja intensidade Querido no seu favoritismo aos "socialistas craxianos" desvaloriza e assim goza, existiu, vigoroso e doloroso. O desnorte deste tipo de argumentação mostra bem ao que vêm os das linhas atrasadas deste novo poder, sedento das aleivosias em que vive viciado. Querido, ao longo dos últimos anos, campanheia pelo PS incessantemente, é um direito que tem. Cruza hoje, deste modo, o Rubicão e em armas. A pena é conhecida. E necessária.

 

Mas este lixo demagógico também obscurece o novo fascismo, possidente, que está no seio da nossa sociedade. Dirão que confundo coisas, mas nada disso, apenas aponto a distracção alheia: habita (também) no meu Sporting, nesse mundo do futebol que tanto impregna o sentir e pouco-pensar do país. Pois isto de um homem ter um contrato laboral a termo certo e de não o querer renovar implicar que não tem direito a trabalhar é uma pura regressão à servidão, uma total violação da democracia. É o que acontece com o jogador Carrillo, diante da aceitação generalizada da sociedade portuguesa, encerrada na mediocridade merdal em que vegeta. Em linguagem moderna isto é o fascismo. E é o hábito no futebol, esse onanismo satelizado pela política. Vive hoje, agora mesmo, no Sporting e leva a cara de Bruno de Carvalho. Assim vil.

 

Saber viver livres dos craxianos (e dos seus cipaios) e dos fascistas (agora carvalhescos, amanhã outros) é um exercício difícil. Mais do que não seja porque um tipo acaba sozinho, a falar (teclar) para ninguém. E sempre enojado. Morrendo só. E sem os empregos e subsídios a que os cipaios das teclas aspiram.

publicado às 03:07

X

por jpt, em 15.08.15

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Hoje mesmo, sábado, cruzarei o Tejo na via do sul, buscando este "O Sol da Caparica", festival musical. Coisas de ser pai, em função de acompanhamento (escolta, se se quiser), a aproveitar, sôfrego, estes últimos tempos enquanto a mariposa não voa para o definitivamente longínquo. Tremo, um pouco, com o que acontecerá, com o que me acontecerá, pois o último festival de Verão a que fui foi a Festa de Avante, ali pelos 1982-3, talvez mas só talvez um ou outro ano depois, aqueles tempos em que aquilo conjugava gerações, a gente aterrava ali a beber durante três dias (e a fumar que se fartava, vá lá, que também era verdade), a "camaradar" toda a gente e os mais velhos dali, os camaradas mesmo, aqueles voluntários dos pavilhões regionais a rirem-se dos nossos "camarada" e nisso a serem camaradas, no servirem ajudarem às cervejas e comes, para nos manterem em pé, e mesmo assim nós por vezes a desconseguirmos ... Nisso a gente, em tempos tão diversos, via pavilhões do mundo inteiro (o comunista, claro) e do resto do país, nestes com os petiscos locais, jogava-se xadrez com os macro-grandes mestres soviéticos e ouviam-se inúmeros músicos de todos os lados, desde os desconhecidos, e alguns que músicos!!!, e os Dexys Midnight Runners (que concertão), aquele Chico Buarque (no apogeu!!, ainda que trémulo por questões lá dele, biográficas), o Manu Dibango (Manu Dibango em Lisboa naquele tempo?), o rock celta então em voga, proto-etnomusic, o Ivan Lins provavelmente no melhor concerto da sua carreira (com a belíssima mulher de então, uma loura Lucinha a alumiar Lisboa), Jorge Pardo, o fantástico "corno" de Paco de Lucia, num pavilhão menor numa actuação inesquecível da qual nada recordo, Makeba sem eu saber quem era Makeba, o gigante Luis Gonzaga diante de uma audiência que não o sabia ouvir, Charlie Haden a enfrentar um público estupefacto e também Max Roach, e tantos outros, ali todos os anos polvilhados pelo discurso quase final do camarada secretário-geral, o grande Cunhal. Foi mesmo isso que me acabou ali, no cruzar a chegada aos 20, a azia, enorme, de ver que nenhum Godinho ou Vitorino, sempre cagões - e ainda hoje - com a puta da liberdade na boca, como se dela fossem arautos, dedicava alguma canção, pequena que fosse, àquele Sakharov então sob custódia, e das duras, que o Ary dos Santos, poeta histriónico gritador de poemas diante de milhares, nunca lembrava os homossexuais perseguidos (e bem fodidos) nos países lá deles. Um dia, sei lá quando, mas depois dos The Clash no Dramático de Cascais, irritei-me mesmo com a merda do público a cantar o hino nacional (sim, o bacoco "às armas") de punho direito erguido e, foda-se, nunca mais lá fui. Os gajos, mesmo aquela turba simpática, o povo d'aquém e além-Tejo, eram, e mesmo sem o saberem, pobre gente alienada (como dissera o tal Marx), o inimigo. Vil. Segui para outros concertos, mas nunca festivais.

 

Volto agora à turba, decerto que para um canto do olho (e quão apaixonado!) na filha, outro no palco. E vou triste, pois sigo, reparo hoje, desarvorado, nem uma t-shirt dos Xutos tenho, e é dia deles. Irei assim quase nu. E comportando-me, que sei ser vedada à paternidade os excessos naturais diante do obrigatório, do obrigatório apenas para mim, os "meus", talvez coisa de geração. Irei pois como se pai mas já hoje preparo os antebraços para o mítico, cultual, "X", que se o punho nunca ergui aos antebraços ainda o farei, cultuando esses que ouvi quando tocavam com uns tais de "minas e armadilhas", que terei feito no mítico 31 de Julho no Rock Rendez-Vous, a gravação de um "live" que nunca existiu, há mais de 30 anos, isso porque véspera do "1 de Agosto", dia de "sacola às costas, cantante na mão", e que fiz, ali quase-só, que só o grande Hernâni me acompanhava naquele mar de gente espantada, em Maputo em 1999 e nunca mais, pois que nunca mais os vi. Vou, cultuar, agora pai mas amanhã filho, homem, para gritar "Contra tudo lutas. Contra tudo falhas. Todas as tuas explosões. Redundam em silêncio", o verso da música portuguesa .... E quem o segue, ao verso, ao resto, ao destino, é "quem já nada teme".

 

Porque, afinal, a tal liberdade é isto, se calhar só isto, o amarfanhado jogo dos riffs. E da desesperança, mesmo que mitigada .., isso do "a vida é sempre a perder" mesmo sabendo que nenhum de nós é "um caso isolado", nem o "único a olhar o céu", porque "quando as nuvens partirem ... vais(vamos) ver o sol brilhará" ...

 

XXXX

 

publicado às 03:30

Em português nos entendemos?

por jpt, em 09.08.15

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No mês passado a minha adolescente filha foi a um festival musical lisboeta, o NOS Alive, um evento caríssimo ao qual acorreu uma multidão - fui buscá-la no final, vi a mole humana a dispersar. Ela gostou muito. Eu só vi bilhete e respectivo material adjacente, que aqui reproduzo.

 

Lisboa 2015, uns protestam com o AO90 outros não, uns com uns cartazes políticos outros não, uns com o Jesus ou o Lopetegui outros não, uns com o euro outros não. Entretanto as empresas trabalham, vendem e publicitam em espanhol (antes dito castelhano). E a gente nem repara nem resmunga. "À gargalhada no comboio descendente"?

 

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publicado às 16:07

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Sou algo ambivalente face a Jorge Sampaio. Por duas vezes apanhei-o em visita a Moçambique quando era ele presidente da república e deixou muito boa impressão. E é um grande sportinguista. Mas, por outro lado, não consigo esquecer dois momentos da sua presidência, pérfidos: quando abjurou a constituição que tinha jurado defender, e aceitou a coligação disfarçada PS-CDS, aquela aldrabice feita por Pina Moura e Paulo Portas (o que deveria ter sido suficiente para ser ele apeado de Belém, o "impeachment" como dizem os televisivos); e quando foi dar um abraço ("em nome da amizade") ao autarca socialista corrupto da Guarda - e talvez tenha sido essa sua hierarquia (o apreço pela amizade acima da aversão à corrupção) que provocou o seu silêncio durante o consulado socrático, pois ninguém pode imaginar que a elite socialista não soubesse da trapalhada imunda do grupo do poder. Mas, ainda assim, tenho algum apreço pela sua figura. Talvez pelo já referido sportinguismo.

 

A ONU acaba de lhe atribuir o prémio Mandela, de periodicidade quinquenal, instaurado no ano passado e agora concedido pela primeira vez, destinado a quem tenha relevantes empresas em defesa dos objectivos das Nações Unidas. É, e não só pelo nome do galardão, uma grande honraria. Os motivos da atribuição chegam nas notícias: o serviço na luta contra a tuberculose. E o apoio ao acolhimento português aos refugiados sírios. Coisas e feitos verdadeiramente muito elevados, que esmaecem aquele meu relativo desagrado, vindo da tal plasticidade face aos desmandos do seu partido.

 

Mas mais do que o prémio interessam-me os ecos que ele tem (ou não tem) no país. Pois vem na sequência do acontecido na passada semana: Portugal foi escolhido pelo MIPEX como o 2º melhor país relativamente às práticas de integração de imigrantes, após a Suécia. Ou seja, em duas semanas seguidas as capacidades e as políticas do país, e das suas instituições estatais, em receber imigrantes e refugiados são rasgadamente elogiadas no estrangeiro.

 

Percorro os blogs mais "à esquerda", os murais-FB dos mais militantistas, entre os quais muitos do meus colegas - sempre prontos a criticar o "poder" e os "burocratas" do Estado, o racismo ímplicto e explícito deste e dos seus membros - , e também os jornais. Eco disto? Nada ou muitíssimo pouco. Pois o que lhes interessa é "denunciar" os males, apontar o "racismo" e até o "fascismo" do Estado e dos seus agentes apoiantes. Submersos numa auto-crítica constante, uma autofagia lusa, desbragada. Um impensamento, até desonesto, que nada seria se não fosse um facto: muitos dos seus locutores são remunerados pelo Estado. Para caricaturar as instituições. E para não reflectirem. Só isso. Pois não é nada "sexy" dizer bem .... o elogio e o reconhecimento são vistos como defeitos.

 

publicado às 17:50

Bruno

por jpt, em 05.06.15

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No final de 2013 bloguei que o Bruno (de Carvalho) era a personalidade do ano. Pelo pontapé (por via democrática, através de eleições) que dera na imunda mescla banca-construção civil, de "classe média-alta" (a aparente elite), essa "que vampirizou o país" e também o próprio Sporting. Um exemplo para o país, pensei e penso.

 

De então para cá tenho gostado deste presidente do clube de que sou adepto (e de que fui sócio até ao binómio Santana Lopes / Roquette ter iniciado a devastação do  clube). Do que mais gostei não foi de Jardim ou Marco, ou Nani ou dos títulos nas "modalidades". Foi mesmo da oposição aos "fundos" no futebol - esses que os imbecis defendem entre arrotos e caracóis, eles próprios depois lamentando-se da "crise" e do desemprego em que vegetam ou vêm os seus vegetar. Numa Europa adornada e num capitalismo (economia de mercado, como dizem os parvos) desaustinado essa é uma posição esclarecida (e ética). E única neste país dos tais comedores de caracóis que, entre a flatulência, não aprende nada com o passado recente. Veja-se, como exemplo, que a Fidelidade e a Multicare foram vendidas a um fundo chinês. E a Tranquilidade a um fundo americano, no meio de cânticos de apoio da massa adepta nacional. Ou seja, o Bruno tem pensado mais e melhor do que a "moldura humana" e tem sido melhor do que a "elite" local.

 

Dito isto: despedir alguém (ainda para mais nos tempos que correm, de tanto desemprego e de tantas punções sobre trabalhadores por conta de outrem e ex-trabalhadores reformados) é uma coisa muito séria. E despedir alguém (ainda que trabalhador com salários privilegiados) invocando motivos espúrios como "justa causa" é algo inaceitável.

 

O resto é bola. Não interessa a ponta de um corno. A não ser aos imbecis.

publicado às 09:08

Que dizer?

por jpt, em 02.06.15

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Uma mui querida amiga, lá no Porto (como é óbvio), envia-me esta fotografia. Que dizer?, a cada um a sua elaboração, especulação, extrapolação  .... Não, não sacralizo um pano. Sim, prefiro um país onde um tipo (um skipper, termo contemporâneo que substituiu os arcaicos arrais ou comandante) deixa isto ao vento sem ser preso.

 

Mas, raisparta, e sem metáforas ou metonímias (a cada um a sua, já o disse), não podiam multar quem deixa isto assim? No mastro, na janela, na antena, seja lá onde seja. Afinal é símbolo ...

publicado às 09:57

Lisboa é maningue nice?

por jpt, em 01.06.15

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Como referi antes visitei Lisboa recentemente, mostrando alguns lugares mais simbólicos ou típicos à minha filha. Junto ao castelo, como mostro aqui, e por todo o lado se encontra este esterco visual, sempre permitido - e até acarinhado - pelas autoridades populistas que gerem a cidade. 

 

Esta desinteria colectiva, que faz feder a cidade, é também acarinhada nos meios intelectuais. Por um lado os fiéis da igreja "inscricionista", popularizada na década passada por um best-seller de José Gil - os portugueses têm medo de inscrever, disse, e então tocou a borrar ... E por outro lado, muito devido à complexidade da trama conceptual dedicada ao fenómeno artístico, entre quem não consegue entender a diferença entre expressão artística, expressão e mera flatulência. Há ainda quem pense que o direito fundamental da liberdade de expressão consiste na possibilidade de garatujar tudo o que (não) mexe ... Há ainda os que se dedicam a reflectir sobre a ínfima minoria destes miasmas, produzidos por sectores estudantis dos organismos partidários, chamando-lhes fenómenos espontâneos e atribuindo-lhe, por isso mesmo, relevância sociológica. É uma aldrabice, claro, mas quando debruada com galões académicos é muito bem aceite.

 

Na prática esta permissividade corresponde ao exercício mais reaccionário da sociedade urbana portuguesa actual. Pois é a  promoção da ideia da infantilização do cidadão locutor - que "fale" ele (se exprima) por onamatopeias visuais ou, vá lá, com grunhidos algo compostos. E também da selvajaria dos núcleos impossidentes, que vivam eles neste mato visual, desprovido de regras. Ficando o resto, o "limpo e ordenado", para a nata deste creme.

 

Entretanto os intelectuais jornaleiros "reflectem" e aplaudem.

 

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publicado às 12:41

O fundo do desemprego é para isto

por jpt, em 19.05.15

 

Já toda a gente terá visto o filme (passou nas televisões, no youtube tem milhões de visitas). O civil adulto mais novo é do Benfica, um defeito muito generalizado em Portugal, e está ali com o pai (ou sogro) e com os seus petizes, todos nos mesmos propósitos, a pretexto de uma qualquer festividade.

 

O oficial da polícia (subcomissário, julgo que equivalente a tenente), irrita-se com ele - diz que foi cuspido (algo que, obviamente, merece mesmo que a priori). Não o detém, como deveria fazer em caso dessa afronta - apesar de ser ele próprio, mas porque está fardado -, e calmamente pois ali rodeado de tantos dos seus homens. Atira-o ao chão, arreia no bastante mais-velho que, reflexamente, procura ajudar o filho (ou genro), e logo regressa ao objecto da sua ira. Este no chão, e porque é homem corajoso, a primeira coisa que faz, descurando-se, é tentar afastar o filho mais novo dali. Mas é agarrado por trás, pelo pescoço, içado e logo atirado ao chão por um outro profissional da "ordem pública" (um tipo mais novo, armado, em forma física) enquanto o oficial saca do bastão e lhe bate, ele deitado por terra, rodeado e indefeso. Um dos filhos, criança, chega a juntar as mãos, implorando pelo pai, o outro mais pequeno é afastado e protegido por outro polícia (vá lá, não são todos malucos estes agentes).

 

São este tipo de imagens que provocam aquelas cíclicas ondas de violência nos EUA, a deixar cidades a ferro-e-fogo. Vá lá que por cá as coisas acalmam. Mas fica a óbvia conclusão: o fundo de desemprego existe (também) para isto. Para não deixar cair a família deste futuro ex-oficial da polícia na mais tétrica das indigências.

publicado às 09:33

A propósito da Gulbenkian

por jpt, em 18.05.15

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Leio a correr umas coisas no jornal Público sobre alguns acontecimentos na Gulbenkian, mais sobre as malevolências coloniais da mentalidade dominante na Gulbenkian e noutras instâncias culturais privadas portuguesas e mais sobre a censura ao livro do Kannemeyer e mais sobre não sei bem o quê que afastou quem lá deve estar ou o que lá deve estar ou qualquer outra coisa que não percebo lá bem o que é ... só que alguém anda chateado com alguém e que há nisso sempre grupos de apoiantes.

 

E lembro-me de há cerca de uma década quando andei a apagar fogos lá em Maputo, a convencer os justificadamente irados amigos, tratados como se lixo fossem, a não romperem com aquilo que agora guincha em Lisboa ser muito  moderno e progressista. E também me lembro de nojo que me transmitiram quando um muito importante pacóvio português por lá passou a inaugurar uma grande exposição, a vomitar desprezo em formato "vocês precisam de um branco para montar as coisas". E lembro-me bem de como tentei explicar o que se passava: "tens que compreender o que é um paneleiro de lisboa", os ademanes e nojices que expele o referido "género". Vá lá, compreenderam e lá - por interesse mútuo - se fizeram as coisas "lusófonas" que os "modernos" e "progressistas" de Lisboa queriam fazer.

 

São estes "bem-pensantes" que agora dançam can-cans, canibalizando os Kannemeyers para usarem nos seus interesses privados, e gritando "colonos" aos outros. A gente envelhece e ri-se. As décadas passam e a m... lisboeta é a mesma.

publicado às 02:19

Piketty em Lisboa

por jpt, em 27.04.15

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Georges Blind, A Member Of The French Resistance, Smiling At A German Firing Squad, 1944

 

O conhecido economista Thomas Piketty fala hoje na Gulbenkian (a sessão está agora mesmo a decorrer). Algumas pessoas, que me são muito próximas, avisam-me disso, esclarecem-me sobre de quem se trata (vira o seu afamado livro "O capital no século XXI" nos escaparates mas não lhe reconheci o nome). Nisto acordei que lá iria, e que jantaria depois com alguns amigos.

Entretanto vou à internet ver do que se trata.Logo me surge a notícia de que Piketty se encontrou hoje com António Costa. Passo atrás, o meu, logo prevejo um pacato (ou talvez não) comício ali à Av. de Berna. Não estou disponível, francamente. Ainda que esta semana tenha lido uma breve declaração que muito me animou: Trigo Pereira, um dos autores do recente documento programático socialista, diz que "O plano (o tal) não funciona se o PS mantiver a cultura que teve no passado". Dá alento que um colaborador de peso diga isto. Certo que o seu destino deverá ser o dos costumados independentes do início dos ciclos de poder - ou se adaptam ou saem logo (lembram-se do primeiro ministro das finanças de Sócrates?). Não creio que um partido possa mudar de "cultura" (seja lá isso o que for) quando a nova direcção ascende num congresso após a prisão do seu amado (e elogiado) ex-líder e que nem discuta isso, a "cultura" de poder e de partido que permitiu tanto tempo no poder e tanto tempo de admiração e de adesão  - convém recordar Ferro Rodrigues, actual líder parlamentar, a elogiar Sócrates e o seu modus faciendi mesmo nas vésperas da sua detenção. Mas enfim, se há quem dentro do núcleo socialista diga que em algo têm que mudar isso é agradável, esperançoso.

 

Por isso vou à Gulbenkian, não para alimentar o comício, mas para ouvir um economista que me dizem muito interessante, apresentando uma boa síntese do que momento actual. Avisam-me que há uma boa crítica a Piketty feita por Graeber e apanho um debate entre ambos: lerei após o jantar.

 

Antes de sair leio a notícia do Expresso: Piketty com Costa, e o economista francês debruçado sobre a necessidade de alterar a dívida portuguesa (e não só). Sou leigo em economia, e assim nada me move contra essas alterações à (calamitosa) dívida portuguesa. Há anos que aqui botei a minha crença (mera crença) de que isso viria a acontecer: primeiro austeridade, menos estado, depois reestruturação e possível perdão parcial. Se calhar será assim. Simpatizo com as declarações de Piketty, apesar da companhia em que ali estava.

 

Depois avança o homem criticando o "egoísmo da Alemanha e da França" "que nunca pagaram as respetivas dívidas após a II Guerra Mundial, estejam agora a explicar a países como Portugal, Grécia e Espanha que têm de pagar as suas dívidas até ao último euro e que não podem ter inflação nem as respetivas dívidas restruturadas ...".


Oops, lá vem a repugnante demagogia. Quais as causas das dívidas, os processos internos e externos? A Alemanha e a França sairam devastadas da II Guerra Mundial e não pagaram a dívida? Portugal saiu devastado da adesão à União Europeia? Ou estaremos endividados por causa da guerra colonial? Que devastou o país? Isto é comparável? Este tipo de paleio não é uma vergonha?

 

Para jingles destes não tenho tempo nem estômago. Que se lixe o simbólico da Gulbenkian, e o "economista francês". E, até, o jantar de amigos a seguir. Pikettyzem à vontade. Os outros ... E que se desiludam os iludidos, com dichotes destes nada nem ninguém mudará de "cultura" (seja lá isso o que for).

publicado às 18:36

O Povo na Televisão

por jpt, em 20.04.15

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 ... "a televisão tornou-se em definitivo a fanfarra do homem comum. Em vez de alguém dizer ao Zé Ninguém o que ele devia escutar, tratava-se agora de escutar o Zé Ninguém (...) o homem sem qualidades elitistas.". Um texto muito interessante de Eduardo Cintra Torres: "O Povo na Televisão", publicado originalmente em 2010 no livro "Como se Faz um Povo" (organização de José Neves, edição Tinta da China) e agora disponibilizado na conta do autor na rede Academia.edu.

publicado às 09:13

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O presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia, prestigiado cientista, candidatou-se e ganhou um prémio de investigação. Recebeu hoje o prémio tendo apresentado ontem a sua demissão do cargo. Presumo alguma influência do prémio obtido nesta renúncia, talvez uma reflexão neste âmbito - talvez essa devesse ter sido anterior à candidatura, mas enfim, que todos os erros sejam estes, provenientes (também) de superior competências. É importante notar que o prémio é atribuído a uma equipa, de extraordinários méritos, coroando um trabalho de longo prazo. Não estamos, portanto, diante de uma perversa manigância. Mas, quanto muito, de uma situação algo desconfortável.

 

Neste episódio apenas me ocorreu uma dúvida: quanto tempo terá demorado a deliberação respeitante ao prémio científico em causa, atribuído por um consórcio entre uma empresa privada e o conselho de reitores português? Informam-me: as candidaturas a este prémio privado foram entregues até 31 de Outubro, o prémio entregue hoje.

 

Interessa-me isso por questões pessoais. Já aqui contei a história. No dia 30 de Setembro de 2014 eu (e tantos outros) apresentei uma candidatura à FCT, presidida por Miguel Seabra. Em meados de Janeiro de 2015 tive resposta negativa, devida a uma trapalhada informática que a tantos atingiu. Pedi (e tantos outros, em várias áreas) a revisão do processo. Em finais de Março fui informado que "lá para meados de Maio" teria resposta sobre o pedido de reunião (necessária para a tal revisão do processo). Depois, com toda a certeza, virão os "santos populares" e o final do ano lectivo a atrapalhar os calendários dos académicos "avaliadores", sempre "cheios de trabalho" (é a ideologia dos professores universitários, sempre a invocar o excesso de trabalho). E depois o Verão próprio ao veraneio. E um ano terá passado, a vida encurtado.

 

Dito isto: considero perfeitamente legítimo que a equipa de trabalho, há anos coordenada pelo investigador Miguel Seabra, se candidate a prémios nacionais. E que inclua o nome do seu prestigiado coordenador. O facto de este ter sido elevado a presidente da FCT não deverá punir a sua (excelente) equipa, apoucar a repercussão do seu trabalho, reduzir-lhe as possibilidades de financiamento. O que não considero legítimo é que os juris da fundação estatal presidida por Miguel Seabra sejam tão mais lentos do que aqueles que o premeiam enquanto investigador de enorme mérito.

publicado às 15:32

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No cinema com a filha, no Corte Inglês (a pantufada mamarracha que os predecessores socialistas do senhor Medina e do vereador Salgado-BES deram naquele sector lisboeta, a gente daqui já se esqueceu ...). Antes do filme um café, o refresco, o bolinho - preços inflaccionados. Depois de entrar no parque cinéfilo, rasgado o bilhete, ainda pior: um euro e noventa cêntimos (400 escudos) por uma pequena garrafa de água. Ninguém nos obriga, claro está, que mandasse eu a rapariga beber na torneira dos sanitários, quanto vezes o fiz eu ... Bem, mas antes o tal "cafezinho", pedido e pago ao balcão. Vamos à mesa, deglutir. Ao lado está este cartaz. Quando nos levantamos a minha filha chama-me a atenção, "pai, o tabuleiro ...". Estanco, e entro na economia política. Que ali os preços estão inflaccionados, "especulativos" se se quiser. Que se precisam da mão-de-obra para arrumar os espaços e "agilizar" (é assim que se fala agora em Lisboa) a sua ocupação que contratem mais gente, somos muitos nós, os desempregados. Que é uma vergonha que nos induzam (não somos obrigados, repito) a comprar caro e ainda nos ponham a trabalhar. Sinto-me um bocado deslocado, à minha volta os lisboetas esvoaçam, comprando. E arrumando, obedientes, julgando-se numa cantina, essas de corporações, a preços "sociais".

 

Vou ver o filme. Não avanço mais. 

 

publicado às 18:15

Ex-votos

por jpt, em 23.02.15

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Volta e meia os mais furibundistas do estatismo clamam que nada mudou, que isto está como nos tempos d'antes do 25 de Abril e coisas assim. Dislates que lhes rendem laiques, aplausos e, até, votos.

 

A semana passada fui pai. E cruzei um bocado a cidade, em regime de turista, a mostrar à minha filha a cidade que é sua sem que nela alguma vez tenha vivido. No rossio (D. Pedro IV) a meu pedido ela fotografou isto. Uns altares de ex-votos - uma estrutura metálica muito pirosa (L.O.V.E.) onde se engancham os tais ex-votos, agradecimentos/promessas de amor ou amizade, comprados ali mesmo na banca.

 

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Há décadas os ex-votos eram outros. Também esteticamente pirosos, menos hedonistas (o estilo de laicização a que a "classe média" portuguesa consegue aportar) pois ancorados no catolicismo popular. Há algumas semanas demandei Arcozelo e ali encontrei o culto da Santa Maria Adelaide, o recorrente cadáver incorrupto. Na capela ainda lá estão os ex-votos. Pedindo protecção para os soldados arregimentados para o ultramar e suas guerras, coisas de mães, namoradas e até pais roídos pela angústia.

 

Entretanto, desprezando estas coisas e quem as vive, os furibundistas, indignistas (e agora sirizistas), continuam a clamar que isto está como nos "tempos". Pois as pessoas (as "massas", o "povo" ou outra aspeável qualquer) são-lhes verdadeiramente indiferentes.

 

publicado às 12:39


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