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O diabo no Advogado

por mvf, em 26.04.14
"Hoje é o Dia - Excertos da vida de um Esfomeado", adaptação teatral de Rita Lello de um texto de Pedro Mota, uma confissão singular de um ex-advogado a um juiz estreou a 24 de Abril n' "A Barraca" e a data pareceu-me adequada à ambiguidade da trama. O personagem, um ex-advogado caído na miséria é encarnado por Ruben Garcia, o actor que num extenuante (para ele...) monólogo, nos conta porque e como o herói, ao mesmo tempo um anti-herói, tratou de limpar o sebo a um seu antigo cliente, o melhor dos seus clientes, que por conta dos seus préstimos, tinha enriquecido mas que não lhe calhava pagar os honorários do jurista - coisa que aliás em Portugal está em voga, segundo se ouve nas esplanadas... Garcia, vai-se transfigurando ao longo da peça-monólogo enquanto confessa este crime, afinal o resumo de tantos outros que havia cometido para o progressivo bem-estar do agora assassinado. Da venda do Porsche e do Mercedes, vaidades sobre quatro rodas socialmente necessárias ao estatuto de bem sucedido, à fome foi um passo e os motivos que levaram o advogado-criminoso ao tresloucado ainda que consciente acto - ou consciente ainda que tresloucado? - vão-se intercalando, em cambiantes de humor excelentemente interpretadas pelo único actor em palco, passando da insanidade causada pela fome, à loucura enraivecida contra a sociedade que o levou à miséria e contra o cliente por ter praticado ou aconselhado a praticar, um interessante e vário catálogo de crimes, desde a chantagem ao tráfico de armas, da extorsão e transação ilícita de quantidades apreciáveis de estupefacientes à prostituição, que igualmente o tornaram rico e dos quais se arrepende.                                                                                                                                                                                                                                                     
                                             Ruben Garcia 
Finalmente, e entretanto, uma multidão instalou-se às portas Tribunal a gritar pelo nome do criminoso enquanto algumas cidades são tomadas por hordas de esfaimados que parece terem encontrado no homem o seu herói. Cresce a tensão na sala quando o Juiz e o chefe da Polícia são confrontados com a ameaça popular: ou libertam o homem ou morrerão todos os que estão contra ele. No meio do estrépito dos tiros, o Homem gaba-se da coragem dos seus amigos e como conseguiu insurgir os esfomeados a revoltarem-se. Sabe-se que uma enorme massa popular se dirige para a capital quando começam as coronhadas na porta da sala onde está o homem que facilmente convence os guardas a entregaram-lhe as armas e que acto contínuo executa sem hesitar, o Juiz e o chefe da Polícia. A peça termina com a leitura de um comunicado redigido pelo Homem, no qual convoca os desesperados, os mais pobres, os mais fracos e os miseráveis para a desobediência civil que acabará por derrubar a actual sociedade.
         Ruben Garcia 

 

Muitas leituras são possíveis desta peça, podendo cada um pintar a coisa com as cores que quiser. O personagem é herói e anti-herói, criminoso e salvador, pedinte e príncipe, sarcástico e aproveitador, manipulador e manipulado, rico e esfomeado, arrependido e não arrependido e punido e não punido. Numa palavra, segundo o autor: Portugal.

 

         

         Pedro Mota depois da estreia de "Hoje é o Dia- Excertos da Vida de um Esfomeado"

(fotografias ©miguel valle de figueiredo)

 

Último acto:

Sou amigo de muitos anos do Pedro Mota, frequentámos a mesma praia na infância e na adolescência, jogámos xadrez, bebemos (muita) cerveja, sentámo-nos na mesma turma da Faculdade de Direito de Lisboa, ele com muito mais eficácia que eu..., jogámos à bola na mesma equipa no campeonato de futebol de 5 da FDL - o Pedro era um avançado temível e é um Sportinguista indefectível! - e, portanto, conheço-lhe de longe a ironia, a sua noção de justiça e enorme desprezo pelos iníquos e suas fórmulas. Sendo suspeito na apreciação e recomendação, sugeria uma ida ao Cinearte/ A Barraca para um bom bocado de uma velada e ao mesmo tempo descarada, crítica à sociedade lusa.

 

Vosso

mvf

 

"Hoje é o Dia" em cena até 1 de Junho de 2014

De Quinta a Sábado às 21h30

Domingos às 19h00

Teatro Cinearte / A Barraca

Largo de Santos 2, tlf: 213 965 360

 

 

publicado às 19:45

A mensagem do Dia Mundial do Teatro 2014 agrada-me em particular. O seu autor é um provocador artista sul-africano que questiona as relações de poder que orientam o mundo pós-colonial, numa perspectiva que cruza a história e o presente.  

 

 

Srs. e Sras. eis a mensagem de Brett Bailey para amanhã (e sempre, atrever-me-ia) dia 27 de MARÇO, DIA MUNDIAL DO TEATRO:

 

"Desde que existe sociedade humana, existe o irreprimível espírito da representação.

Debaixo das árvores, nas pequenas cidades e sobre os palcos sofisticados das grandes metrópoles, nas entradas das escolas, nos campos, nos templos; nos bairros pobres, nas praças públicas, nos centros comunitários, nas caves do centro das cidades, as pessoas reúnem-se para comungar da efeméride do mundo teatral que criámos para expressar a nossa complexidade humana, a nossa diversidade, a nossa vulnerabilidade, em carne, em respiração e em voz.

Reunimo-nos para chorar e para recordar; para rir e para comtemplar; para ouvir e aprender, para afirmar e para imaginar. Para admirar a destreza técnica, e para encarnar deuses. Para recuperar o folego coletivo, na nossa capacidade para a beleza, a compaixão e a monstruosidade. Vive??mos pela energia e pelo poder. Para celebrar a riqueza das várias culturas e para afastar as fronteiras que nos dividem.

Desde que existe sociedade humana, existe o irreprimível espírito da representação.

Nascido na comunidade, veste as máscaras e os trajes das mais variadas tradições. Aproveita as nossas línguas, os ritmos e os gestos, e cria espaços no meio de nós. E nós, artistas que trabalhamos o espírito antigo, sentimo-nos compelidos a canalizá-lo pelos nossos corações, pelas nossas ideias e pelos nossos corpos para revelar as nossas realidades em toda a sua concretude e brilhante mistério.

Mas, nesta ERA em que tantos milhões lutam para sobreviver, está-se a sofrer com regimes opressivos e capitalismos predadores, fugindo de conflitos e dificuldades, com a nossa privacidade invadida pelos serviços secretos e as nossas palavras censuradas por governos intrusivos; com as florestas a ser aniquiladas, as espécies exterminadas e os oceanos envenenados.

O que é que nos sentimos obrigados a revelar?

Neste mundo de poder desigual, no qual várias hegemonias tentam convencer-nos que uma nação, uma raça, um género, uma preferência sexual, uma religião, uma ideologia, um quadro cultural é superior a todos os outros, será isto realmente defensável? Devemos insistir que as artes sejam banidas das agendas sociais?

Estaremos nós, os artistas do palco, em conformidade com as exigências dos mercados higienizados ou será que têm medo do poder que temos para limpar um espaço nos corações e no espirito da sociedade, reunir pessoas, para inspirar, encantar e informar, e para criar um mundo de esperança e de colaboração sincera?"

 

Tradução: Margarida Saraiva; revisão EV; Escola Superior de Teatro e Cinema

 

Foto retirada da performance 'Exhibit B', produzida pela companhia dirigida por Brett Bailey, a 'Third World Bunfight'.

Ver a página da Third World Bunfight aqui.

 

VA

 

publicado às 15:54
modificado por jpt a 27/3/14 às 17:34

FAUSTA

por VA, em 17.02.14

 

"Levantamos com minúcia o véu que a cobre e desvendamos uma mulher que se encontra em perfeito estado de conservação, apesar de morto há mais de duzentos anos. Os braços e as pernas imaculados, as unhas arranjadas, brancas, impecáveis. Aproximo-me e pressiono as suas bochechas. A carne move-se tal como a de uma pessoa viva, perdendo a cor quando lhe toco para logo recuperar o tom rosáceo da pele. As pálpebras abrem e fecham, e os olhos, quando abertos, mantêm o brilho da água que os refresca e que os irriga quando ainda vêem, a boca exibe os lábios rosados e húmidos, o nariz regressa ao lugar após o toque. As articulações das mãos e dos pés, ainda flexíveis."

Patrícia Portela

 

No Sábado passado fui ver “Fausta”, um espetáculo que nasceu de um desafio lançado pelos atores Pedro Gil e Tonan Quito à escritora Patrícia Portela e que tem como ponto de partida o seu mais recente romance "O Banquete", editado pela Caminho.

 

A partir de uma seleção do livro, pretende-se reescrever a história de uma Fausta e das suas trocas diárias de almas. O público reúne-se para ouvir uma mulher que narra a sua vida depois de morta na voz de dois homens. "Para desvendar todos os segredos, precisamos de reunir a história toda, as histórias todas… deste corpo que comporta muitos tempos." Esta é a autópsia de uma narrativa póstuma à procura de um todo impossível.

 

Gostei. A direcção artística e a interpretação de Pedro Gil e Tonan Quito e o espaço sonoro de Pedro Costa conseguiram passar ao espectador a beleza, a intensidade, as contradições mas também a pertinência desse estado que é ‘estar vivo’, a partir de um texto que, na sua origem, nada possui de teatral.

Intenso e mordaz, mas também belo e naïf, o texto de Patrícia Portela leva o espetador a colocar-se em espelho com a sua vida e, consequentemente, com a sua morte.

VA

publicado às 12:45

A primeira vez que ouvi falar de Russell Brand foi na série documental "Quase a verdade - A versão jurídica" (2009) onde os fabulosos Monty Python (John Cleese, Terry Jones, Terry Gilliam, Eric Idle, Michael Palin e Graham Chapman) fazem uma compilação de momentos marcantes das suas vidas e das suas carreiras. Foi a primeira vez em duas décadas que os cinco membros sobreviventes dos Python se uniram para um projeto como este, reunindo filmagens de arquivo e entrevistas com as várias pessoas a eles associadas.

Paralelamente esta compilação de imagens de arquivo também se podem ver os comentários dos comediantes mais modernos, entre os quais Russell Brand. Lembro-me de considerar a personagem singular e pesquisei um pouco mais sobre este actor. Percurso de vida bastante atribulado, brilhantismo artístico.

 

Em jeito de provocação natalícia e porque esta é a época que celebra o nascimento de um dos muitos messias que o mundo gerou, deixo-vos o seu mais recente projecto, o "Messiah Complex" (O Complexo de Messias), um espectáculo de comédia 'stand-up' que se encontra em digressão mundial.

E porque um dia Friedrich Nietzsche disse que Deus tinha morrido, vejamos Russell Brand nestes 5 minutos.

 

 

 
VA

publicado às 21:24

Após alguns meses afastada deste espaço que tanto prezo e reiniciando uma presença mais assídua, deixo-vos um fragmento do espectáculo "Hey Girl" (2007) dirigido por Romeo Castellucci.  Trata-se de um encenador, dramaturgo, artista plástico e cenógrafo italiano que, desde os anos oitenta, é um dos protagonistas da vanguarda teatral europeia.

 


 VA

(devido à mudança de servidor do ma-schamba podem encontrar todos os posts a que me atrevi anteriormente no tag va)

publicado às 00:50

 

Mais do que evidente, é descarada a publicidade que fazemos à estrela da nossa companhia, a VA, a Vera Azevedo. Quem a quiser ver em carne, osso na ribalta iluminada, tem mais este fim-de-semana e o próximo ex-feriado 1º de Dezembro para o fazer no Auditório do Centro Cultural da Malaposta, às portas de Lisboa. Aqui ficam algumas imagens da nossa menina, que depois de um intervalo que durou 10 anos, regressou aos palcos ao lado de Alberto Quaresma, Joana Brandão e Mísia na peça "O Matadouro Invísivel", da autoria de Karin Serres e encenada por José Martins, que foi o impulsionador da transformação de um antigo matadouro em teatro.

VA, agora a ma-schambeira, confidenciou nos bastidores que voltará ao blogue depois dos aplausos.  

 

Muita merda para ela!!!

 

 

 

 

 

 

 

 

Fotografias: miguel valle de figueiredo

 

6ª e Sáb - 21.30h
Dom - 16.00h
Preço: Barato (12,50€ por 70 minutos de bom teatro)

publicado às 23:11
modificado por VA a 16/12/13 às 23:57

A nossa estrela estreia hoje!

por mvf, em 07.11.13

10 anos 10 depois - e antes tarde que nunca - a nossa menina, a VA, a Vera Azevedo, volta à luzente ribalta teatral. Nós orgulhosos e contentes. Ela diz que vai para o matadouro e é rigorosa: Karin Serres, conhecida e importante dramaturga gaulesa escreveu o texto a partir de um facto: a transformação do ex- matadouro de Olival Basto, às portas de Lisboa, em teatro, o Teatro da Malaposta. Vão vê-la, radiosa, amais o restante elenco que conta com a estreia de Mísia, a das cantorias, como actriz. 70 minutos coma nossa estrela!!!

Muita merda para ela que é cá da gente!!!


Centro Cultural Malaposta

NOV 7 a 24 | DEZ 1
QUI A SÁB - 21H30
DOM - 16H00

AUDITÓRIO

12,50€ 
70 MINUTOS 
M/12

                                                  

publicado às 13:26
modificado por VA a 16/12/13 às 23:59

A Trigo Limpo, companhia teatral de Tondela, anda em digressão com o elefante de Saramago às costas.

O espectáculo, baseado no conto do escritor, "A Viagem do Elefante" andou em digressão pelo país e veio até Lisboa para se apresentar na Praça do Município / Paços do Concelho ( não tenho a certeza que, dada a mudança da Cãmara Municipal de Lisboa para o Intendente, o largo não devesse mudar, também ele de nome. Até porque é um feio hábito nacional, mudar as designações seja do que raio for só porque sim...).

Da coisa em si:

Sou suspeito porque sou amigo de miúdo do Zé Rui Martins (director artístico) e do Luis Rui Viegas (som e luz), bem como de muitos outros da Trigo Limpo/ ACERT, assisti à primeira peça que fizeram nos idos de 76, acompanhei o que iam e foram fazendo, pela Beira Alta, pelo país, na Expo 98 com a Peregrinação, pelo Brasil, por Moçambique, por aqui e por ali, no Tom de Festa, extraordinário festival anual de músicas do mundo mas praticamente desconhecido dos jornais, rádios e televisões que pouco mais descobriram que o equivalente de Sines, da pagã e sempre espectacular Queima do Judas, disto e daquilo, e é bom, muito bom, verificar o êxito desta brava gente na capital, pouco dada a acarinhar o que se chama, vulgar e desdenhosamente, província. Pois  a assistência ficou de boca aberta com a função. Salomão, o elegante elefante é um bicho encantatório e esta que é a 100ª(!) produção da companhia merece bem ser vista. Hoje é a derradeira oportunidade de se observar o simpático paquiderme e depois só em Madrid...

Fica uma nota: desde a implantação da República, proclamada da conhecida varanda dos Paços do Concelho, que nenhum monarca, que eu saiba, dali acenou à multidão. Calhou ontem e repetir-se-á hoje com D. João III ( José Rui Henriques).

Ficam algumas imagens da chegada do paquiderme à Casa dos Bicos e do ensaio geral na Praça do Município.

 

Vosso mvf

 

*para saber e ver mais sobre "A Viagem do Elefante":

http://www.acert.pt/aviagemdoelefante/

 

©miguel valle de figueiredo
©miguel valle de figueiredo
©miguel valle de figueiredo
©miguel valle de figueiredo
©miguel valle de figueiredo
©miguel valle de figueiredo
©miguel valle de figueiredo
©miguel valle de figueiredo
©miguel valle de figueiredo

publicado às 13:13

Por definição, que me apraz sobejamente, o ma-schamba despreza os dias internacionais e mundiais 'disto e daquilo' e só muito pontualmente assinala este tipo de efemérides.

Hoje, dia 27 de Março de 2013, comemora-se uma vez mais o Dia Mundial do Teatro.

Seja por questões emocionais - o teatro é a minha paixão primeira - seja porque é num teatro que a minha actividade laboral se desenrola, ou seja ainda porque uma das mais importantes manifestações deste dia é a difusão da Mensagem Internacional, escrita tradicionalmente por uma personalidade de dimensão mundial convidada pelo Instituto Internacional do Teatro para partilhar as suas reflexões sobre temas de teatro e paz entre os povos e lida perante milhares de espectadores antes dos espetáculos nos teatros do mundo inteiro, hoje é a minha vez de praticar a excepção à regra.

 

 

Este ano a mensagem foi solicitada ao italiano Dario Fo. Nascido em 1926, Dario Fo é actor, dramaturgo, director, cenógrafo, activista político e Prémio Nobel da Literatura em 1997. O seu contributo, sempre irónico, reza assim:

 

"Já faz muito tempo que a forma de resolver o problema da intolerância para com os comediantes era expulsá-los do país. Hoje, os atores e as companhias de teatro têm dificuldades em encontrar teatros, praças públicas e espectadores, tudo por causa da crise.

Os governantes, portanto, não estão mais preocupados com os problemas de controlo sobre aqueles que se expressam com ironia e sarcasmo, já que não há lugar para atores, nem existe um público para assistir.

Ao contrário, durante o período do Renascimento, na Itália, os que estavam no poder tinham que fazer um esforço significativo para manter em seus territórios os Commedianti, uma vez que estes desfrutavam de um grande público.

É sabido que o grande êxodo de artistas da Commedia dell'Arte aconteceu no século da Contra-Reforma, que decretou o desmantelamento de todos os espaços do teatro, especialmente em Roma, onde foram acusados de ofender a cidade santa. Em 1697, o Papa Inocêncio XII, sob a pressão de insistentes pedidos do lado mais conservador da burguesia e dos expoentes do clero, ordenou a demolição do Teatro Tordinona, em cujo palco, segundo os moralistas, tinha encenado o maior número de performances obscenas.

Na época da Contra-Reforma, o cardeal Carlo Borromeo, que era ativo no Norte de Itália, havia se comprometido com o resgate dos "filhos de Milão", estabelecendo uma clara distinção entre a arte - como a mais alta forma de educação espiritual, e o teatro - a manifestação de palavrões e de vaidade. Em uma carta dirigida aos seus colaboradores, que eu cito de improviso, ele se expressa mais ou menos da seguinte forma: '(...) em relação à erradicação da erva do mal, fizemos o nosso melhor para queimar textos que continham discursos infames, para erradicá-los da memória dos homens, e, ao mesmo tempo, a processar também aqueles que divulgaram tais textos impressos. Evidentemente, no entanto, enquanto estávamos dormindo, o diabo trabalhou com astúcia renovada. Como penetra na alma mais do que o que os olhos vêem, o que você pode ler nos livros desse tipo! Assim como a palavra falada e o gesto apropriado são muito mais devastadores para as mentes dos adolescentes e jovens do que uma palavra morta impressas em livros. É, portanto, urgente livrar nossas cidades de fabricantes de teatro, como fazemos com as almas indesejadas.'.

Então, a única solução para a crise está na esperança que uma grande "expulsão" seja organizada contra nós e, especialmente, contra os jovens que desejam aprender a arte do teatro: a diáspora nova de comediantes, de fabricantes de teatro, que, certamente, a partir de tal imposição, terão benefícios inimagináveis para uma nova representação."

Dario Fo

 

(a tradução apresentada acima é a versão brasileira, bastante mais fidedigna do ponto de vista formal)

 

VA

publicado às 16:59

por JOHN MALKOVICH

"Fico honrado por o ITI - Instituto Internacional do Teatro - me ter pedido para fazer este discurso comemorativo do 50º aniversário do Dia Mundial do Teatro. Vou então dirigir estes breves comentários aos meus companheiros de teatro, meus pares e meus camaradas.

Que o vosso trabalho possa ser apaixonante e original. Que ele possa ser profundo, comovente, contemplativo, e único. Que ele nos ajude a reflectir sobre a questão do que significa ser humano, e que esta reflexão seja guiada pelo coração, sinceridade, candura, e charme. Que consigam ultrapassar a adversidade, a censura, a pobreza e o niilismo, que muitos de entre vós serão obrigados a enfrentar. Que sejam abençoados com o talento e rigor para nos ensinar sobre o batimento do coração humano, em toda a sua complexidade, e com a humildade e curiosidade que faça disto o trabalho da vossa vida.

E que o melhor de vós próprios - porque só poderá ser o melhor de vós próprios , e mesmo assim apenas em raros e breves momentos –  consiga definir a mais fundamental questão 'como vivemos nós' ?

Desejo sinceramente que o consigam."

VA

publicado às 02:01
modificado por VA a 16/12/13 às 23:10

O Karl Valentin de Meu PAI

por jpt, em 19.03.12

Porque o meu pai é fã incondicional deste autor, comediante e produtor cinematográfico nascido na Alemanha em 1882 e porque, muito em breve, irá representar uma vez mais o seu texto “O Projector Avariado”.

( Karl Valentin) - O humor de suas peças reside entre o Dadaísmo e o Expressionismo. O seu trabalho centrava-se nos jogos de palavras e na sátira social. Ao que parece Bertold Brecht afirmou que foi Karl Valentin que o ensinou a escrever peças de teatro.

VA

publicado às 19:09
modificado por VA a 16/12/13 às 23:11

Debate, disse ele...

por jpt, em 10.10.11

 Muito do que hoje aqui apresento foi fruto de uma reflexão que efectuei no âmbito de um trabalho sobre a aplicabilidade da antropologia em instituições. Na altura, acreditei que este modesto texto pudesse, de alguma forma, contribuir para uma reflexão sobre a missão dos Teatros Nacionais, fosse de um ponto de vista antropológico ou institucional … e eis que o Exmo. Sr. Secretário de Estado da Cultura lança o repto do debate, apesar de não informar quando e onde.

 

 

Exmo. Sr. Secretário de Estado da Cultura,(…) Sabemos que a antropologia apresenta um sem número de dilemas respeitantes à ética da sua prática. As preocupações da antropologia aplicada têm muitas vezes a ver com a regulamentação do seu trabalho. As grandes questões éticas relacionadas com a investigação aplicada prendem-se normalmente com a relação estabelecida com os clientes ou com direitos de propriedade da investigação.

 

No final do séc. XX, em áreas tão diversas como a saúde, o direito, as organizações ou a educação, encontramos o que se passou a designar como ‘antropologia institucional’. Esta variante foi uma das respostas que a disciplina encontrou face aos novos domínios profissionais da modernidade. Teve também a particularidade de transformar os membros da sua comunidade numa espécie de profissionais ‘híbridos’, uma vez que coexistem entre a antropologia e outros domínios profissionais, dos quais podem sair e entrar, tornando-se assim investigadores disciplinares e interdisciplinares, simultaneamente. Um aspecto interessante deste designado membro ‘híbrido’ é que só lhe é conferida competência se possuir um vasto conhecimento dos contextos contemporâneos, apesar de não se exigir que um antropólogo institucional seja um antropólogo da aplicabilidade, dado a ‘antropologia institucional’ não pertencer a nenhuma sociedade profissional. A ausência de políticas culturais por parte dos vários governos de Portugal traduz-se na ausência de um projecto sólido e dinâmico para os Teatros Nacionais. Assim, fica ao crítério de cada direcção artística delinear estratégias programáticas que, muitas vezes, não vão de encontro àquilo que pode ser considerado um serviço público.

 

Poderíamos dizer que, idealmente, um projecto cultural institucional de serviço público deveria alargar o acesso da população a um contacto regular com a produção teatral através de textos que integrem quer o património teatral da humanidade, quer o património dramatúrgico nacional, procurando assumir as especificidades culturais e sociais do contexto onde se insere. Deveria compreender um teatro sem fronteiras para poder sentir e responder eficientemente às necessidades e ao aprofundamento nas várias áreas e formas culturais. Com motivação e entusiasmo, deveria procurar práticas inovadoras e ideias desafiantes culturalmente, mantendo o sentido da responsabilidade para com a cultura local e nacional, assim como para Portugal no mundo, e a sua participação activa na definição da nossa realidade tanto na produção de conteúdos como no alargamento de públicos.

 

Numa época de grandes e complexas transformações socioculturais, a arte está a sofrer mudanças que não nos podem ser alheias. O projecto dos Teatros Nacionais deveria passar por uma busca incessante de novos processos de percepção e comunicação, através de formas interactivas, utilizando para tal as novas tecnologias.Um ‘projecto ideal’ deveria ter como objectivo a criação de uma plataforma activa e dinâmica para o desenvolvimento do teatro local, regional e nacional, convergindo com todos quantos, nas várias vertentes, trilham os caminhos do desenvolvimento cultural e artístico do nosso país. Para além do trabalho regular da instituição, atribuído na sua programação anual, o projecto deveria incidir na investigação, pesquisa e experimentação. A estratégia do projecto deveria passar conscientemente por uma criação não dogmática que seria planeada com rigor, sentido cultural e aberta à criatividade artística. Uma instituição cultural de serviço público deveria ter uma função determinante a desempenhar na defesa e difusão da cultura teatral portuguesa e universal, na difusão da língua, na preservação do património artístico, bem como na formação, criando estímulos ao aparecimento de novas gerações de dramaturgos, actores, encenadores, cenógrafos, figurinistas e técnicos de teatro.

 

Pela sua capacidade de interpretação directa do público e da recriação de climas afectuosos, pelo recurso que faz à literatura, às artes plásticas, à música, à dança e às novas tecnologias, o teatro é um instrumento privilegiado no contexto artístico. Assim, para além da programação regular e no âmbito do seu projecto cultural deveriam ser apresentados espectáculos de companhias teatrais nacionais e estrangeiras, promover digressões regionais e nacionais, e também a participação em festivais, no país e no estrangeiro, para a apresentação dos seus espectáculos.Em Portugal, é certo que perdemos rápida e sistematicamente a memória das práticas e das metodologias do Teatro. Deste modo, deparamos a cada passo com o vazio. Somos atirados para a estaca zero e obrigados em cada momento da nossa intervenção a partir invariavelmente do nada. Se acaso tal propósito pode ser aliciante e criativo, por outro lado afasta-nos cada vez mais do que de bom e de mau foi feito até aqui, impedindo uma reflexão sistematizada do que foi realizado.

 

Será necessário, para além da criação de novas dramaturgias, novas formas criativas. Estudarmos e darmos a conhecer o que nos fez estar no ponto onde estamos e então encontrar a razão da falta de repertórios e da falta de mercados. É preciso que o Teatro seja o motor da nossa civilização. Com muito trabalho, reflexão e uma consciência forte será necessário que os Teatros Nacionais sejam um pólo importante da cultura nacional. Almeida Garrett dizia que “a criação da necessidade do espectáculo teatral passa por três fases: primeiro criar o gosto pelo teatro, depois o hábito e só mais tarde a necessidade”. Por amnésia constante a tudo quanto se fez e se tem feito, pela constante ausência de políticas culturais, continuamos ainda na primeira fase.

 

Um dos âmbitos onde a prática da antropologia pode ter um papel importante talvez fosse na auscultação das necessidades do público através de inquéritos, levantamentos socioculturais e estudo de iniciativas, de forma a levar novos públicos ao teatro. Também poderia estar presente na planificação e desenvolver contactos com empresas locais, associações culturais, escolas, universidades, sindicatos e/ou centros de dia. Poderia mesmo promover a criação do gosto dos jovens pela arte teatral tendo como objectivo as novas formas de arte contemporânea. Todas estas iniciativas teriam como objectivo dotar o público de um teatro que o torne mais conhecedor e capaz de um olhar crítico sobre aquilo que vê.

 

Para ultrapassarmos a primeira fase que nos fala Almeida Garrett seria necessário dar uma atenção muito especial ao trabalho teatral com, e para, a infância e juventude. Através de protocolos com as escolas do ensino básico e secundário deveria desenvolver-se um conjunto de actividades de natureza artístico/pedagógica culminando na apresentação de espectáculos para as escolas. Esta é uma iniciativa que, apesar de possuir uma realização sistemática, se tem mostrado de alguma forma inconsequente. Para que funcione na plenitude seria necessário desenvolver actividades em estreita colaboração com os professores, concelhos pedagógicos e concelhos directivos das escolas, a partir de diversas formas de concretização. Deslocação de actores às escolas para a realização de seminários de expressão dramática. Realização de visitas de grupos de estudantes aos Teatros Nacionais com explicação do funcionamento da equipa teatral e com assistência a ensaios e a espectáculos. Motivação das crianças e jovens para a realização de trabalhos de natureza artística no âmbito da escrita, do desenho ou da expressão dramática relacionados com a actividade teatral.

 

Em relação à gestão dever-se-ia ainda atentar à formação específica no plano da criação e no plano da animação dos actores e técnicos dos Teatros Nacionais, à administração dos tempos de trabalho de forma a obter-se uma maior rentabilidade, tanto do ponto de vista da qualidade dos resultados, como do ponto de vista da quantidade das acções efectuadas. Possuir uma planificação cuidada da utilização dos meios humanos e equipamentos disponíveis e um adequado apoio administrativo ao desenvolvimento das acções. Elaborar um estudo permanente da relação público/Teatros Nacionais como uma das bases de escolha de repertório e efectuar uma mudança frequente dos espectáculos e das acções paralelas em cartaz de modo a manter o regular funcionamento destas instituições.(2007)

 

VA

 

 

publicado às 17:25

A princesa no teatro

por jpt, em 10.08.07
Lisboa (mais ainda).


Não (nunca) esquecer o final, com os teus comovidíssimos olhos marejados de lágrimas.

publicado às 07:36


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