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Uma exposição já antiga

por jpt, em 03.07.08

Catálogo, portanto memória, da colectiva "Lisboa-Maputo-Luanda", acontecida em Lisboa em 2007, na Cordoaria Nacional, associando trabalhos de artistas angolanos, moçambicanos e portugueses. No caso dos artistas moçambicanos demonstrando até algumas peças entretanto tornadas emblemáticas - o meu particular apreço pelo "Conselho de Anciões", de Anésia Manjate, bela peça com conteúdo muito polémico, e cuja contraposição com a "Máscara" de Marcos Muthewuye é aqui particularmente feliz, indiciando as tensões existentes na leitura artística do actual..

Mas para além da memória (invejosa) de uma exposição o catálogo mantém-se particularmente interessante pelo que dele se recolhe nos textos enquadradores. A justificarem uma reflexão (provavelmente já realizada) sobre as concepções ali representadas e até sobre os efeitos - potenciadores e constrangedores - da integração dos artistas (das várias nacionalidades e contextos)  neste circuito internacional. Mais ainda, as próprias contradições entre os textos denotam as contradições existentes entre os agentes que actuam (controlam?) a recepção artística em alguns cenários internacionais e, assim, algo influenciam a produção.

Um esclarecedor texto de João Lima Pinharanda, "Cabo Não", reflectindo sobre a história dos ambientes sociopolíticos de produção artística na África aqui representada, traçando uma breve geneologia analítica da emergência de uma autonomia artística. E, lateralmente, deixando algo que parece óbvio mas que é constantemente posto em causa, por consumidores e por oradores: "Nenhum nacionalismo cultural pode estabelecer como objectivo a recuperação de qualquer pureza ou genuinidade original (quer dizer, pré-colonial)." Uma "Evocação de Luanda", de Alberto Oliveira Pinto, realçando a plasticidade e entrecruzamento das topografias e das simbologias (da topografia simbólica, melhor dizendo), deixando intuir como são (ou podem ser) constantementes reapropriadas (reconstruídas) no discurso artístico.

E ainda dois outros textos, em aparente contraposição. Um interessante "A Geografia do Encontro ou o Re.Desenho do Mundo: Curiosidade, Mercância e Fé", de José Monterroso Teixeira, que busca recentrar o olhar sobre as artes plásticas internacionais na continuidade do olhar português sobre o mundo, nascido da expansão. E isso assente na recuperação da dicotomia entre o olhar épico de Camões e o olhar negocial (efabulatório, também) de Fernão Mendes Pinto - por outras palavras, a dicotomia entre a "expansão" e o "encontro". Sendo (devendo ser) o olhar de hoje devedor da verve de Mendes Pinto. Se este debate português é já algo antigo torna-se interessante vê-lo explícito no palco da recepção artística actual, e enquanto proposta de sustentção de um pólo central. [E, num outro plano, é sempre interessante perceber como a reflexão ideológica portuguesa se centra na influência do seu Renascimento, apagando séculos de experiência histórica posterior, dos seus feitos e dos efeitos que os feitos tiveram nas concepções da alteridade. No fundo, uma exigência de depurarmos a memória].

Mas mais importante ainda - até porque os conteúdos específicos da reflexão intelectual portuguesa sobre a sua história (e "identidade") não serão particularmente importantes para a actividade artística que nos é estrangeira -, pois demonstrando dimensões fundamentais na gestão das interacções artísticas internacionais, é o texto introdutório do próprio comissário da exposição Victor Pinto da Fonseca. Deixa uma declaração de princípios, que parece pacífica, amável até: "... porque só a arte parece ter o poder de inscrever ligações entre países, como verdadeiras pontes."*

Entenda-se, não estranho apenas a sua difícil (possível?) fundamentação empírica: 

1. afirma uma irredutibilidade "negocial" entre os contextos nacionais, que parece exagerada;

2. afirma uma característica (ontológica) "conversacional" à arte que exige conceptualização fundamentadora, bem como a do deficit das outras actividades neste âmbito.

Mas muito mais do que isso aqui se explicita uma secundarização da arte. E a vontade, a actividade, da sua instrumentalização. Uma arte ao serviço da tal "ligação entre os países", uma sua politização não no sentido do capital de questionamento que encerra, sim nos efeitos apaziguadores que proporciona.

Enfim, arte pela arte não, sim arte para o diálogo. Um diálogo que se quer apresentar sem ruídos, por via de uma descontextualização radical. Porque sendo "O enfoque do transnacional é o novo paradigma na arte contemporânea, substituindo o pós-moderno.", o argumento surge como o da sua desterritorialização. Melhor dizendo, associalização: "A exposição não reinvindica um contexto socio-político, antes, convida o espectador a pensar na singularidade de vida de cada artista presente ...". O indivíduo (artista), local e global, em trânsito comunicacional. "Toca algum sino"?

*[Citar trechos de textos é quase sempre deturpá-los à vontade do citador. Infelizmente não os encontrei disponibilizados na internet, para os ligar, permitindo uma leitura nunca truncada. De resto, sobre os textos de que me afasto: a exposição transposta no livro é óptima, donde o comissário fez um bom trabalho, muito para além das frases que aqui pico e pilho. E o texto de J.M. Teixeira é muito interessante e fundamentado, um prazer de leitura.]

Enfiim, não será fundamental discutir os artefactos intelectuais de uma exposição já acontecida há um ano. Mas é interessante visitar o conjunto das obras e atentar nestes caminhos. Enquanto se espera pelos próximos.

[Anésia Manjate, "Conselho de Anciões", 2005; Cerâmica e Corda de Sisal]

[Gemuce, "Deixa-Andar", 2005; Esculturas, chapas de zinco, video]

[Jorge Dias, "Neocasulo", 2005; Camisete, arame, tecidos]

[Marcos Muthewuye, "Máscara", 2000; Metal]

[Tembo Dança, "sem título", 2006; Arame farpado, madeira, tecido, plásticos, rede metálica, papel]

publicado às 01:56

 

 

Lisboa-Maputo-Luanda, exposição na Cordoaria Nacional em Lisboa. Com moçambicanos, Anésia, Gemuce, Jorge Dias, Marcos Bonifácio e Tembo. Até finais de Abril.

publicado às 20:11

Colectiva

por jpt, em 29.11.05

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Está em exposição no Centro Cultural Franco-Moçambicano e hoje, às 18 h, por lá haverá debate sobre mais esta exposição organizada pelo MUVART (Movimento de Arte Contemporânea de Moçambique [elo com história do movimento]). Em podendo assistir e participar o desafio é estimulante.

Já por aqui o disse, do interesse e carinho pela emergência do MUVART, das experiências de arte contemporânea que o movimento tem provocado. Num processo que não se esgota nos seus participantes, com particular relevo para o mais-velho Rosa, que até lhe é antecessor. À sua maneira, radicalmente individualista, prosaicamente anti-mercado. Tudo isso provado na sua recente individual, na Casa de Cultura do Alto-Maé, da qual infelizmente não retive nenhuma imagem: não tinha qualquer material de apoio (e eu sem máquina, ali avisado de surpresa), exposição de curta duração, âmbito reduzido. A fazer perder de vista uma mão-cheia de peças bem interessantes, em particular dois "quadros", falsos mimetismos, de excelência.

Do movimento MUVART mais haverá a dizer, começando a sua internacionalização, desde Jorge Dias em Lagos, Portugal, com 15 peças (ainda em exposição) à hipótese de Gemuce seguir a Dakar. E da participação alargada na colectiva lusófona que António Pinto Ribeiro organiza, e cuja itinerância aqui será inaugurada no Abril. E ainda da próxima grande internacional, a apresentar em Setembro.

Múltiplas razões para acompanhar este andar. Para mim uma muito em especial, para além da amizade: do "desafricanizar" da arte, da ruptura com o que aos artistas aqui é imposto, tanto por mercados de fora como pelos essencialistas de aqui, todos buscando, mercados subalternos ou ideólogos do presente, matéria-prima para discursos ditos identitários.

Cimg2050.jpgMuvartSoniaSultuane.jpgSónia Sultuane: "De Dentro Para Fora"Cimg2046.jpg

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David Mbondzo: "Lado A"

Cimg2045.jpgMuvartTembo.jpg

Tembo: "Forma e Conteúdo"

Cimg2052.jpgMuvartLuisMuiengua.jpg

Muiengua: "Elementos Extruturados" (sic)

Cimg2047.jpgMuvartMouzinho.jpg

Mouzinho: "Campo Flutuante e Inconsciente do Significado".

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[grupo, CCF-M, dia da inauguração]

Desta exposição, com curadoria de Jorge Dias, ele ideólogo do movimento, Sónia Sultuane, a poetisa que já colaborou poeticamente na anterior colectiva "Humano", apresenta o seu primeiro trabalho individual. A mim que me perdoem, palavroso ainda. Mbonzo coloca o trabalho que mais me interessa, visualmente. Mas também como proposta, no que pretende com este "Lado A" "Trago máscaras por serem formas que escondem a verdadeira ou falsa imagem do "eu"", assim também no não-visual a fugir às dicotomias. Muiengua [e é já altura de acertar em definitivo com a grafia do nome, em cada momento surge diferente] regressa com "Elementos Extruturados" (caramba, não há ninguém que possa fazer a revisão, limpar os erros ortográficos?), que já tinha apresentado e impressionado na colectiva Upanamo na Associação Moçambicana de Fotografia em Agosto. Regressa e prejudica, aumentou a instalação (mais 4 colunas?) mas nada mais. E encerrando a instalação na pequena sala que lhe coube fica um apertado do não-respirar nada voluntário. Algo que lembra o facto do "Franco", sendo o melhor local cultural da cidade, não ter uma sala de exposições - nesse sentido foi distraído o trabalho de recuperação do edifício e instalação de um centro cultural. Em lado nenhum, e com tanto espaço, se pode expôr com qualidade. Com os jovens Tembo e Mouzinho, tal com Mbonzo ainda alunos da Escola de Artes Visuais e aqui a estrearem-se em exposição, fico desarmado, nada me ocorre para além das discordâncias conceptuais. Talvez o incentivo de quem está a andar, a fazer brotar um processo.

Mas francamente, haverá pior para uma produção do que apenas gabar-lhe o facto de existir? De processuar? Acho que esta é uma encruzilhada para o MUVART, já andou o suficiente para não se justificar apenas o olhar simpático, o incentivo. A colectiva do ano passado, a colectiva Jorge Dias-Gemuce deste ano, puseram a fasquia alta. Chegou a altura de bater. Exigir. Provocar.

(texto retocado, integrando ainda novas ligações)

publicado às 17:37

Convite

por jpt, em 22.11.05

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Hoje (mau dia, mau dia) "Hora Q", colectiva organizada pelo MUVART. Participação de David Mbozo, Tembo, Luis Muiênga, Mouzinho e Sónia Sultuane.

Às 18 horas, no Centro Cultural Franco-Moçambicano.

publicado às 17:49


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