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 [Filipe Branquinho"Sr. Carmona, Jardineiro, Maputo" (Série "Ocupações), 2011]

 

Um texto corrido, para a edição de hoje do Canal de Moçambique, a tal minha irregular coluna "Ao Balcão da Cantina": 

 

 

Vá ver a bienal de arte contemporânea

 

Neste Agosto é Maputo uma cidade preenchida com a Bienal de Arte Contemporânea, com a qual o MUVART ocupou os mais variados locais. A visitar. E reflectir. Pelos seus conteúdos e pelas interacções que provoca com os observadores – que são estas, em última análise, os grandes objectivos deste(s) tipo(s) de abordagens artísticas. Que não se querem tanto como produção de discursos sobre o real, seus retratos ou manifestos, como nas mais clássicas concepções de arte, aquelas a que o público está mais habituado. Nestes casos quer-se mais provocar diálogos com quem visita. Onde a estupefacção, o intrigar, o “o que é que este tipo quer dizer?”, tem muito mais cabimento do que o “ah, que coisa tão bela, tão bem conseguida!” da satisfação de “alma” cheia a que as pessoas estão habituadas quando vão até à “arte”. Por isso o título desta semana, “vá ver a bienal de arte contemporânea”. Vá até lá. Inquiete-se, resmungue.

 

Interessante também pensar, durante a Bienal, o momento cultural da cidade, do país. Pois a primeira década do século em Maputo foi muito activa, e um olhar retrospectivo – para o qual talvez ainda seja cedo – poderá confirmá-lo. A cidade artística teve grandes momentos, cosmopolitas, nela brotaram um conjunto de eventos regulares de grande expressão. Foi uma boa década.

 

O mundo da fotografia foi elevado, a bienal Photofesta tornou Maputo uma capital da fotografia no continente. O Dockanema virou incontornável. O festival de teatro de Agosto teve várias edições, em torno do Mutumbela Gogo, ainda que talvez nunca tenha dado o “pulo” de público que se esperava. O festival internacional de música tem contornos particulares - sendo aquilo a que a vulgata chama de “música clássica” ele é, aqui, verdadeiramente um festival de world music, de música étnica (euroocidental). Mas criou raízes e, sabiamente, público nacional. E vários outros, de cariz regular. Neste âmbito a emergência do movimento de arte contemporânea, do MUVART, e a sua capacidade em realizar a bienal, é um marco. Já com uma década de actividade.

 

Esta segunda década do século interroga a capacidade institucional em prosseguir estes eventos – alguns deles já desvanecidos. E em reproduzir os seus efeitos no campo artístico nacional, em particular no urbano. Para mais, há mecenas. Ainda que, sendo francos, sejam mecenas pouco iluminados – e nunca convém falar demais sobre o facto, criar desconforto diante deles. Mas parece óbvio que há um hiato cultural entre franjas muito competentes do campo artístico nacional e o campo mecenático, sempre lesto a largar dinheiro para apoiar aquilo que julga ser a “boa arte”. Ou seja, aquilo que julga ser verdadeiramente identitário ou prestigiante.

 

Quando falo em capacidade institucional não me refiro às instituições estatais, sempre constrangidas com o défice de recursos. E que estão (legitimamente?) vocacionadas para um olhar sobre a cultura rural, ainda para mais porque entendida como constitutiva do país, da “alma nacional”. Algo sempre reafirmado nos festivais culturais nacionais. Para resmungo dos agentes culturais urbanos. Mas essa questão, que é outra e vasta, não pode deixar de apelar a esta evidência: os núcleos de cultura urbana erudita têm possibilidades de agir bem para além do Estado, de colher apoios disseminados na sociedade.

 

Neste sentido a questão da capacidade institucional em prosseguir os grandes momentos que XXI trouxe a Maputo liga-se muito à associação entre artistas e produtores. Não falo de produtores de eventos, de festas e festividades, que dessas está a cidade cheia (e felizmente). Falo de produtores culturais, que conheçam, acompanhem, promovam e provoquem a produção cultural. E desses há défice. Que o cansaço, emigração ou as múltiplas actividades daqueles que carregaram os “anos zero” de XXI em Maputo tem vindo a demonstrar.

 

Enfim, esta seria uma conversa longa, que não cabe neste “Ao Balcão da Cantina” (ou, a caber, seria em fascículos). Mas deixo esta sensação de assistir a uma contracção do movimento cultural cosmopolita em Maputo. Também por isso tão importante seja esta bienal de Arte Contemporânea, uma “atrevida” construção, uma desmedida ambição que muito deve a Gemuce e a Jorge Dias, já vultos do país. Para a semana aqui deixarei o registo dos meus passeios pelos locais invadidos por eles, e por aqueles que responderam à sua convocatória.

 

Hoje lembro a minha recente visita a Lisboa. Onde me surpreendi com a presença da arte contemporânea moçambicana. Nomes que não correspondem ao habitual – não os vultos históricos, os “embondeiros da cultura moçambicana”, como agora está na moda dizer [engraçado como nas metáforas do português de Portugal se atribui o estatuto de “baluarte” aos grandes vultos, ecoando uma tradição guerreira, e no moçambicano se afirma a prática silvícola, bem mais pacífica].

 

Em Lisboa estava Gonçalo Mabunda com uma pequena individual na galeria Bosart. Sete peças recentes (uma de 2008, as outras de 2010 até hoje). Cinco máscaras de ferro, um homem e uma cadeira (ecoando a saga das cadeiras que até já chegou ao Papa). Para apresentação numa cidade talvez seja significante, mostrar a “marca Mabunda”. Mas o figurativo explícito, do qual o escultor se tem vindo a afastar, embrulhado no registo cristo-pacifista de reaproveitamento de munições, tem o perigo de encerrar este excelente Mabunda numa espécie de “arte étnica” bem-intencionada. Espero que a sua próxima individual na minha cidade seja bem mais provocatória.

 

As fotografias de Filipe Branquinho e de Camila de Sousa estavam na mítica Gulbenkian (imagens reproduzidas). Um belo passo na carreira. Cada um tinha seis obras apresentadas, inseridas num colectivo dedicado a questões africanas (que é um costume no Verão português naquela fundação). Gostei do passo que deram, que com toda a certeza lhes trará alento (e apoios, que isto do currículo é importante) para os seus interessantíssimos caminhos. Não gostei nada, até me surpreendi, da forma como a Gulbenkian, que no “meu tempo” era local de excelência, lhes tratou as obras – algo de que Branquinho e Sousa são apenas vítimas. Pois as fotos apresentadas são excertos de obras, e ali surgem descontextualizadas, desirmanadas, assim quase in-significantes. Pois amputadas. E depois mal impressas, enrugadas, abandonadas. Espantoso. Imagino o que seria se aqui em Maputo fizéssemos isso às obras dos estrangeiros visitantes. Envergonhados ficaríamos. Indignados ficariam.

 

Também por isso, pelo cuidado que sempre se tenta ter, no respeito visceral por quem produz, apesar da escassez de recursos, é importante correr à bienal que está por aí (Centro Brasileiro, Camões, Kulunguwana, Centro Alemão, Fortaleza, Escola Nacional de Artes Visuais, e o campo do Estrela Vermelha).

 

  [Camila de Sousa"Isa", da série 3X4, 2011][/caption]jpt

publicado às 22:59



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