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Vasco da Gama

por jpt, em 08.04.09

vascogamainhambane

 

Evocando a aguada que Gama fez na região de Inhambane (10 de Janeiro de 1498) ali foi instalada uma estátua durante o período colonial (não conheço nem data nem autoria). Apeada aquando da independência está desde há muito acantonada no pátio traseiro de um edifício municipal.

 

É óbvio e normal que signifique bem mais para portugueses do que para Estado e sociedade moçambicanos. Não só porque Gama se destaca na galeria de heróis identitários portugueses. Mas, e talvez fundamentalmente, porque a historiografia oficial moçambicana continua a reproduzir a mitificação histórica portuguesa (tardo oitocentista e muito Estado Novo) dos "quinhentos anos de colonização" - assim fazendo, inevitavelmente de Gama o "primeiro colono".

 

Não me parece que a estátua tenha particular relevo artístico. Mas está lá, valendo como exemplar da arte (oficial) colonial. Recordo o que deste conjunto disseram José Forjaz: "A qualidade artística destas peças é muito diversa e vai do medíocre, ou mesmo francamente mau, à de grande valor estético. Não é, portanto, significativo observar cada peça por si só." (in Fernando Couto, Moçambique. Imagens da Arte Colonial, Ndjira, 1998, p.7) e Fernando Couto: "Ainda que concebidas e realizadas por uma outra cultura, estas obras fazem, hoje, parte, do património histórico moçambicano, são parte de Moçambique e devem, por isso, ser objecto de preservação e valorização." (Fernando Couto, Moçambique. Imagens da Arte Colonial, Ndjira, 1998, p.5).

 

Tendo em conta os precedentes de integração museológica dos exemplares de arte oficial colonial em Maputo (Fortaleza e Museu Nacional de Arte) e na Ilha de Moçambique (Museu da Ilha), não parece haver impedimentos práticos ou conceptuais para a salvaguarda desta estátua. O museu de Inhambane seria um bom destino, ainda para mais constituído por uma colecção suficientemente heterogénea para que não tenha a sua coerência agredida por esta obra.

publicado às 02:32


8 comentários

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De ABM a 09.04.2009 às 12:01



A História (com H) para sempre registará a romagem de Gama até à Índia em 1498 como um ponto fundamental de viragem da Humanidade (com H). Que ele tenha parado em vários pontos a caminho do sub-continente, e que apenas em alguns - poucos - tenha havido uma mais ou menos permanência portuguesa na zona é quase um acidente de percurso posterior face ao que representou para o Mundo (com M) o facto de, pela primeira vez e de forma irreversível, pela mão de um punhado meio genial e meio maluco de europeus - os portugueses das gerações que se sucederam a D. João I e seus filhos, que tiveram a "genial" ideia de, feitas as pazes com os espanholes depois de uma versão peculiar de blitzkrieg medieval, conquistar Ceuta em Agosto- Setembro de 1415 - ligou os destinos de todo o planeta. E Vasco da Gama é dos mais evidentes desses "descobridores". O seu estatuto é decididamente impoluto em termos do que veio depois, que, aliás, não se distingue particularmente do que sucedeu com todos os percursos coloniais, não fosse o ideário rural-fundamentalista-novecentista do "late" Oliveira Salazar, que, infelizmente, capturou a imaginação de parte significativa do povo português de então, até que os americanos e os regimes comunistas armaram os boys locais e começaram a vir portugueses de volta para Lisboa em "body bags", enquanto que a versão portuguesa da prosperidade no pós-guerra era servir à mesa nos cafés de Paris ou nas obras na Alemanha. Gama nada tem que ver com isto e o facto de ter sucedido no contexto dos riscos, violência, desconhecimento (e pilhagens) destaca-o. Se Inhambane não desejar a estátua que lá puseram os "colonos", por achar que ele nada tem que ver com a sua história (com h) ou por esta geração o considerar um "alien", mandem-ma aqui para o Alcoentre, que para variar já foi colonizada pelos romanos, visigodos, árabes e visitada pelos espanholes, ingleses e franceses, que eu arranjo um sítiozinho para a pôr. Eu pago a despesa. Ele, apesar de ter morrido em Cochim, Gama quis ser e foi sepultado na Vidigueira.
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De umBhalane a 09.04.2009 às 21:12

Caríssimo ABM

Eu iria lá admitir que arcasse sozinho com a causa.

Colono, branco de 2ª classe, conscientemente Português até à medula, pago ½ da transladação da estátua de D. Vasco da Gama.

Creio mesmo, que faria todo o sentido o Estado Português negociar a reversão de TODOS os monumentos que ficaram em Moçambique – TODOS.

O regime no poder em Moçambique não os quer.

Não vejo, por isso, grandes dificuldades – é uma questão de mola ($), e seria um grande alívio para a Frelimo.
Fariam 2 em 1.

Vamos a isso.
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De jpt a 10.04.2009 às 00:33

1. num blog como este, um pouco em águas de bacalhau (assim como o seu dono) tenho que vos agradecer a recorrente comentarice, companhia a prezar e a animar o estaminé. A prosa nestas caixas ainda é do melhor que por aqui se passa.

2. 1B não concordo. Há algum tempo já deixei uns textos longos ("notas sobre a ilha de moçambique") que, grosso modo, integra a minha ideia sobre a relação complexa da sociedade moçambicana e do seu Estado com o património arquitectónico (e monumental) deixado pelos portugueses. Acho normal que não seja uma prioridade e, até, que o seu manuseamento seja algo intelectual e ideologicamente complexo e ambivalente - este não é, como é óbvio, um património identitário. E, em particular, foi difícil de integrar aquando do esforço inicial da "construção da nação".

No entanto parte desse património está perfeitamente reintegrado com - como digo no post - enquadramento museológico condigno [se calhar mais até do que a valia individual das peças o mereceria]. A Fortaleza de Maputo está em muito bom estado (conservação e utilização) e alberga a estatuária colonial da cidade, a pintura oficial portuguesa está no Museu Nacional de Arte e foi restaurada em parte, a ilha de Moçambique alberga o museu e tem as estátuas reparadas.
Noutros casoss isso ainda não aconteceu, porventura por inércias locais (e acho que Inhambane é um caso típico) ou falta de recursos - na Beira, por exemplo, não há uma infraestrutura que albergue os vários exemplares aí deixados.

Não me parece, repito, que tenha razão no radicalismo da sua opinião, aplicada aos tempos de hoje.

3. ABM, não desfazendo nos outros [cada vez mais parcos] companheiros destas courelas, a tua verve vai-me animando aqui ... (e acho que não quererias o raio do calhau aí nas tuas machambas, mas é um feeling meu ...)
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De ABM a 10.04.2009 às 14:47

Olá Zé & Camaradas da guerra da caneta,
Depois de um berro meu, a Tê Éme Éne decidiu trazer o mato rural de Alcoentre para a era da civilização socratiana e meteu uma antena de alta velocidade na antena da internet deles, pelo que já posso comunicar convosco a partir do meu canto moçambicanês rodeado de pinheiros, sobreiros e eucaliptos, em "high speed". Wow, que diferença faz um berro nesta terra. A Tê Éme Éne pensava que Alcoentre ficava em Hespanha, veja-se só.

O que queria realçar é o seguinte: a que hoje chamam Fortaleza de NS da Conceição é basicamente uma fraude, uma espécie de castelo da Disneylândia feita durante a II Guerra Mundial pelos então patrões da cidade para os turistas sul-africanos que vinham a LM fazer uns negócios e dar umas voltas no Casino Belo (que ficava na Praça Mac Mahon (ou lá como se chama hoje) em frente à estação dos CFM e ir à praia. O local corresponde mais ou menos ao sítio onde houve de facto uma miseranda paliçada de paus e barro na ponta da língua de terra onde estava a "fortaleza". Não é bem o mesmo que as fortificações de Moçambique, Sofala, Tete, etc, que sim, foram feitas nos tempos das rotas da Índia (de que LM nunca fez parte). Mas, pronto, tem um ar "vintage" colonial e, mais importante, tinha um átrio porreiro para se pôr o cavalo do Mousinho a olhar para a cara do António Enes.
Estes tiques das elites no poder são perfeitamente entendíveis. No tempo dos faróes egípcios, quando havia um que tinha sido por alguma razão percepcionado como um grandessíssimo cabrão, o que vinha a seguir mandava apagar das inscrições de pedra a sua cara, o seu nome e descrições dos seus feitos. Supostamente, era como se não tivesse existido nunca. Quatro mil anos depois, estes "black holes" eram perfeitamente identificados e reconstruídos. É uma chatice, esta mania de uns quererem os factos, e outros quererem os factos que querem, uma espécie de história feita por encomenda. Felizmente, daqui a duzentos anos ninguém em Moçambique se vai lembrar deste episodiozito e antecipo que, sem dor nem remorso, os moçambicanos de então recordarão com a indiferença que o tempo causa, e aproveitarão o tal património que resta (sendo o único que se me afigura como inapagável a velha Lourenço Marques) para atrair turistas e contar estórias coloridas. Para suprema irritação de alguns dos presentes, na velha língua dos portugueses.
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De umBhalane a 10.04.2009 às 19:07

Caro JPT

O pessoal foi obrigado a abalar, porque o discurso da Frelimo não dizia cara com careta.

P.F. leia a msg da mesma, por altura da tomada de posse do governo de transição.

E a entrada de SM em Moçambique, qual elefante numa loja de porcelanas, e os acontecimentos que se geraram.

A minha caravela fez-se ao mar em 06-07-1979, de regresso.

Vi na Ilha monumentos apeados, entre os quais, Gama e Camões.

Custou-me ver o Gama, mas Camões foi muito mais sofredor.

Qual não foi o meu espanto quando vi também o monumento aos mortos da Grande Guerra, não me recordo já de qual, mas creio que da II, todo partido a golpes de marreta?, com especialmente incidência nos simbolos identitários de Portugal.

Eram outros tempos...difíceis, compreensíveis até, poder-se-á invocar...

Mas o discurso do Sr. PRM, Sr. Guebuza, aquando da "famosa" reversão de Cabora Bassa, é por demais elucidativo...

e o vexame a que foram votados Portugal, e seus representantes, esclarecedor q.b. para gáudio e satisfação da imprensa mais radical, e dos descentes de "Gaza".

E se sempre estive esclarecido quanto à natureza desse regime, e seus sentimentos, acabei por ficar definitivamente esclarecido.

De vez.
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De jpt a 10.04.2009 às 19:28

Há aqui vários assuntos, todos "conversáveis":
1. a "fraude" da Fortaleza de Maputo - discordo que seja uma "fraude" no sentido de dar uma autenticidade genética aos monumentos (questão que não caberá aqui). É um "pastiche" (em Lisboa também há um, e muito visitado ..., e também do Estado Novo)
2. a "miseranda paliçada" - mas que foi a "única" [pois reconstruída ao longo dos séculos] presença portuguesa na baía, entreposto comercial pagando impostos. Sítio de aguadas e de refúgio na carreira da índia. Aproveito para recomendar dois livros (A Crónica dos Reis Vátuas, para mostrar como em 1832 se articulava o entreposto com as autoridades da região; O Naufrágio do Sepúlveda, seja na versão história trágico-marítima seja na ficção de Vasco Graça Moura [que nunca vi], que implica como em XVII a baía era um cíclico ponto de passagem)
Mas acima de tudo há adjectivação a mais para a história. Tudo em reacção ao fascista "gesta". Foi a história, nem tão épica como a cantaram, tão benfazeja como o reclamaram, nem tão miserável como o resmungaram

2. E mais abrangentemente: acho que ambos vós, em termos algo diferentes, têm um olhar diverso sobre isto do que eu [talvez por influências biográficas]. Digamos assim, se eu tivesse sido colonizado (e da forma como foi o colonialismo em África, não apenas no sentido de protectorado) por uns marroquinos ou suíços também teria apearia e partiria as estátuas desses senhores ... ainda que algumas décadas depois pudesse mudar de ideias

3. A história poderia ter sido diferente? Antes e depois da independência, com toda a certeza. É aliás uma característica da história, poderia sempre ter sido diferente. Donde, não interessa o "se"

4. Há uma coisa em que discordo com 1B - não há um regime em moçambique, no sentido que lhe dá. 35 anos de independência implicam diferenças. há tendências perenes, há grandes alterações.

Quanto à "reversão" de Cahora-Bassa aí concordo, foi um "facto social total", denotou a estrutura de uma relação política muito poluída [o que é, insisto, normal]. Mas disse muito mais sobre a política externa portuguesa e sobre a sociologia da nossa administração pública [absolutamente lamentável efeito da incompetência engalanada] do que sobre o regime político moçambicano.

5. Pequena adenda: fronteira à Estação central dos CFM em Maputo está o monumento (e que estética tem ...) aos mortos da I GM. Intocado - está por fazer a história social (nem será feita pois não haverá grandes fontes) ou a ficção sobre os carregadores dessa guerra, quantitativamente as grandes vítimas e que foram recrutados à força. Está ali a homenagem. As coisas têm muito mais significado do que a adjectivação lhes procura impor, acho eu
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De ABM a 14.04.2009 às 02:43

Boa noite JPT & Cia

1. Sim, de facto da história rezam, como já referi, razias culturais e distorções da história q.b. Alguns que me ocorrem são o televisionado derrube da estátua de Saddam Hussein na baixa de Bagdad após a grande investida americana da Era Bush 2, a rotineira conversão das mesquitas muçulmanas pelas hordes portuguesas que iam por esse (hoje) Portugal abaixo, os actos deliberados de desinformação sobre eventos históricos alguns deles centrais para uns. Dou aqui o exemplo da batalha de Aljubarrota, que nos livros de história de Espanha ocupam pouco mais que nota de rodapé mas que no imaginário português são o fim do mundo em cuecas, com direito até a santificar o genial Nuno Álavres Pereira (seiscentos anos depois, um pouco como a discutida promoção do Sr Coronel Jaime Neves). Se a elite moçambicana fizer um pouco do mesmo, bem, é a vida. Faz parte do espólio dos vencedores cantar (e dourar) as suas vitórias. E mandar os monumentos dos outros abaixo. E mudar os nomes às coisas. Tem a vantagem adicional de ser sonante e barato ao mesmo tempo.

2. Sobre a "velha" fortaleza de Lourenço Marques concordemos amigavelmente em discordar. Dada a sequência dos eventos, até acho piada que haja quem leve aquilo a sério e que nela veja história ou tente visionar o que terá sido para o português manter o pé nessas paragens. Garanto-te que enfrentar uma horde atacante atrás daqueles magníficos paredões de pedra e estar protegido por paus de eucalipto coberto com lama seca não é bem a mesma experiência mas enfim.

3. Em tempos li algumas coisas sobre a I Guerra Mundial em Moçambique. No encalce do incomparável von Vorbeck, os ingleses mandaram os seus melhores generais (entre eles o boer Jan Smuts) e meio milhão de soldados britânicos durante quatro anos. Os portugueses mandaram meia dúzia de gatos pingados em 1916, com armas quase medievais e puseram os locais à frente com arcos e flechas. Perderam vergonhosamente em toda a linha e von Vorbeck e os "seus" africanos fizeram absolutamente o que lhe apeteceu no Norte de Moçambique até se render duas semanas depois de a "Grande" guerra acabar, tomando confortavelmente um chazinho com torradas com os seus oponentes. Seria difícil, até para o mais duro e racista colonial, não mencionar que foram os africanos a carne para canhão. Miraculosamente, tal como o ainda supreendentemente comemorado episódio da batalha de Marracuene, quer o episódio quer a sua associada simbologia, foram reinventados e adaptados à dialéctica dos dias que correm. Ademais, a praça da estação dos CFLM na altura era um jardim feiote q.b. e estava na moda toda a gente fazer mausoléus aos Heróis da Grande Guerra (Portugal está pejado deles). Há na internet um site com a história do monumento, que foi feito ali para as ...Caldas da Raínha?

Em resumo, um dos grandes divertimentos que encontrei nesta já algo demasiadamente longa vida minha tem sido tentar entender alguma verdade histórica na teia de factos, construções da ficção, a dissimulação, o heroicismo, a mediocridade e os equívocos dos que sobre ela se debruçam. É verdadeiramente divertido. Na dialética histórica moçambicana creio que ainda impera em alguns círculos um pouco da simplicidade dos filmes de cowboys e índios norte americanos dos anos 40, em que os cowboys eram sempre os bons e nunca havia nenhum índio bom a não ser depois de morto. É uma chatice e uma regra básica de qualquer enredo heróico, desde a Bíblia até Shakespeare e qualquer bom Western : para haver heróis tem que haver sempre vilãos. Só nas obras de Eça de Queiroz é que todos são vilãos e todos sofrem miseravelmente - excepto o Jacinto da Cidade e as Serras, redimido pelo confronto com a salúbre natureza rural portuguesa.
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De A FORTALEZA QUE NÃO É | ma-schamba a 07.10.2010 às 02:15

[...] neste repositório de informação totalmente grátis que é o Maschamba, uma nota intitulada Vasco da Gama, em que, tendo estado na cidade de Inhambane, basicamente resmungava por ver uma estátua meio [...]

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