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por jpt, em 15.08.15

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Hoje mesmo, sábado, cruzarei o Tejo na via do sul, buscando este "O Sol da Caparica", festival musical. Coisas de ser pai, em função de acompanhamento (escolta, se se quiser), a aproveitar, sôfrego, estes últimos tempos enquanto a mariposa não voa para o definitivamente longínquo. Tremo, um pouco, com o que acontecerá, com o que me acontecerá, pois o último festival de Verão a que fui foi a Festa de Avante, ali pelos meados dos 1980s, pouco após os meus exactos 2o anos. Fora lá desde o início pois o camarada Pimentel - apesar das suas suspeitas quando ao desvio de direita "eurocomunista" de Berlinguer - tal como o de Carrillo e, também, também ..., de Marchais -, acompanhara-me diante dos Area na FIL nesta hendrixiana "Internacional" e, no ano seguinte, deixara-me assistir a Eugenio Finardi, aí já ombreando com os míticos Fairport Convenction. Naqueles tempos a Festa do Avante conjugava gerações, a gente aterrava ali a beber durante três dias (e a fumar que se fartava, vá lá, que também era verdade), a "camaradar" entre nós e com os mais velhos dali, os camaradas mesmo, aqueles voluntários dos pavilhões regionais a rirem-se dos nossos "camarada" e nisso a serem camaradas, no servirem/ajudarem às cervejas e comes, para nos manterem em pé, e mesmo assim nós por vezes a desconseguirmos ... Nisso a gente, em tempos tão diversos, via pavilhões do mundo inteiro (o comunista, claro) e do resto do país, nestes com os petiscos locais, jogava-se xadrez com os macro-grandes mestres soviéticos e ouviam-se inúmeros músicos de todos os lados, desde os desconhecidos, e alguns que músicos!!!, e os Dexys Midnight Runners (que concertão), aquele Chico Buarque (no apogeu!!, ainda que trémulo por questões lá dele, biográficas), o Manu Dibango (Manu Dibango em Lisboa naquele tempo? tão raro que me obrigou a voltar àquele Festa, já anos depois de me ter recusado a ir), o rock celta então em voga, proto-etnomusic, o Ivan Lins provavelmente no melhor concerto da sua carreira (com a belíssima mulher de então, uma loura Lucinha a alumiar Lisboa), Jorge Pardo, o fantástico "corno" de Paco de Lucia, num pavilhão menor numa actuação inesquecível da qual nada recordo, Makeba sem eu saber quem era Makeba, o gigante Luis Gonzaga diante de uma audiência que não o sabia ouvir, Charlie Haden a enfrentar um público estupefacto e também Max Roach, e tantos outros, ali todos os anos polvilhados pelo discurso quase final do camarada secretário-geral, o grande Cunhal. Foi mesmo isso que me acabou ali, no cruzar a chegada aos 20 anos, na azia, enorme, de ver que nenhum Godinho ou Vitorino, sempre cagões - e ainda hoje - com a puta da liberdade na boca, como se dela fossem arautos, dedicava alguma canção, pequena que fosse, àquele Sakharov então sob custódia, e das duras, que o Ary dos Santos, poeta histriónico gritador de poemas diante de milhares, nunca lembrava os homossexuais perseguidos (e bem fodidos) nos países lá deles. Um dia, sei lá quando, mas depois dos The Clash no Dramático de Cascais, irritei-me mesmo com a merda do público a cantar o hino nacional (sim, o bacoco "às armas") de punho direito erguido, "que faço eu aqui?!" qual Rimbaud na Ajuda, e, foda-se, nunca mais lá fui. Os gajos, mesmo aquela turba simpática, o povo d'aquém e além-Tejo, eram, e mesmo sem o saberem, pobre gente alienada (como dissera o tal Marx), e nisso o inimigo. Vil. Segui para outros concertos, mas nunca festivais.

Volto agora à turba, decerto que para um canto do olho (e quão apaixonado!) na filha, outro no palco. E vou triste, pois sigo, reparo hoje, desarvorado, nem uma t-shirt dos Xutos tenho, e é dia deles. Irei assim quase nu. E comportando-me, que sei ser vedada à paternidade os excessos naturais diante do obrigatório, do obrigatório apenas para mim, os "meus", talvez coisa de geração. Irei pois como se pai mas já hoje preparo os antebraços para o mítico, cultual, "X", que se o punho nunca ergui aos antebraços ainda o farei, cultuando esses que ouvi quando tocavam com uns tais de "minas e armadilhas", que terei feito no mítico 31 de Julho no Rock Rendez-Vous, a gravação de um "live" que nunca existiu, há mais de 30 anos, isso porque véspera do "1 de Agosto", dia de "sacola às costas, cantante na mão", e que fiz, ali quase-só, que só o grande Hernâni me acompanhava naquele mar de gente espantada, em Maputo em 1999 e nunca mais, pois que nunca mais os vi. Vou, cultuar, agora pai mas amanhã filho, homem, para gritar "Contra tudo lutas. Contra tudo falhas. Todas as tuas explosões. Redundam em silêncio", o verso da música portuguesa .... E quem o segue, ao verso, ao resto, ao destino, é "quem já nada teme".

Porque, afinal, a tal liberdade é isto, se calhar só isto, o amarfanhado jogo dos riffs. E da desesperança, mesmo que mitigada .., isso do "a vida é sempre a perder" mesmo sabendo que nenhum de nós é "um caso isolado", nem o "único a olhar o céu", porque "quando as nuvens partirem ... vais(vamos) ver o sol brilhará" ...

 

XXXX

 

publicado às 03:30



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